Monday, March 20, 2006

Colunas do Semana 3

As colunas de Alexandre Soares Silva, Delfin (quadrinhos), Ricardo Meirelles (economia), Wagner Geribello (mídia), Marcelo Träsel (gastronomia) e Bruno Ribeiro (boteco, política & afins), publicadas entre maio de 2004 e março de 2006 no jornal e, depois, revista Semana 3.


Alexandre Soares Silva, Ricardo Meirelles, Wagner Geribello, Delfin, Marcelo Träsel e Bruno Ribeiro

Alexandre Soares Silva, março de 2006

Sai de mim, Rubem Braga

A crônica é o mais cretino dos gêneros literários porque é o único que se dedica completamente à celebração do homem comum. Quando é um homem incomum celebrando o homem comum, temos uma crônica boa (se é que existem crônicas boas. Estou deduzindo a existência de uma crônica boa por raciocínio, mas nunca li nenhuma). Em outras palavras, temos um homem incomum ao mesmo tempo escrevendo bem e sendo demagógico; elogiando quem está abaixo dele e seu estilo de vida e lhe dando um tapinha sintático na cabeça.

Quando é um homem comum celebrando o homem comum, temos todas as outras crônicas que já vimos na vida, em todos os jornais. Olha lá o cronista sentado no banco da praça olhando os passarinhos. Os próprios passarinhos o odeiam. Se os passarinhos escrevessem crônicas, seriam textos xingando Rubem Braga de corno e Paulo Mendes Campos de sifilítico. A obsessão dos cronistas (e dos músicos populares) por passarinhos é estranhamente parecida com a obsessão de um autista por duas dezenas de clipes caídos no chão. Vai ler um livro!

Ou então está no banco da praça falando dos, meu Deus, “tipos de minha infância” pra quem chegar perto. O Zé Bolacha, que comia muita bolacha! A Maria da Sarna, que tinha sarna! O Juca da rua de cima, que era dono da bola de capotão! Quando leio as palavras “bola de capotão”, fecho o livro; mas tarde demais, porque já devia ter fechado na palavra “Zé”.

Por favor, não me fale dos seus joelhos esfolados de guri, nem da professora azeda que um dia (oh!) chorou na classe por causa da morte da filha dela, lhe ensinando assim que pessoas azedas também choram e lhe dando para sempre uma lição da fragilidade da vida! Nem da menina que fazia favores sexuais no terreno baldio atrás da marmoraria. E se for jornalista faz tempo (por oposição ao cronista-romancista e ao cronista-publicitário), chega de anedotas pitorescas sobre Adolpho Bloch, entremeadas por mais anedotas pitorescas sobre Adolpho Bloch, e passando por anedotas pitorescas sobre Samuel Wainer (“um dia ele tirou a meia e ih, rapaz, tava fedido. Aí o Filinto Muller disse “Ih, rapaz, cobre isso”. Daí eu fui trabalhar no Zero Hora”). Cronistas-jornalistas acreditam que Adolpho Bloch era uma espécie de Samuel Johnson, e que os menores detalhes de sua vida merecem ser recordados. Não, nem os fatos principais da vida de Adolpho Bloch merecem ser recordados. Quero esquecer quem foi Adolpho Bloch com a volúpia dos desesperados. E o primeiro que chamar Samuel Wainer de Samuca vai levar com a minha edição das Obras Completas de Carlyle no nariz.

O problema da crônica é o seu humanismo de tio chato que vem visitar no domingo. Ele vem e senta do lado do sobrinho, que está vendo tevê, e fica falando que quando era criança caçava passarinho com bodoque. Ok, tio. Você já disse isso no domingo passado. Mas o tio fica listando tipos de passarinho: “Ih, a gente caçava corruíra... pichochó... a gente caçava caboclinho... gaturamo, sanhaço... ”

Não que exista outro tipo de humanismo além do humanismo de tio chato, do humanismo gaturamo, sanhaço, corruíra, do humanismo leila diniz djavan chico, ai minha iáiá, meu nhonhô, saravá meu filho, o-meu-porquinho-da-índia-foi-a-minha-primeira-namorada; esse humanismo Irene-preta, Irene-boa, Irene-sempre-de-bom-humor. O humanismo é isso, uma coisa pequena e despretensiosa e jeitosinha. A princípio atrai simpatia porque é, bem, pequeno e despretensioso e jeitosinho. Não bate nele, está aí sentado no banco da praça sem fazer mal pra ninguém. Talvez tenha tido um derrame, está de boca aberta nesse sol faz uma hora já.

O humanismo é do que o Brasil é capaz de melhor, o ponto máximo que um espírito completamente identificado com o espírito nacional é capaz de atingir, nas duas vertentes Crônica e Bossa-nova. Não é ruim. Na França um humanismo muito parecido, só um pouco menos desmilinguido, deu Simenon, que é bom. Deu os filmes de Truffaut, que são mais do que bons. Mas não vai além disso, e na maior parte do tempo fica bem abaixo disso.

O Brasil não é capaz de ir além disso, e na maior parte do tempo fica bem abaixo disso. Vai ficar para sempre sentado num banco de praça, olhando os passarinhos com cara de bobo, falando da Maria Sarnenta da infância dele, que era meio retardadinha, coitada, e tinha olhos de traíra.

Podia ser pior? Podia. Há ideologias piores? Há, muito piores. Graças a Deus pela crônica e pela bossa-nova, porque o Brasil sem isso seria medonho demais para a contemplação humana. Pessoalmente nunca consigo ler Rubem Braga muito tempo sem sentir vontade de ler Nietzsche (não sou um grande fã de nenhum dos dois), mas reconheço uma coisa: associar o pensamento de Nietzsche ao nazismo é uma distorção do pensamento de Nietzsche, mas não uma distorção completa: alguma coisa nele (admiração pela crueldade, pelo “homem forte”) pode ir dar no nazismo se exagerado, ao mesmo tempo que nada na filosofia de Rubem Braga (passarinho é bonitinho, mulher é fascinante, banho de mar é gostoso) jamais vai dar em nada muito ruim, por mais exagerado que seja.

Sei disso. Mas chegamos a esse ponto? Temos que ter pena dos cronistas porque eles estão sentados quietinhos e pelo menos não são nazistas? É isso o melhor do que o espírito nacional é capaz de produzir, alguém que é bonzinho e não aderiu ao Partido Nazista porque perdeu a sunga na correnteza e está pedindo ajuda no Posto 6? Ok, entre um nazista e o tio Valdir olhando pombo na praça escolho o tio Valdir – mas só temos essas duas possibilidades?

Levanta desse banco, carioca! Pára de molestar o colibri! É impossível olhar para um cronista por muito tempo sem sentir uma vontade incontrolável de sacudi-lo freneticamente pelo colarinho.

(Publicado originalmente na edição 37, de março de 2006, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, dezembro de 2005

Heather Graham não fica em casa



Nunca entendo o motivo das pessoas saírem de casa. Suponho que tenham casas ruins. Aquela multidão de pessoas na avenida, paradas vendo teatro de rua ou coisa que o valha, todas com casas ruins. Aquelas pessoas paradas no shopping vendo a tevê que fica na vitrine, o que diabos é aquilo? Amundsen e Scott e sei lá mais quem atravessando o pólo norte de lá pra cá - só porque tinham uma biblioteca ruim em casa. Se tivessem as obras completas de Simenon não fariam isso. Acredite, uma simples coleção de DVDs teria evitado o afundamento trágico do Shackleton.

Oh, mas o cinema. Sim, o cinema. Cinco vezes em seis você sabe que vai sentar perto de alguém que fala alto. Na sexta vez é alguém que fede. Minha lembrança de ter ido ver “O Senhor dos Anéis I” é a de ter sentado do lado de um gordo de bermuda que fedia a pano molhado. Primeiro a minha namorada sentou do lado dele, depois pediu pra trocar sem explicar o motivo.

Meu ideal era arranjar uma namorada que gostasse de ficar em casa, mas eis a regra: mulheres bonitas gostam de sair, justamente porque são bonitas. Mulheres feias é que gostam de ficar em casa (justamente porque são feias). Talvez eu pudesse encontrar um meio-termo, uma mulher mais ou menos, que gostasse de ficar no jardim, sei lá eu. Ou, melhor ainda, uma mulher linda que se achasse horrorosa, que tivesse alguma espécie de trauma com relação à aparência. Eu nunca diria o quanto ela é linda. Não, não. Ela perguntaria se é bonita e eu esperaria cinco segundos, simulando constrangimento, antes de dizer: “Que é isso, até que você é bonita.” Dando um tapinha no ombro dela para animá-la. Há muitas mulheres assim, as mulheres lindas têm todo tipo de insegurança, vocês é que estragam tudo dizendo o tempo todo que elas são lindas.

***

Pessoas que dedicam blogs inteiros a sexo. Sexo é bom, ok, mas amendoim também é bom e eu não vejo blogs inteiros dedicados ao amendoim. “Ah, está comparando sexo com amendoim, é maluco”. Bom, amendoim é mais barato. Se você encontrar uma prostituta que cobre tão pouco quanto um saquinho de amendoim japonês Yoki, advirto-o que fuja, porque ela não só deve ser velha e feia como deve ter várias doenças impressionantes, incluindo dança de São Vito e radioatividade. “Se você faz essa comparação é porque não sabe” (atenção para o sotaque carioca, em que cada vogal é seguida pelas outras quatro – “e” se tornando “eaiou”, “a” se tornando “aeiou”, etc) “trepar” (uma palavra inventada por roteiristas de cinema nacional circa 1972).

Eu, não sei treaiuopaeiuor? Não, é você que não sabe comer amendoim. E quero ver você se divertir com a sua prostituta radioativa sentado no sofá enquanto vê “Notting Hill” do jeito que eu me divirto com um saquinho de amendoim sentado no sofá vendo “Notting Hill”. Assim que ela começar a se sacudir com os espasmos da epilepsia e o olho de vidro dela quicar na sua barriga você vai se arrepender de não ter gasto os seus R$3,10 num saquinho de amendoim, posso garantir. (Pessoalmente prefiro castanha de caju, mas estou saindo um pouco do assunto.)

Pode ser o melhor dos escritores, na hora de escrever sobre sexo escreve mal. John Updike, por exemplo; apesar de alguns livros ruins é um escritor muito bom, cuja habilidade foi elogiada por Nabokov. Mas, mas, mas. Estou vendo aqui uma passagem dele que concorreu ao Bad Sex Awards, aquele prêmio criado pelo filho de Evelyn Waugh, o jornalista e polemista Auberon, para “chamar atenção para o uso grosseiro, vulgar e freqüentemente perfunctório de passagens redundantes de descrição sexual no romance moderno, e desencorajá-lo”.

Updike começa falando muito bem sobre “seis ou oito corvos” que batem contra os galhos de um carvalho muito alto, o que faz com que o personagem, deitado na grama com uma mulher, sinta o coração acelerar. Achei esse trecho realmente bonito. Mas daí o personagem olha para baixo, e Updike esculhamba tudo. É impossível, digo-vos, escrever uma frase não-ridícula com as palavras “o meu pau” no meio – idem para “o pau dele”, claro, ou qualquer, aaagh, ugh, “pau” - mesmo sem os adjetivos “túrgido” ou “impávido” acompanhando. Quando for rico, oferecerei um milhão de reais para quem conseguir fazer algo do tipo sem me fazer soar o alarme (túrgido, túrgido) da vulgaridade.

E o ganhador do prêmio no ano passado foi Tom Wolfe, com um trecho em que, aparentemente, os dedos de um sujeito chamado Hoyt foram parar debaixo do elástico da calcinha de uma mulher que eu não sei o nome, “geme geme geme geme geme”, escreveu Tom Wolfe cinco vezes, “fez Hoyt enquanto ele deslizava deslizava deslizava deslizava”. Note que Wolfe só repetiu “deslizava” quatro vezes. Ah, nada é por acaso na arte da prosódia.

Existe uma proibição, sim, em relação a se falar sobre sexo, mas é uma proibição natural: para que ninguém falasse do assunto, Deus fez com que o sexo fosse ridículo.

***

No final da visita uma tia minha me segurou na mão e disse: “E você cuidado, recebi uma inspiração, você é muito invejado...”

Que superstição, a inveja. Essa é a única religião das mulheres. Elas podem se dizer protestantes, judias, shintoístas, o que seja; tudo isso é superfície. Na verdade só acreditam em Inveja. Quando me dizem que a samambaia secou porque a vizinha do 171 olhou com inveja o arranjo floral, e eu digo que inveja é superstição, elas me olham com raiva de pequenas torquemadas.

E talvez um pouquinho de pena. Não fui iniciado nos Mistérios do Olho Gordo... Como um adulto que não vê fadinhas, não vejo inveja em parte alguma. Entro numa casa em que não vejo absolutamente nada para ser invejado, e a dona da casa pendurou alguma coisa, em algum lugar, “contra a inveja”. Estou falando sério, é a religião das mulheres...

(Publicado originalmente na edição 36, de dezembro de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, novembro de 2005

O mito brega da oposição



Quando Lula virou presidente (ah, não se pode dizer “virou”, como se ele fosse um lobisomem; em colunas políticas só se pode dizer “foi eleito”, eu sei), no primeiro momento fiquei contente porque, pela primeira vez na minha vida, eu ia ser realmente oposição. De verdade! Como toda aquela gente que eu passei a adolescência admirando: Paulo Francis, Millôr Fernandes, sei lá eu mais quem.

Me lembro que na época, na semana mesmo da eleição, estava discutindo o assunto por e-mail com um bando de petistas. Na noite da eleição deixei uma mensagem que para mim parecia de triunfo, meu, para eles: “Parabéns: vocês agora são situacionistas.”

Fui dormir, aquela noite, sendo oposição – e todos aqueles cretinos, comemorando com buzinas na Avenida Paulista, foram dormir situacionistas, governistas, e mais uma série de coisas inacreditavelmente vergonhosas. (Em política, que o nosso lado sempre perca: é o que eu desejo de melhor para a dignidade de qualquer pessoa.)

Mas ao acordar no dia seguinte, a primeira coisa que pensei foi: “Ok, sou oposição – vamos pegar o jornal e ver o que está acontecendo”. E o pensamento de que agora eu era obrigado a prestar atenção no que um lorpa badameco como Lula dizia ou fazia me deprimiu tanto que as unhas se despregaram dos meus pés de tanto desgosto, e meus cabelos ficaram brancos do nojo de semelhante tarefa.

Recusei. Não fui oposição, nem mesmo no meu cantinho. Na verdade, nesses três anos mal falei do Lula. Talvez, quando alguém me contava uma ou outra coisa que o Lula fez, eu tenha rido pelo nariz; mas tenho certeza que foi só isso. Mal tomei conhecimento da existência de Lula, e me orgulho de ter feito isso. A beleza de ser oposição é um mito romântico e brega abraçado por jornalistas – pessoas que muitas vezes, para qualquer outro assunto, são sensatamente cínicas, mas no fim acham romântico desperdiçar o próprio talento prestando atenção no deputado tal, no senador não sei das quantas, para poder falar mal deles numa coluna.

Claro, ainda piores que os jornalistas que acreditam no mito romântico e brega da Oposição são os jornalistas que não acreditam nele. Há quem não dê a mínima. Me lembro muito bem, e espero que todo mundo se lembre, como praticamente todos os jornalistas brasileiros escreveram coisas de uma subserviência patética nos primeiros meses do governo Lula (e nos meses anteriores também). O que eles disseram de Lula, em público, eu teria vergonha de dizer de uma mulher bonita, sozinho com ela, no escuro.

Essas mesmas pessoas passaram décadas cultivando o mito romântico do jornalista de oposição, ouvindo Elis Regina, cheirando cocaí-na e chorando. No primeiro governo feito de gente mais ou menos como eles, abaixaram as calças. (É difícil evitar essa imagem sexual aqui. Eles mesmo usavam imagens sexuais contra quem de alguma forma se aliou aos militares durante a ditadura. “Lambedor de botas” era o que diziam de mais leve.)

Os nomes dessas pessoas estão guardados para sempre, onde quer que jornais sejam guardados. Seus netos, bisnetos e trisnetos verão o papel bonito que fizeram. É como ter um trisavô que ficou conhecido por passar quatro anos falando bem do Excelentíssimo Sr. Presidente Venceslau Brás. Ok, não é a mesma coisa que ter apoiado Hitler ou Mussolini, concedo; mas mesmo assim não enche ninguém de orgulho ao olhar a foto do trisavô bigodudo.

Da minha parte achei bom que Diogo Mainardi tivesse se ocupado em ser, quase sozinho durante um bom tempo (blogs não contam), a oposição a Lula; ele fez o que fez muito bem, e embora eu tivesse preferido que ele passasse esse tempo escrevendo livros, o fato é que ele me livrou de ter que fazer a mesma coisa aqui no meu canto. Desse modo pude passar três anos lendo romances do século XIX, e ouvindo Beethoven enquanto comia bala de goma. Vi várias vezes os seis filmes da série “Thin Man”, com William Powell e Myrna Loy. Escrevi sobre, sei lá eu, Lee Van Cleef, Philip Seymour Hoffman, os livros de James Bond. Sei que o governo do PT esteve envolvido numa coisa chamada Escândalo do Mensalão, mas não quero saber dos detalhes.

Recusei a tentação de me rebaixar ao nível da mera oposição. A desgraça da oposição é ter que prestar atenção naquilo a que se opõe. E é isso que todos os governos querem, mais do que bajulação ou adesão irrestrita: que prestem atenção neles. Sei que há pessoas que acreditam que todos os governantes querem que não prestemos atenção neles, para que eles possam fazer o que quiserem. Mas essa teoria é bobagem, porque não leva em conta a vaidade humana.

Se me perguntarem, a melhor e mais dolorida maneira de insultar os políticos seria inverter a ordem dos cadernos nos jornais, e pôr tudo como sempre deveria ter sido: cultura primeiro, esporte depois; seguido de noticiazinhas sobre árvores que caíram na chuva, mulheres mortas por ex-maridos, e os invariáveis escoteiros perdidos na floresta. E só depois política.

Acham que políticos se importam em serem atacados em colunas na página dois? Claro que não – ninguém se importaria. Eu sei que eu adoraria. Não, não – jogue todos para uma notinha no último caderno. Isso sim seria subversivo.

(Publicado originalmente na edição 35, de novembro de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares entrevista Paulo Francis, outubro de 2005

Paulo Francis no paraíso



Quando a empregada no portão me disse que Paulo Francis estava nos fundos, “jogando tênis com convidados”, imaginei que isso era força de expressão e que eu o encontraria sentado na sombra, lendo Isaac Deutscher, digamos (um dos favoritos de Francis, em vida biógrafo de Stalin e Trotsky e agora biógrafo de santos e teólogos) enquanto seus amigos jogavam. Afinal todos conhecem bem a aversão de Francis a esportes. “Minha tolerância é de cinco minutos”, ele havia escrito em vida. Mas contornei a casa de tijolos e, para minha surpresa, lá estava Francis na quadra de saibro, correndo de um lado para o outro e batendo na bola com força um pouco excessiva. A bola ou acertava no rosto de Greta Garbo ou nos testículos do ator John Gilbert. Ambos pareciam furiosos.

“O segredo está no quadril”, Francis disse quando o jogo acabou, se aproximando de mim e jogando a raquete com descuido na cadeira.“Você encaixa o quadril como se estivesse dando uma bimbada. Erroll Flynn me ensinou as manhas todas”. Eu disse que não sabia que ele era praticante de esportes, “além de abrir e fechar porta de táxi”. Sem reconhecer a citação, ele respondeu: “O médico me recomendou esporte pra emagrecer. Você não pode morrer no Paraíso, mas pode ficar gordo como Giuseppe Taddei em Falstaff. ” E em seguida Francis, abrindo os braços dramaticamente, começou a cantar uma ária dessa ópera de Verdi com voz surpreendentemente potente (“Tutte le donne ammutinate insieme/ si dannano per me...”), me embaraçando um pouco. Nos sentamos à sombra, debaixo de um guarda-sol.

Francis vê o volume do gravador dentro de uma sacola e pergunta desconfiado: “É goiabada Cascão? Brasileiro vive me trazendo goiabada Cascão. Não agüento mais goiabada Cascão”. Eu o tranqüilizo mostrando o gravador, e pergunto se há muitos brasileiros no Paraíso. “Não, poucos. Mas todos que vêm me trazem goiabada Cascão. Porque eu disse uma vez que a única coisa da Terra da qual eu sentia falta era goiabada Cascão. Mas eles exageram. Não tenho mais espaço pra goiabada Cascão”. Espero pacientemente que ele pare de falar em goiabada Cascão e volto a perguntar sobre brasileiros no Paraíso. Eles causam problema? São bem-vistos?

“No que me concerne, nucopardoca. Outro dia desses vi um grupo brasileiro pisando forte e começaram os comentários que nos tornaram os japoneses do Paraíso (sem a educação formal, bem entendido): ‘É só isso que é o Céu?’ (imitando brasileiros idiotas). Sim, porque quem já viu a favela Copacabana não pode sequer tolerar o primitivismo da arquitetura do Paraíso. Ignorados na lição de arquitetura, passaram à musical, entoando ‘Cidade Maravilhosa’. Um anjo pediu que fechassem a butuca a fim de não matar de susto os pombos e levar ao suicídio os espíritos provenientes de países civilizados. Saíram batendo o pé e murmurando: ‘Anjos fascistas!’. Há também aquele caso proverbial do mineirinho que chegou no Céu e pediu pra falar com ‘o Seu Jesus’, e de certa socialite paulista que, barrada no Céu, ameaçou reclamar ao marido, que dizia aos berros ser ‘presidente das Casas Bahia’. De brasileiro quero distância, e nem do espelho chego muito perto”.

Fui à entrevista preparado para ser agressivo. Eu havia me convencido de que qualquer coisa era melhor do que mostrar a Francis o quanto eu o admirava. Era melhor ser insolente, cínico; de modo que ri e lhe dei os parabéns por ter deixado de pintar o cabelo de acaju. Francis resmungou alto, me olhou com desprezo e respondeu: “Não era acaju, era burgundi. Waaaal, se eu tenho que dizer a diferença...”.

Não digo, mas Francis está bem, aparentando quarenta anos ou menos, corado e em forma. Sei por conhecidos que está casado com a escritora americana Mary McCarthy (que estava na quadra jogando ao seu lado quando cheguei), e que vivem juntos nessa grande casa de tijolos numa das mais bonitas cidades do Paraíso. O rumor é que brigam muito, bebem muito, escrevem muito e viajam muito. “Todos os lugares da Terra são detestáveis, pensando bem”, Francis diz. “São bons se você está bem. E eu nunca estava bem, logo, ergo, etc. Mas aqui, você respira o ar e parece que é champanhe”. Pergunto se é verdade que ele e Mary só estão esperando que Jaguar morra para adotá-lo como filho retardado, “mongolóide”, digo, e Francis dá uma gargalhada surpreendentemente contagiosa. Pela primeira vez, parece olhar para mim de fato.

“Ah, você é um desses?”, diz, estendendo a mão para perto do meu rosto. Antes que eu pergunte “desses o quê?”, Francis diz: “Está vendo o fiozinho azul claro? Sai da tua testa e vem pra minha? Quase não dá pra ver, olha bem”. Com dificuldade percebo um fiozinho, mais fino que uma linha de costura, preso nos dedos gorduchos de Paulo Francis. Ele explica:

“Não havendo nascimento no Paraíso, não há pais nem filhos, não há linhagens dinásticas. O modo com que a aristocracia se transmite é puramente intelectual, espiritual. Os autores que você leu são aqui como os seus antepassados. Se você leu Shakespeare a ponto de ser modificado internamente pela leitura, a ponto de assimilar a leitura, organicamente, Shakespeare é considerado seu antepassado, você pertence à mesma família que ele. Um aristocrata, aqui, é alguém que tem uma longa e antiga ‘família’, com a qual ele é ligado por um fio azul como este. Por este fio aqui eu sei que você me leu, que eu influenciei você de alguma forma”.

É verdade, mas sinto vergonha de confessar. Ele solta o fio e bebe suco de maçã numa caixinha, me oferecendo outra, que eu aceito. A vergonha também me impede de perguntar se ele sabe que há muitas pessoas influenciadas por ele na Terra, a maioria das quais escritores de Internet, blogueiros. Pessoas que cresceram lendo as colunas dele nos jornais, que leram a respeito de coisas tão díspares quanto Auden ou Wagner ou filmes de Fritz Lang pela primeira vez nas colunas dele. E que se sentem gratas a ele, de alguma forma.

Ao invés disso, pergunto se ele sabe do último escândalo do governo. Francis suspira e diz: “Não, qual a suburbanada agora?” Conto para ele do Mensalão, José Dirceu, Genoíno, Lula. (Digo essas coisas mas o fio azul que sai da minha testa e vai para a dele está me incomodando, apesar de quase invisível. Imagino que está me fazendo cosquinha.)

Mas Francis não parece interessado. Diz: “Gastei a vida com essas bobagens, tarde demais percebi que devia ter me dedicado exclusivamente a Matisse, Wagner. Prefiro inclusive falar de sorvete de fruta. Existem duas mil variedades de sorvete de fruta aqui. Você gosta de sorvete de fruta? Uma coisa que vou dizer, no entanto, é que a estrutura do PT, as caras lombrosianas dessas pessoas e o comportamento, digamos, silvícola, aborígene, lembram tremendamente o Inferno. Mas a eternidade é muito curta pra gastar com o PT”.

Eu: “Você culpa Joel Rennó, então presidente da Petrobrás, que entrou com um processo de US$100 milhões contra você por difamação, pela sua morte? Quando você morreu, todos diziam que essa era a causa”.

Francis: “Pfui. Olha aqui, Samuel Johnson já notava, a propósito de Milton e um certo Salmasius, que sempre se diz que polemistas foram mortos por suas últimas disputas. Rennó é uma besta, e não quero que pensem que tamanha besta teria uma importância dessas na minha vida, ou na minha morte. Me tirou o sono durante uma semana, no máximo”.

Eu: “Como é a morte, o processo todo? Sentiu medo, antes, depois?”

Francis: “Medo algum. Sempre me imaginei um covarde físico (e, daí, alguns espetáculos de machice excessiva no meu passado. Um covarde humilhado é uma fera) e um valente moral. Sou forçado a uma revisão, e me surpreendo de não tê-la feito antes. Afinal, sempre que me vi frente a frente à dor, não reagi mal. Morrer foi ‘um pedaço de bolo’, na tradução sublime dos legendadores de cinema. Quando morri vim ver Capitão Blood no Paraíso, concluindo corretamente que nada poderia fazer, considerando ridículas cenas de cemitério. Três primas minhas inclusive choravam sempre abraçadas pelas cabeças, em voz alta, em movimento permanente, o que me lembrava baile de carnaval. Conhecidos distantes meus soltando ranho pelo nariz, pela boca”.

Eu: “Você fez muitos amigos por aqui? Aqueles jogando tênis agora pouco, eram Greta Garbo, John Gilbert?”.

Francis: “Sim, mas não são tantos os amigos reais. Afinal, as coisas não mudaram muito. No Rio eu via com freqüência umas vinte pessoas (no máximo: estou incluindo as obrigatórias). Aqui, a mesma coisa. A diferença é que no Rio, se você quiser, faz mil amigos. No Paraíso, não. Os grupos são pequenos e se cortam mutuamente. Moro duas casas abaixo de um cara que já encontrei em várias reuniões. Nunca ocorreu a ele ou a mim tomarmos um drinque na casa um do outro. Ninguém toca a campainha da tua casa sem aviso prévio e muito claro. Ninguém puxa conversa com você se você está lendo. Ninguém lê o que está em cima da tua mesa. Prefiro assim. Não é a toa que Garbo mora aqui”.

Eu: “Se há poucos brasileiros aqui, presumo que estão no Inferno. A maior parte das pessoas no Céu vem de qual nacionalidade?”.

Francis: “Bom, Sartre, que não veio exatamente pro Paraíso, digamos assim, mas para um lugar antípoda, escreveu que em nenhum outro lugar do universo se vê tanto a simultaneidade da vida das pessoas quanto aqui. True, true. Olhe à sua volta e não vai ver duas pessoas da mesma nacionalidade. Um dos problemas de se viver no além é a perda da identidade nacional e do status em que temos no nosso mundo, seja este qual for. Do status sinto uma certa falta. Eu já havia me habituado a encontrar sempre mesa nos restaurantes, mesmo quando tinha vinte pessoas esperando a vez. Aqui, os anjos passam antes. É cruel. Mas identidade nacional? Aqui ninguém tem. Meus quatro amigos aqui nessa rua eram em vida todos de diferentes países. Dou-llhes dicas sobre o que devem fazer para se divertir no Paraíso. Gostaria de aconselhar a um deles, o mais simpático, a não usar certas camisas e abolir certas expressões como ‘lúdico’ ou ‘agregar valores’, que aqui caem mal. Mas ele é do Texas e John Wayne sempre me meteu um certo medo”.

Uma mulher usando roupa branca de tênis sai da casa e vem na nossa direção. Percebo que é Mary McCarthy, jovem e muito bonita, os braços queimados de sol, dourados, contrastando com a roupa, o cabelo castanho preso em duas tranças. Ela pára com a mão no ombro de Francis e pergunta se vou ficar para o almoço. Francis diz “Claro que fica”. Explico que não posso, que ainda estou vivo, que estou só sonhando – e em poucos minutos vou ter que acordar. Francis diz: “Ah, é verdade. Sempre me esqueço”, e continuamos com a entrevista.

Francis: “Continuando no pessoal, há as livrarias. Sempre que entro numa grande livraria aqui entendo porque eu nunca poderia viver de novo nesse mundo jeca de vocês. Quero saber de tudo que estão escrevendo, mesmo que noventa por cento não me interessem da superpornografia à lógica matemática. A disponibilidade cultural do Paraíso chega a ser indecente. Pense no que você quer. Aqui tem em triplo. Bernard Shaw escreveu quarenta e seis peças desde que morreu em 1950. Quarenta e seis. Isso fora volumes e volumes de cartas, romances e crítica de música. Não há equivalente na Terra, não há equivalente possível, para a produtividade do espírito humano desgarrado do corpo. A pior das músicas que Mozart compôs depois de morto é melhor do que a Sinfonia Júpiter”.

Eu: “E a sua própria produtividade? Tem escrito peças, romances?”.

Francis: “Peças, romances, you name it. Terminei a trilogia dos romances ‘Cabeça’ com ‘Cabeça de Picareta’, no qual o protagonista Hugo Mann morre e é encarregado de seqüestrar Trotsky do Inferno. Sabotado pelas próprias dúvidas, falha, é claro. O livro foi recebido com entusiasmo ‘contido’, digamos assim, mas Philip Rahv escreveu um longo ensaio sobre ele na Partisan Review daqui o colocando nos cornos na lua e, dizem, Edmund Wilson leu e gostou, comparando (favoravelmente) aos romances post-mortem de Arthur Koestler. No momento estou terminando uma peça sobre a morte de Freud, na qual o grande ator francês Gérard Philippe vai interpretar o cachorro salsicha de Jung. Fora isso, escrevo uma coluna mensal para um jornal daqui, na qual despejo minha acídia que, mesmo aqui, perdura. Este mês xinguei Santo Estevão de deficiente mental. Fico feliz de dizer que ele me deu uma botinada”.

Nesse ponto Mary McCarthy, Garbo e Gilbert aparecem no terraço – Gilbert plantando bananeira, balançando no galho dum pessegueiro etc., enquanto Garbo, de olho roxo das boladas que levou de Francis, ri do amante. Percebo que o almoço está pronto e me levanto. Francis se levanta também – minha cabeça dá no ombro dele. Agradeço pela entrevista.

“De nada, volte sempre. Brasileiro agradável é mais raro do que espanhol humilde”. Francis ri da própria piada, eu rio também.

Estou quase saindo pelo portão quando ouço sua voz vindo de longe:

“Ah, ô, diz também que não desdigo nada do que disse daquele Joel Rennó. Estou vendo tudo que ele faz daqui. Ok?”

“Ok!”

“Sei dos podres todos. Ora, outro dia ele tirou caquinha do nariz e comeu que eu vi. ‘Limpou o salão’, como se dizia na minha infância. Foi disgusting. E foi ele que matou Marilyn Monroe. Publica isso que eu quero ver”.

“Publico!”, eu grito por cima da sebe.

“E tem mais, Lula matou Jimmy Hoffa”. Nesse ponto a voz já vem tão distante que fico em dúvida de que ouvi isso mesmo. Lula matou Jimmy Hoffa? Estou na rua de grama, sinto que estou acordando. Mas Francis continua: “E enterrou em Osasco. Como você acha que Lula perdeu o dedo? Cavem bem fundo no shop-ping Osasco, bem debaixo do Habib’s, abram a mandíbula de Jimmy Hoffa e vão encontrar um dedo mindinho lá”.

E depois ouço uma gargalhada, feita só de chiados e sons nasais, que assustam as borboletas da sebe e as fazem pular, uma a uma, para o céu inacreditavelmente azul.

* Alexandre Soares Silva, 36, é escritor e tradutor. Autor de “A Coisa Não-Deus” (Beca, 2000), “Morte e Vida Celestina” (Candide, 2004), além de dois livros de aventuras para adolescentes, “A Origem dos Irmãos Coyote” e “Na Torre do Tombo” (Global). Também participou das coletâneas “Wunderblogs.com” (Barracuda, 2004) e “A Visita” (Barracuda, no prelo).

(Publicado originalmente na edição 34, de outubro de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, outubro de 2005

As imbecilidades de Byron e Shakespeare



Há quem recomende se livrar do apego para perder qualquer espécie de medo, mas eu não sei que tipo de amor é esse que alguém pode ter sem apego. Como é que alguém pode amar a mulher sem apego? Me parece um amor fraquinho. Um amor vago pela humanidade, uma predisposição geral para gostar das pessoas. E isso é bom, mas isso não é jeito de gostar da própria mulher, dos próprios filhos, dos próprios cachorros. Se isso é o budismo, o budismo só serve para gostar de quem a gente vê na rua ou no jornal.

Sua canalha, me amando desapegadamente. Budista sem-vergonha. Desapego é motivo de divórcio. Se eu perceber com o canto do olho que você está me amando desapegadamente, dearest, enquanto vemos um filme tarde da noite, te dou um golpe de karatê na traquéia. Lendo livros sobre budismo não consigo deixar de sentir o horror do desapego, do desapego alheio. Do desapego meu também: é triste se desapegar. Você sente que está fazendo uma coisa errada, deixando ir embora o que você não devia deixar ir embora nunca. Ser cristão, ser judeu, ser ocidental, é amar apegadamente – tão apegadamente quanto possa, e se agarrar na coisa e lutar por ela.

Se você perder essa coisa, você chora. Você berra, faz cena. Ou você se agüenta, é uma opção também. Perder e não ligar é coisa de budista, e tenho horror de budista, que ama a própria mãe com a mesma tranqüilidade com que ama as vítimas de um furacão ou o porteiro do prédio. Podem dizer o que quiser, e em sânscrito, mas isso não é modo de amar a própria mãe. O budismo só serve para gerar uma certa benevolência com estranhos na rua. Da porta de casa para fora, seja budista, eu até recomendo – lovely stuff, deixa um sorriso sereno no rosto. Mas em família, ou se tratando do cachorro da família, ou da tartaruga, ou do hamster, se apegue aí, como um homem.

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Tenho medo de morrer engasgado no meio da noite. Tenho medo que os meus filhos sejam idiotas. Tenho medo de morrer e desaparecer, tenho medo de morrer e ir para o inferno. Tenho medo de imagens de explosões solares, por algum motivo. Tenho medo de fotos de fantasmas evidentemente falsificadas de 1930. Tenho medo de perder o nariz. Tenho medo de acordar no meio da noite com a frase mais perfeita na mente e não anotar por preguiça, e depois esquecer tudo. Tenho medo de aranhas e não tenho medo de cobras, mas tenho medo de ratos. Tenho mais medo de um rato morto e podre, de barriga inchada, do que de um rato vivo. Tenho medo de pobre e de pobreza. Tenho medo de trabalho. “Não tenho medo de trabalho”, diz muita gente. Eu tenho. Tenho medo do centro da cidade e tenho medo de ter que viver normalmente, fazendo coisas práticas, entrando em filas. Não tenho medo de briga, eu sempre quis brigar na rua. Tenho medo de me ver refletido numa vitrine e perceber de repente que estou muito gordo. Tenho medo da manhã. Tenho medo do momento da manhã em que de um minuto para o outro você começa a ouvir muitos carros na rua.

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Chesterton, no livro “Heretics” (1908):

“...aquele miserável medo de ser sentimental, que é o mais mesquinho de todos os medos modernos – mais mesquinho até do que o medo que causa a higiene. O humor robusto e contagiante sempre veio de homens que eram capazes não só de sentimentalismo, mas de um sentimentalismo bem tolo. Nunca houve humor mais robusto ou contagiante que o do sentimental Steele ou o do sentimental Sterne ou do sentimental Dickens. Essas criaturas que choravam como mulheres eram as mesmas que riam como homens. É verdade que o humor de Micawber é boa literatura e o pathos da pequena Nell é má literatura. Mas o tipo de homem que teve a coragem de escrever tão mal em um caso é o mesmo tipo que teve a coragem de escrever tão bem no outro. A mesma inconsciência, a mesma inocência extremada, a mesma gigantesca escala de ação que trouxe ao Napoleão da Comédia sua Jena também lhe trouxe sua Moscou. E aqui vemos com clareza a frágil e frígida limitação dos nossos modernos escritores elegantes. Eles se esforçam violentamente, heroicamente, quase pateticamente, mas na verdade não conseguem escrever mal. Há momentos em que quase pensamos que eles conseguiram, mas nossa esperança desaparece quando comparamos suas falhazinhas com as enormes imbecilidades de Byron ou Shakespeare.”

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O amor (como Malcolm MacDowell) aparece nos lugares mais estranhos. Uma vez vi um filme pornô em que uma mulher fazia sexo com trezentos homens em uma noite. Fizeram duas filas de homens pelados de bundas notavelmente murchas, com uma fluffer no fim de cada fila (uma fluffer é uma espécie de cheerleader do pinto). Depois iam, esses homens, de cinco em cinco, para uma mesa baixa em que a mulher estava deitada de barriga pra cima. Cercavam a mesa e faziam sexo com a mulher com aquele jeito não propriamente desumano, mas inumano, que as pessoas nos filmes pornô têm. Mas o que eu queria dizer é isso – que a certa altura a mulher perguntou para o assistente quantos já tinham ido, e ele disse, sei lá, cento e cinqüenta; e ela sorriu e gritou, “I’m a slut! I’m such a slut!”, toda contente. E imediatamente um negão, careca, fortão, de óculos de aro de tartaruga, que estava entre as pernas dela, disse num tom inacreditavelmente terno: “Oh no honey, you are not”. E dava pra ouvir na voz do negão uma doçura de namorado mesmo, um cuidado de pai falando com a filha de três anos que caiu do triciclo, ou consolando a filha de onze que se acha burra na escola. O que é claro que ela era – a slut, that is – e pode ser que ele tenha estragado um pouco a diversão da mulher por dizer isso, mas eu não me esqueço do tom da voz dele até hoje – que era o do amor sob sua forma mais gentil, que é a ternura, a ternura gratuita de estranho para estranho.

(Publicado originalmente na edição 34, de outubro de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, ago/set de 2005

Moda é a mãe



Estou lendo aqui que o conservadorismo “está na moda”. Na minha experiência, quando se diz que algo está na moda é para acabar com esse algo; para meter vergonha nele, fazer com que se ache uma maria-vai-com-as-outras. Você vai andando na rua, alguém aponta a sua calça e diz: “Ah, usar calça agora está na moda, né? A boneca faz de tudo pra estar na moda, né?”. E você continua a andar, subitamente envergonhado de estar usando calças.

E se dizem que está na moda ser conservador é pelo mesmo motivo. Mas ser conservador não pode ser uma moda, porque ser conservador é o normal do espírito humano.

Até mesmo por definição. Um conservador olha para os milênios de história sentindo respeito pelas instituições que funcionaram. Se reconhece que algumas instituições precisavam acabar, faz isso com alguma dificuldade. Sente sempre que é preciso oferecer uma oposição às mudanças bruscas, e que no conflito entre uma instituição de séculos e um teórico radical que quer acabar com essa instituição, o ônus da prova está com o teórico radical. (É a primeira vez que digo “ônus da prova” sem rir. Mas não é porque estou ficando adulto, é porque estou com dor de dente desde sábado. Ah, esquece.)

Não se trata de se opor ao teórico radical sempre: uma vez em cada cem ele está certo e a instituição deve acabar. Trata-se de impor alguma desconfiança ao teórico - uma desconfiança tanto instintiva quanto racional. O anticonservador, por oposição, parece sempre não ter desconfiança nenhuma: se aparece alguém propondo substituir o casamento pelo amor livre, pelo casamento aberto ou pelo joguinho da garrafa, agora tornado oficial e supervisionado pelo Estado, o anticonservador fica entusiasmado, grita um slogan embaraçoso e manda ao Estado que encomende as garrafas.

Essa desconfiança é instintiva e racional. É instintiva porque o conservadorismo, como disse o filósofo Michael Oakeshott, é um tipo de temperamento, uma disposição da alma; e é racional porque é próprio das pessoas racionais desconfiarem um pouquinho da razão. Se alguém me apresenta um plano para abolir a amizade, digamos, e substituí-la por Cupons Interrelacionais Distribuídos pelo Estado (CIDE), por mais que o plano pareça racional no papel e momentaneamente me convença de que vai acabar mesmo com o lado ruim de todas as amizades, como a não-devolução de livros emprestados, a razão me manda desconfiar que a minha capacidade racional, junto com a capacidade racional do proponente dos CIDEs, não é capaz de prever todas os problemas desse plano e que é melhor ficar com a amizade mesmo, porque afinal ela já foi testada durante alguns milhares de anos e, bem ou mal, funciona. Mas anticonservadores, lamento dizê-lo, parecem não desconfiar da razão nunca. (Podem desconfiar de um plano específico, que examinam muitas vezes com bastante cuidado. Mas se a própria razão lhes diz que o plano é bom, parecem não desconfiar da própria razão nunca.)

Mesmo que um plano pareça completamente racional, é preciso desconfiar dele; sobretudo se ele parece completamente racional. Os últimos três séculos foram cheios de planos muito racionais para acabar com coisas que vinham funcionando bem: o casamento tradicional, o romance tradicional, a música tradicional, a arquitetura tradicional. “Funcionando bem? Mas e a Crise do Casamento Tradicional?”. A Crise do Casamento Tradicional, na minha opinião, assim em maiúsculas, foi exagerada em filmes e livros exatamente por pessoas interessadas em acabar com o casamento tradicional e substituí-lo pelo último plano da moda. Enquanto o casamento “acabava” (pfui), milhões de casais casados continuavam juntos, tendo o mesmo grau de felicidade/infelicidade que caracteriza a vida humana em qualquer lugar, em qualquer época. Mesma coisa com as cidades, que supostamente estavam “crescendo caoticamente” e precisavam, claro, da organização de um planificador estatal - que se divertiu durante algumas décadas desenhando cidades em formatos geométricos, que iam de quadradinhos a estrelas-do-mar. Vamos fazer todos os padeiros viverem num bairro só! Vamos criar um bairro só para colecionadores de selos! Assim eles vivem juntos e se reúnem nesta Praça Central Para Troca de Selos e Similares! Ah, que diversão.

Só a arrogância das esquerdas pode achar que essa desconfiança em relação às mudanças radicais é “uma moda”. Volto a dizer que é o natural do espírito humano; moda foi justamente a confiança excessiva na razão, que começou, falando grosseiramente, com o Iluminismo; e o final de uma moda não é uma moda. Sempre vamos ter radicais propondo vários tipos de inovações sociais malucas – como, sei lá, o fim da propriedade privada, o casamento aberto, a esmola compulsória ou a regulamentação estatal do namorico de praia. Essas inovações sociais malucas vão ser aceitas durante uns vinte, trinta anos; pessoas vão fazer filmes mostrando como essas inovações sociais malucas são bonitas, e como as tradições que elas substituíram eram asfixiantes e vis; e alguns desses filmes vão ser até simpáticos, com uma trilha sonora bacaninha. Mas quando essas inovações sociais malucas finalmente acabarem, isso não vai ser uma moda; vai ser o fim de uma moda.

Da minha parte, não consigo deixar de achar que a visão de mundo tradicional – e se você não sabe o que é a visão de mundo tradicional, pense em tudo aquilo que um intelectual de esquerda odeia – nascia da experiência humana, e que quando queremos fugir disso acabamos adotando vários tipos de práticas bizarras e patetas. Abandone a visão tradicional do mundo – mais especificamente, abandone o cristianismo – e tudo quanto é tipo de aberração vai surgir, com um intelectual radical de boina a defendendo todo contente.

(Publicado originalmente na edição 33, de ago/set de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, julho de 2005

Em defesa da intolerância



Uma boa regra na vida, que me ocorreu outro dia – enquanto eu subia uma escada comendo lentamente uma banana, por sinal – é não acusar quem tem uma opinião diferente da sua de sofrer de um dos três males, Canalhice, Desequilíbrio Mental ou Idiotice. Sim, uma boa regra; e fiquei tão contente com ela que quis imediatamente voltar pra casa e escrever uma coluna reconhecendo que eu sei que há esquerdistas inteligentes, ateus emocionalmente maduros e comunistas não completamente canalhas. Minha recém-descoberta tolerância me embriagou um pouquinho – e, enquanto eu andava depressa pela avenida, senti uma vaga vontade de dançar a Dança da Tolerância, subindo em barraquinhas de camelôs, sapateando e cantando músicas de Gershwin.

Felizmente havia trânsito no caminho pra casa; digo “felizmente” porque o meu entusiasmo teve tempo de ir embora e, quando cheguei na frente do computador, acabei escrevendo um texto agradavelmente intolerante e reacionário, dizendo que cariocas não são seres humanos porque não usam camisa. Assim acabei me poupando de passar um grande vexame, que é o de exibir a própria tolerância como uma nova-rica esfregando um anel de diamante na cara de uma manicure. É preciso escondermos um pouco a nossa tolerância, e nos fingirmos um pouco de monstros – por elegância, apenas. E também é preciso lembrar que a tolerância é agradável e sábia, mas estilisticamente monótona.

Posso perdoar muita coisa, mas não que me tolerem. Se alguém me tolerar, deve pelo menos fazer muita força para esconder isso. O sorriso da tolerância alheia seria motivo para duelo, se ainda vivêssemos num mundo tão civilizado que admitisse duelos. Posso muito bem imaginar um aristocrata francês pré-Revolução jogando um copo de vinho no rosto de seu interlocutor, e explicando depois – “Canalha! Tolerou-me!...”.

Me deixem dizer com mais clareza o que defendo: tolerância, sim – dãã – mas uma tolerância escondida, uma tolerância subreptícia. O contato prolongado na Internet com vários defensores nominais da tolerância me deixou uma má impressão da própria palavra. Será preciso muita inteligência para perceber que os defensores excessivamente enfáticos de qualquer virtude são sempre criaturas suspeitas? Quando você vê alguém defendendo a tolerância, não imagina sempre que, quando vier a Revolução, vai ter que se esconder dele? E, principalmente – por que motivo a palavra Tolerância é sempre mencionada para calar a boca de alguém?

Como qualquer virtude, pratique, se der – mas, por favor, não faça estardalhaço. Pelo contrário – meu conselho, de graça para você, leitor gentil, leitor papalvo, leitor careca: se finja de intolerante, se finja de muito zangado com as idéias alheias. Xingue quem se opõe a você – não a sério, nunca a sério, mas xingue. Chute cadeiras, cuspa no chão, fique todo vermelho – embora mantendo interiormente uma secreta equanimidade. Isso não só é menos chato que um texto ostensivamente tolerante, é mais correto também, de um jeito moral: é como alguém que desse sempre esmola jurando que nunca dá esmola, que acha um absurdo.

Às vezes é inevitável sentirmos a tentação da tolerância ostensiva; principalmente quando encontramos manifestações de intolerância genuína, boçal. Mas essas vêm se tornando tão raras – a intolerância se envergonha tanto de si mesma, ultimamente, e se disfarça tanto de tolerância democrática e humanista e igualitária e blá blá blá – que quando encontramos alguém confessadamente intolerante deveríamos ficar pelo menos um pouco gratos pela honestidade dele. Mesmo assim, espiando certos debates em fóruns de discussão de gente de esquerda, por exemplo, e vendo como eles caracterizam qualquer conservador como alguém patologicamente indiferente aos sofrimentos dos pobres, ainda dá pra ficar um pouco chocado, e sair sem apreciar nem um pouco a honestidade de suas opiniões. Durante uns momentos chego a desejar que eles me estendessem a cortesia de achar que eu tenho sentimentos, sei lá, e que sinto pena, por exemplo, da florista cega em “Luzes da Ribalta” (embora, para dizer a verdade, não muita, e nem sempre). E sinto vontade também de nunca cometer o mesmo erro grosseiro. De deixar sempre claro que eu sei que uma pessoa pode ser socialista e não ser burra, por exemplo. Escrever longos textos sobre isso. Vê-los me cumprimentando pela minha tolerância bacaninha.

Mas, sabe – não. Me recuso a ceder à tentação da tolerância ostensiva. E chego agora à minha Regra Número Um: em qualquer bom texto a tolerância deve estar implícita, e nunca expressa. Um bom texto, o texto que eu considero ideal e que eu sei que nem sempre consigo fazer, é aquele que, defendendo a posição A, deixa explícito que desprezamos muito a posição B, ao mesmo tempo em que deixa implícito que não temos desprezo nenhum pelos defensores da posição B. O desprezo (fingido ou verdadeiro) pela opinião contrária não é necessário, claro – mas acho recomendável, estilisticamente falando, porque o texto fica mais divertido de ler. Esse é um ponto tão óbvio que nem acho que seja necessário defendê-lo. Mas o desprezo não deve nunca ser estendido ao defensor da posição que fingimos que achamos desprezível: queremos ser divertidos, mas não queremos ser boçais. Essa tolerância deve ser sutil, vindo escondida no meio de uns sarcasmozinhos.

É um balanço difícil de ser alcançado, reconheço: entre tolerância real, e secreta, e intolerância fingida e ostensiva. Mas leitores inteligentes deveriam ser capazes de perceber isso, nossa secreta tolerância charmosa, em qualquer bom texto – sem que tenhamos que cometer a grosseria espantosa de afirmá-la com clareza.

(Publicado originalmente na edição 32, de julho de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, junho de 2005

Esquerda? Direita? Muito pelo contrário!



Quando vejo alguém dizer que não é de esquerda nem de direita, tenho a mesma reação de quando encontro um carioca: olho para os pés dele em pânico, com medo que comece a sambar.

Não é justo, porque há cariocas que não sambam, e que têm menos malemolência e ginga (Jesus, ginga) que eu – ou mesmo que Ingmar Bergman num dia especialmente reflexivo. Da mesma forma, há quem diga que não é de esquerda nem de direita por motivos perfeitamente válidos, e que não são cabeças-ocas de forma alguma. Mesmo assim, quando encontro cariocas ou pessoas que se orgulham de não ser nem de esquerda nem de direita, minha reação é a de dar três passos para trás com medo de me ver no meio de um pagode. “Não sou nem de direita nem de esquerda, muito pelo contrário! Epa!” – e imediatamente levanta os dois indicadores em direção ao teto e começa a sambar.

Algumas pessoas têm bons motivos para não ser nem de esquerda nem de direita. Entre eles o melhor motivo é o de não se interessar por essas coisas. Ser infantil demais, alienado demais; demasiadamente desinteressado nos possíveis modos de exploração de manganês e bauxita, e realmente não querendo saber como o Estado ou as empresas se arranjam para fazer essas coisas. Estão certos, eu queria ser assim. Até sou, um pouco. É melhor dedicar a vida à leitura dos contos de Tchecov, ou à tentativa de ouvir cada som jamais produzido pela garganta de Dietrich Fischer-Dieskau. Essas pessoas têm toda a minha simpatia.

Assim também os cristãos que usam o “meu Reino não é deste mundo” como justificativa para não se interessar pelo caderno de política dos jornais: estão certos, estão certos. Para um cristão, dar uma sugestão sobre como o Estado deve se organizar é mais ou menos como um hóspede sugerir onde um quadro deve ser pendurado na casa em que está de visita: ele pode dar a sugestão, é claro, quando perguntado; mas nunca com muito empenho ou ênfase. Em outras palavras, um cristão pode ser de esquerda ou de direita, mas nunca muito empolgadamente. As questões de sua própria casa, no céu ou no inferno, geralmente o ocupam muito mais.

Essas são as boas razões para não ser nem de esquerda nem de direita: infantilidade, alienação, desinteresse; ou a melhor de todas, que não entra em conflito com as outras: um interesse maior em Outras Coisas. Mas sou muito mesquinho e costumo atribuir motivos mais tolos. Por mais que a esquerda diga o contrário, é muito pequeno o número de pessoas genuinamente alienadas no mundo – em toda a minha vida, acho que só conheci duas ou três. A leitura de editoriais é uma tentação tão grande quanto o jogo, a bebida, as drogas, as prostitutas. Não, é muito pior: não conheço muita gente viciada em jogo, bebida, drogas ou prostitutas, mas quase todo mundo que eu conheço tem um interessezinho meio doentio em política e atualidades. Quanto aos cristãos, são mais raros ainda, numa época em que o islamismo, o budismo, a wicca e o espiritismo recebem todo o respeito e na qual é muito mais fácil encontrar um tarô com motivos tirados dos índios sioux do que uma simples imagenzinha de santo.

De modo que quando encontro alguém que diz que não é de direita nem de esquerda, quase nunca acho que se trata dessa que é, afinal, a mais rara alma de todas, o Alienado Genuíno. Não, a minha experiência é que se trata de um tipo muito mais comum: alguém que se acha complexo demais para ser descrito de modo tão simplista. Esse é o seu orgulho, ser Complexo Demais Para Ser Rotulado. Ele tem opiniões políticas, e muitas. Ele se interessa pelo assunto: não está nem abaixo, nem acima dele. O que há é que ele acha que o conjunto das suas opiniões é tão pessoal, tão complexo, que Esquerda e Direita não fazem sentido para ele, e toda uma nova categoria deveria ser inventada para acomodá-lo.

Mas aposto uma coisa, no entanto: o Homem Complexo Demais, se é sincero, e se não nega que seja de esquerda ou de direita apenas por covardia ou estratégia, é alguém que simplesmente se conhece pouco, e que nunca parou para perceber que todas as suas opiniões apontam claramente ou para a esquerda, ou para a direita – e mais freqüentemente para a esquerda. Suas opiniões sobre o aborto, a eutanásia, a legalização das drogas, o papel do Estado na economia e a influência da religião na vida pública são exatamente aquelas atribuidas tradicionalmente à esquerda, ou pelo menos a maioria delas; mas de esquerda, ele? Nah, não, nunca.

Uma pequena parte da esquerda-que-nega-ser-esquerda faz isso conscientemente, por covardia ou por estratégia. Pretendendo estar livres para atacar os dois lados, atacam um lado com frequência e o outro uma vez a cada dois anos. Pretendendo estar sujeitos aos ataques dos dois lados, por serem supostamente independentes, na prática estão livres de qualquer ataque – jurando à esquerda que não são de direita e à direita que não são de esquerda.

Mas esses são poucos. A maior parte faz isso sem sequer perceber que é de esquerda. Essa é a Nova Esquerda, a Esquerda que Não é Esquerda. Como esquerda seriam atacáveis, mas como simples representantes do que consideram ser bons sentimentos, não são atacáveis de forma alguma. E cada vez que encontro um tipo desses, realmente tenho muito medo que ele comece a sambar de tanta alegria inzoneira.

(Publicado originalmente na edição 31, de junho de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, maio de 2005

“Dialogando” com o papa



Revistas dizendo na capa algo do tipo, “Bento XVI fala dez línguas – mas saberá dialogar?”. Jesus. Mais idiota do que isso, só se usassem três pontos de interrogação.

(Por falar nisso, que palavra grotesca, “dialogar”. Como “irreverente” e “prestigiar”, é uma palavra usada quase exclusivamente por idiotas. Também não sou muito fã da palavra “acrescentar”, usada em frases como “tal livro não acrescenta nada”, “essa discussão não acrescenta nada”. Noto que são frases ditas geralmente por pessoas burrinhas. Sua experiência não lhe diz a mesma coisa? Mas ah, divago. Vamos voltar a falar sobre o Papa.)

(Não, vou fazer outra digressão. Eu gosto de digressões, tenha paciência. Meu texto ideal seria uma única digressão, sem assunto principal nenhum. Ele viria todo inteiro dentro de parêntesis – um no início do texto e outro no final, e só. Tenho a impressão que Flann O´Brien já fez isso. Mas o que eu ia dizer é o seguinte: você também não está cansado de pessoas que dizem que estão cansadas de ouvir falar sobre o Papa? Eu estou. Mas ah, voltemos a falar sobre o Papa.)

Eu disse no plural, “revistas”, porque embora essa seja a descrição literal de uma capa da “Veja”, é igual em espírito a muitas outras capas de revistas – estou chutando, não tenho passado por bancas, mas tenho certeza do meu chute - e a centenas de colunas de jornais no mundo todo. Jornalistas barrigudinhos escrevendo colunas nas quais basicamente expressam, com grande sensibilidade humanista e carioquinha, seu desejo de que o Vaticano fique um pouquinho mais parecido em espírito com uma redação de jornal ou um boteco. Não tenho dúvida que querem que a sabedoria dos Santos Padres, tão rígida, tão antipática, seja substituída pela sabedoria moderninha de Arnaldo Jabor e do Dr. Dráuzio Varella; e que a camisinha, claro, só seja evitada por preguiça e medo da perda da ereção, e nunca por essa proibição estranha e misteriosa ao adultério.

Poderá o Papa “dialogar”? Espero que não. Cada vez que ouço alguém dizer que é preciso que o Papa “dialogue”, eu imagino o Papa num desses programas de auditório com adolescentes na platéia, como o de Serginho Groisman. Bento XVI sentado no centro do palco, uma pré-adolescente carioca excessivamente maquiada levantando e dizendo:
– Papa, é o seguinte: eu queria saber porquê você é contra a camisinha, sendo que a camisinha ajuda no combate à Aids. – Todos os adolescentes na platéia gritam aeeeeeeee, e batem palmas; ela fica empolgada e diz: – E também porque você não quer que os gays casem e abortem e essas coisas todas. Se eu usasse camisinha não tinha abortado na semana passada, fala sério.
– Aeeeeeeeeee...

Noto que quase todas as pessoas de bom senso são contra o Papa Bento XVI. Aquilo que se chama de bom senso é, basicamente, o conjunto de crenças bacaninhas e iluminadas que são defendidas por atores musculosos da Globo que fazem jiujitsu e têm tatuagens de caracteres chineses nos braços. Estude o que pensam essas pessoas, aquilo que elas dizem em programas de auditório que faz com que a platéia diga aeeeeeeeee..., e saberá o que pensa o resto do mundo, incluindo intelectuais – que pensam exatamente como atores da Globo, com a única diferença que se expressam um pouquinho melhor e citam uns aos outros como confirmação do que eles próprios pensam. Intelectuais citam intelectuais; atores da Globo citam as avós – “minha avó já dizia” etc. etc. – e essa é a única diferença entre eles, digo-vos mui solenemente. (Intelectuais são também um pouquinho mais niilistas, mas a diferença acaba aí.)

O bom senso é, quase sempre, contra o reacionarismo do Papa Bento XVI. O bom senso é a favor do uso da camisinha, a favor do casamento dos gays, contra a infalibilidade papal e a favor do “diálogo com outras religiões”. O bom senso é relativista – acha que todas as religiões são boas porque “passam algo de bom” e que, “sei lá, cada um tem a sua verdade, você tem a sua verdade e eu tenho a minha verdade”. O bom senso quer “dialogar”. Ah, não dialogue, Papa. Por favor, Papa. Por favor.

Com muita vergonha, percebo que (com exceção da legalização do aborto, à qual me oponho fanática e medievalmente) sigo o bom senso, na maior parte dos pontos, contra o Papa Bento XVI. Também eu não vejo nada de errado no casamento dos gays (“ah, deixa eles” costuma ser a minha reação, como é a reação do elenco da novela “América”, tenho certeza), nem vejo nada contra a camisinha, além do fato de que camisinha é uma chateação. Mas, ah, ao contrário das outras pessoas de bom senso, eu me envergonho do meu bom senso. Por nada desse mundo queria ter a mesma opinião que Hebe Camargo sobre o casamento gay. Acredite: se você consegue se imaginar dizendo sua opinião sobre alguma coisa num programa de auditório, e ouvindo a reação de aprovação da platéia de retardados – aeeeeeee... – é porque sua opinião está errada, e cheia de horrível e grotesco bom senso. Eu queria estar cheio de mau senso – do mau senso dos santos, dos gênios, de Deus. Mas realmente acredito que ainda tenho boas chances.

Que triste estado de coisas, aliás, em que as pessoas olham para o Papa e pensam logo em camisinha e casamento gay. Dois mil anos de teologia, ó pessoas. Parem um pouquinho de pensar em camisinha e casamento gay. Os mistérios da Santíssima Trindade? A hierarquia dos anjos? A história dos mártires, dos santos, dos mosteiros e conventos? São Bartolomeu expulsando os deuses da Índia? São Teodoro sendo rasgado por unhas de ferro? E só o que vocês conseguem pensar, quando olham para um Papa, é camisinha e casamento gay?

(Publicado originalmente na edição 30, de maio de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, mar/abr de 2005

Os impolidos



Depois de me meter numa troca breve, boba e inconseqüente de semi-insultos na internet, várias pessoas me enviaram e-mails um tanto histéricos dizendo que “responder é pior” e me pedindo para “deixar pra lá”. Foi mais ou menos como se eu tivesse tido uma discussão morna, não particularmente violenta com alguém, e de repente meus amigos me sacudissem pela camisa com violência, gritando “Pelo amor de Deus, não faz papel de bobo!... Você não está vendo que responder é pior?”, cuspindo na minha cara de tanta emoção.

Em todas as brigas-de-internet em que me meti, os espectadores pareciam mais perturbados que os envolvidos diretamente. As pessoas se sentem mal com brigas. Gostam de acompanhá-las, mas sofrem. E não vêem nenhum valor nelas. Acham uma apelação, uma descida do espírito humano ao nível de babuínos.

Mas não é. Babuínos não discutem. Da minha parte vejo muito valor em discussões na internet ou nos jornais. Em primeiro lugar, são divertidas de ler – por mais que as pessoas hipocritamente neguem isso. É uma das coisas mais divertidas de ler no mundo: briga, por escrito, de gente que se odeia.

E em segundo, é divertido de participar. Algumas pessoas se sentem perturbadas demais quando discutem – evidentemente não nasceram para isso. Mas outras sentem que uma discussão ajuda na concentração dos pensamentos, e torna suas próprias idéias mais claras. No meio de certas polêmicas lhes ocorrem idéias que nunca teriam tido de outra forma. É um grande esporte, e uma das melhores ocupações para o espírito humano – desde que certos níveis de decência e polidez sejam mantidos, o que é claro que é um tanto raro. E é raro, ainda por cima, porque algumas pessoas declaradamente odeiam a polidez.

Sempre achei engraçado ver o número de pessoas que se irritam comigo não porque eu seja arrogante, pedante e reacionário – claro que isso tudo ajuda, old thing – mas simplesmente pela minha evidente, e bastante artificial, polidez. Os inimigos da polidez são muitos, mas têm em comum uma certa adolescência do espírito: preferem ser francos e espontâneos e brutais. Acabaram de descobrir que existe algo de artificial na polidez, e que as pessoas que lhes perguntam como vão – oh! – não estão realmente interessadas em saber como eles vão. Nunca se recuperaram desse choque. Podem ter quarenta ou cinqüenta anos, mas ainda não se recuperaram completamente do choque dessa descoberta que fizeram na adolescência.

Mas tudo o que temos para proteger a civilização são tanques e boas maneiras. Na verdade essa é a minha definição de civilização, boas maneiras; da qual se segue a definição de barbárie, que é uma contínua grosseria. Somos atacados pelas grosserias de vizinhos, de blogueiros, de passantes na rua; no cinema somos chutados pela grosseria de pessoas que sentam atrás das nossas cadeiras, e em galerias comerciais de Jerusalém pessoas são explodidas pela grande grosseria de terroristas. Esses são todos os inimigos da civilização – as pessoas que odeiam a polidez. Eles têm orgulho, você sabe, de suas grosserias; têm orgulho de serem muito francos e impolidos; justificam a impolidez pela espontaneidade, ou até mesmo por algum bem qualquer (político, na maior parte das vezes) que acreditam maior do que a mera polidez.

Mas eu queria propor, muito calmamente, que nada humano é pior do que a impolidez. Bem entendida, a impolidez é a única forma que o Mal assume no mundo. Se, por exemplo, consideramos impolida uma pessoa que visita outra sem aviso, estragando os planos do visitado para toda a noite, por que não consideramos impolida uma pessoa que atira na testa da outra, se ao fazer isso ela estraga os planos da outra para muitas e muitas noites? A maldade, antes de ser maldade, é uma grande impolidez.

Tanques e boas maneiras. Claro, tanques são uma forma de grosseria sólida, de grosseria móvel – mas algumas grosserias são justificadas para acabar com outras grosserias piores. Em situações normais, por exemplo, arrombar a porta de uma casa é uma grosseria; mas todos concordam que a polícia está justificada em arrombar certas portas para acabar com esse tipo específico de grosseria que chamamos de crime. Da mesma forma, a guerra é uma forma de grosseria em massa – as pessoas põem uniformes para serem grosseiras contra um país inteiro – mas às vezes é necessária para acabar com outras formas piores e mais intensas de grosseria. Alguns países islâmicos, por exemplo, são grandes defensores da grosseria. Contra dissidentes, contra judeus, contra americanos, contra infiéis, contra mulheres. Para mim é claro que eles têm que ser parados com alguns atos de grosseria limitada, minimizada e justificada. Eis o motivo de admirar George Bush. Ele teve a coragem de defender uma civilização tão precária quanto a ocidental, ao mesmo tempo
contrariando milhões de manifestantes pelados no mundo todo – e deixando a srta. Susan Sarandon profundamente desgostosa, ainda por cima. Isso também tem que valer alguma coisa.

Por defender esse tipo de coisa – e coisas piores, e coisas piores – acho muito compreensível que muita gente me odeie, e sintomático que sejam pouco educadas. De que vale a educação, eles sempre perguntam, para defender o bombardeamento de criancinhas iraquianas? Não é melhor ser grosseiro e truculento, e estar, como eles acham que estão, do Lado do Bem? Do Lado de Madonna e das Dixie Chicks?

Pelo que vale, eis a minha resposta: não. Posso estar errado no que diz respeito ao Iraque, mas não no que diz respeito à impolidez. A impolidez e a maldade são uma coisa só. E tudo o que podemos querer nesta vida é sermos polidos de uma maneira tão perfeita, mas tão perfeita, que cheguemos até mesmo a sermos bons.

(Publicado originalmente na edição 29, de mar/abr de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, fevereiro de 2005

O melhor de Lord Ass



* Personagens esféricos são uma invenção de romancistas; na vida real todo mundo é plano. Quando há uma exceção, e alguém nasce psicologicamente esférico, as pessoas ficam tão espantadas que escrevem livros sobre ele. Ver Samuel Johnson, Lincoln, Churchill.

* Quem andou de jet-ski jamais fará contribuição alguma para a humanidade.

* Há pessoas tão más que até mesmo seus impulsos bons são ruins. Assim que resolvem ajudar a humanidade, a primeira coisa que fazem é odiar quem acham que não ajuda a humanidade.

* Há filmes que já começam emocionados. Você nem precisa ficar emocionado, porque o filme já está emocionado por você.

* Eis porque a Monarquia caiu – as pessoas queriam que todas as formas de governo fossem um pouquinho mais chatas. O grande motor da história é a propensão das pessoas chatas a chatificar tudo.

* Toda a literatura latino-americana é especialmente amada por idiotas, que evitam a literatura anglo-saxã por instinto e política. Digamos que demonstram uma prontidão para ler Cortázar que não costumam ter para ler Dickens.

* As pessoas sempre falam do clima de liberdade, imaginação, humor e aventura que havia tomado conta dos estudantes em 68, mas ninguém fala da liberdade, imaginação, humor e aventura dos policiais da CRS dando pancadas nos estudantes. É preciso ser muito sem humor para não ver o lado cômico da repressão policial, e a possibilidade nunca efetivada de dar uma boa cacetada na cabeça de Jean-Luc Godard justifica todo o governo De Gaulle.

* Quem perde a religião e a substitui pela arte corre esses riscos, de ser a velhinha beata e mofadinha da Grande Arte, distribuindo imagens de Kafka crucificado e rezando a Ismail Kadaré para ver curada uma sentença tortinha.

* Quando uma mulher está fazendo força para ser mulher ela se limita a falar de, e pensar em, relacionamentos fracassados, abortos, e vários tipos de sentimentos asquerosamente delicados. A feminilidade, se é um estado a ser alcançado, é notavelmente parecida com a chatice.

* Os puritanos são xingados por todos os lados, mas eu acho uma gente legalzinha. Queriam reprimir o teatro. E se dependesse deles eu nunca teria visto o pinto de Harvey Keitel, nem aqueles caras todos mijando nos filmes de Pasolini.

* A função da crítica é me divertir falando de livros. Não tem problema que esteja errada, se estiver errada divertidamente; mas nunca deveria estar certa, se estiver certa chatamente.

* Pensei em dizer que todos os atletas são intelectuais frustrados. Imagine uma roda de gente discutindo Kant. Daí chega o atleta. “Diz alguma coisa sobre Kant”, dizem para o atleta. “Não consigo, mas em compensação eu pulo alto pra caramba”. E imediatamente começa a dar pulinhos no mesmo lugar.

* A preguiça resolve problemas. Quanto estou cheio de coisas pra fazer, deito no chão com um livro e fico assim durante dois ou três dias. De vez em quando paro pra ouvir Gilbert e Sullivan. Não falha: algumas coisas se resolveram sozinhas, outras chegaram a uma crise que já não precisa da minha intervenção, e quase sempre algum amigo meu, que havia pedido um favor, deixou de se considerar amigo meu, e portanto o favor não precisa mais ser feito. Tente, old boy.

* O prazer de não ler jornal. Alguém pergunta pra você: “Nossa, você viu esse escândalo do Repolhinho?” E você não viu, não sabe de nada, porque acordou e foi diretamente ler Sêneca. Ah, o prazer de ignorar completamente o escândalo do Repolhinho.

* Histórias de detetives são uma forma de história de caça, e histórias de caça foram provavelmente o primeiro tipo de história que as pessoas contavam umas às outras, e provavelmente serão as últimas também. Foi só no século dezenove que os escritores sérios deixaram de escrever sobre a emoção da caçada para escrever sobre proxenetas sifilíticos que se matam no final. É uma moda, vai passar.

* Meu vegetarianismo não hesitaria em comer os braços gordos de um camelô, os tríceps de uma cobradora de ônibus ou a queixada de um fiscal da prefeitura. Meu vegetarianismo só poupa o coitadinho do boi e o inofensivo frango.

* Já há tão poucas pessoas livrescas. As pessoas deviam ser ainda mais livrescas. Por mais que uma pessoa leia, devia ler mais e viver menos. Não há leitura que não seja interrompida pela vida, que é uma senhora desgrenhada que baba.

* É sempre fascinante ver os comentários de centenas de jornalistas de esquerda ridicularizando a idéia de que exista um número excessivo de jornalistas de esquerda.

* Lula foi eleito pelo mesmo motivo de que existem pornôs em que donas de casa fazem sexo com encanadores: paixão pelo Homem do Povo.

* Todas as pessoas que usam as palavras confundir, liberdade e libertinagem na mesma sentença deveriam levar um tiro no joelho; exceto eu, que acabei de fazê-lo por motivos didáticos; mas todos os outros, sim.

* Ser acadêmico é para sempre ouvir os recados de grandes homens pela boca de homens menores. “Dostoiévski telefonou e disse que...”, diz Bakhtin.

* (sobre a universidade) E no entanto a idéia, em si, de um homem inteligente conversando sobre livros com outros homens inteligentes, num lugar agradável, longe de bancos, borracharias e despachantes, é uma das imagens da felicidade na terra. A idéia da universidade é essa, é só isso: um lugar longe de telefones, longe de contas a pagar, longe das banalidades grotescas da vida prática, onde homens inteligentes possam conversar sobre livros. De preferência em prédios neoclássicos onde a hera cresce... Que os prédios tenham ficado feios e que a conversa tenha se tornado estúpida é uma das muitas tragédias do século vinte - como o fim dos monóculos e da era clássica dos whodunits.

* É estranho, também não sei explicar, mas continuo escrevendo aquilo que eu penso, e não aquilo que você pensa.

(Publicado originalmente na edição 28, de fevereiro de 2005, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, dezembro de 2004

Não me falem das nossas coisas



Acabo de ver um documentário sobre Truman Capote – ele sempre muito divertido, falando mal de uma ex-amiga na tevê com aquela maldade que me faz admirar certas bichas, literárias ou não. Meu problema é com o escritor brasileiro que aparece nos intervalos do documentário americano. Porque justamente lhe falta maldade; porque ele fala com um tom adocicado de bispo; porque ele é todo diáfano.

Começa que me irrita essa mania de interromper cada documentário estrangeiro para mostrar uns brasileirinhos tronchos que dizem, “Impressionante, não é, gente? Mas agora vamos ver como é que tudo isso se refletiu no Brasil”. Que mania de falar nas “nossas coisas”. É muito vil.

Outro dia comprei a edição brasileira do “Dicionário de Lugares Imaginários”, de Alberto Manguel – muito bom, muito bom, recomendo atabalhoadamente –, e vi na nota do tradutor que eles preferiram cortar vários verbetes dedicados a Tolkien e C. S. Lewis para dar lugar aos “nossos autores” – entre eles, João Ubaldo Ribeiro. Por favor, que necessidade é essa de ficar me lembrando dos nossos autores? Acho muito rude.

Suponho que isso acontece no mundo todo, mas em alguns lugares isso deve ser especialmente cruel. Imagino um documentário sobre Ticiano e Tintoretto passando na tevê da Guatemala, por exemplo. Daí nos intervalos aparece um intelectual guatemaltecozinho falando sobre os equivalentes guatemaltecos de Ticiano e Tintoretto. Oh, a dor, a dor. É de uma maldade de chinês lembrar a um guatemalteca distraído que ele é um guatemalteca – assim, de repente, quando ele olhava Tintorettos comendo pipoca. Vamos parar com esse tique do espírito de ficar pensando nas “nossas coisas” quando vemos as coisas dos outros? Pode ser?

Mas eu falava desse escritor magrela, inteligente, refinado, vago e gasoso, algo untuoso, que apareceu cheio de doçura na minha tela e me revoltou. Essa visão diáfana da literatura é o principal obstáculo à produção de uma obra-prima. Essa gente diáfana! Falam de coisas sublimes, e mesmo quando têm humor é um humor meio sublime, malditamente sublime – um humor que nos enleva, cheio de epifania e vagamente asqueroso.

A avozinha folclórica de alguém diria que “é falta de Jesus no coração” – e, quer saber, é mesmo. Esses sentimentos de exaltação religiosa que se desenvolveriam tão bem numa igreja ficam patéticos numa livraria e piores ainda num documentário sobre Truman Capote. O escritor brasileiro no documentário fala sobre romances-reportagem com uma exaltação de Titi, da Titi d´ “A Relíquia” de Eça de Queirós – mas de uma Titi que substituiu os santos todos por escritores. Quem perde a religião e a substitui pela arte corre esses riscos, de ser a velhinha beata e mofadinha da Grande Arte, distribuindo imagens de Kafka crucificado e rezando a Ismail Kadaré para ver curada uma sentença tortinha.

Oh, como são sérias essas Titis da literatura. Note que de fato preferem autores da Europa Central, e que a literatura anglo-saxã lhes mete um nojinho qualquer – é muito simples, muito macha, tem demasiado humor. É claro que Kafka tem humor (não sejam tão rudes a ponto de me informar isso assim na minha cara), mas não é exatamente isso que eles procuram em Kafka. No fundo gostam mesmo da Europa Central porque todos os romances de lá têm uns campinhos de concentração no meio, e estão cheios de uns exemplos de sofrimento sublime.

O que dá um certo desgosto é ver como os escritores – os escritores medíocres de qualquer país, de qualquer tempo – têm essa cara de escritores. Em qualquer profissão é assim – advogados medíocres se esforçam para pensar como advogados e a parecer com advogados, ter hobbies de advogados e mulheres com cara de mulheres de advogados, com filhos de advogados (preferencialmente) e cachorros de advogados. Mas nas artes, que são justamente o terreno das individualidades (oh, fui um pouco diáfano agora), não deveria ser assim, não é? E no entanto vemos pintores usando boinas e fazendo uma cara impressionante de pintores, com um jeitão muito artístico, e escritores que bebem porque se lembram vagamente que Hemingway bebia, e usam barba para ter uma cara seriona e atormentada, e falam desse jeito oh-tão-diáfano sobre literatura, e (claro, claro, claro) são de esquerda – automaticamente de uma esquerda ligeira, irrefletida, simpaticona e emocional.

“Todos os escritores brasileiros são de esquerda”, disse num jornal um escritor barbudo, Marçal Aquino, que escreve sobre assassinos profissionais baratinhos que trabalham nas estradas mais vagabundas e esburacadas do país (ainda se fosse nas estradas mais atraentes! Caramba!). E sim, tem razão: os escritores são de esquerda como os pintores usam boina – porque lhes disseram que é assim mesmo e eles não ficaram pensando muito pra ver se era assim mesmo. Porque, em suma, queriam ter a cara da profissão, queriam se sentir muito escritores. Porque são medíocres. Oh, a pena que têm dos pobres. Oh, as visitas que fazem a presídios...

Todos ouvimos em algum lugar que devemos evitar a construção de personagens unidimensionais ou estereotipados na literatura; que todos os personagens devem ser muito complexos, muito surpreendentes. O motivo disso, costuma-se dizer, é que “as pessoas na vida real são multidimensionais e surpreendentes”. Mas o que fazer quando os escritores mesmos são uns personagens tão estereotipados, e se aproximam de mim usando boinas e bottoms do PT e falando do quanto resistiram à ditadura?

(Publicado originalmente na edição 27, de dezembro de 2004, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, set/out/nov de 2004

Ai, Creuza



Por que é que tantos escritores, tão logo lhes põem um microfone na boca, viram tamanhas bestas solenes? Fazem uma cara seriona de meter medo, e falam tão empolado que parecem engenheiros, cartolas de futebol, presidentes do Rotary Club.

“Escrever é um ato de liberdade”, disse numa entrevista o escritor carioca J.P.Cuenca; e imagino que ao chegar em casa deve ter se dado um tapão na testa por não ter dito que “escrever é um exercício de liberdade” (“Droga, eu devia ter dito que escrever é um ‘exercício de liberdade’!”).

Lygia Fagundes Telles: “Eu não quero confundir, eu quero denunciar. Estou tentando delatar as feridas do meu país.” (Ugh.) E mais adiante, na mesma entrevista: “Uma vez, um homem, que nunca vi na minha vida, ligou aqui para casa e disse que leu uma passagem de "A Disciplina do Amor" e resolveu desistir de se matar. É nesse tipo de cura que eu acredito.” É um problema quando uma pessoa começa realmente a acreditar nessas coisas que lhe dizem. Se eu me matar algum dia, antes telefono para a Lygia Fagundes Telles e digo que é por causa dos livros dela.

Fernando Bonassi: “Eu espero, com a minha arte, que as pessoas transem melhor, sejam menos racistas, percebam que se não distribuírem a renda serão assassinadas na esquina segurando seus Rolex.” Good God, se eu tivesse dito uma frase tão constrangedora uma vez na vida eu quereria morrer - e acredito que nem mesmo a leitura de “A Disciplina do Amor”, da Sra. Lygia Fagundes Telles, me demoveria da idéia. Mais de Bonassi, que aliás foi gentil uma vez comigo, colocando um romance meu numa lista dos cinco melhores romances do ano 2000 que saiu na revista TRIP (retribuo ficando enojado com sua entrevista): “O que eu acho que a gente pode fazer com a literatura é dar dignidade à vida das pessoas.” Não, meu filho, não, faz isso não. Não me dá dignidade não que eu vou gastar tudo em pinga.

O sujeito realmente se vê saindo por aí distribuindo dignidade aos outros. “Toma, toma dignidade! Para o senhor também, meu bom velho!” Tento imaginar como deve ser pensar em si mesmo nessa forma, como um Distribuidor de Dignidades. Deve ser bom. Mas eu só quero ler um livro – não quero que me dêem dignidade, acho uma insolência.

Fico me perguntando se o problema é comigo e com meus amigos – porque nenhum de nós seria capaz de dizer sem rir essa frase que Fernando Bonassi diz todo sério:
ÉPOCA – Você acha que só se escreve por desespero?
Bonassi – A melhor literatura, sim. Dostoiévski, Camus, Graciliano Ramos, gente que escreveu com as vísceras, com uma originalidade insuportável.

Marcelo Mirisola disse uma vez que escrevia com os colhões, e Bonassi acha que tem que ser com as vísceras; se os escritores brasileiros não sabem nem onde colocar a caneta, como esperam encher seus leitores de dignidade? E oh, a seriedade, a seriedade atroz de quem acha mesmo que tem que escrever “com as vísceras”, e diz isso sem nem uma risadinha de escárnio sequer. De quem acha que os seus livros ensinam a “transar melhor” (santo Deus!), “ser menos racista” e “distribuir renda” – e que além disso tudo ainda salvam a vida aos suicidas! Aos suicidas! Hemingway só se matou porque não pode ler “A Disciplina do Amor”, da Sra. Lygia Fagundes Telles, e...

- Menas, menas!

Oh, Ok.

Esses escritores devem achar que os leitores são uns idiotas, não? Que são indignos, e sujinhos, e nem sabem que correm o risco de serem assaltados na esquina “segurando os seus Rolex”, e que precisam que lhes digam como lavar atrás da orelha, não beber água estagnada, essas coisas todas? E que aliás vão todos se matar se não lerem a tempo “A Disciplina do Amor”? Ora, todos sabemos que alguns leitores até são assim, umas estrumeiras mesmo, mas não exageremos, não exageremos. Imaginar um velhinho sentado numa poltrona, pedaços de macarrão na barba rala, lendo um romance de Fernando Bonassi e ficando todo digno lá pela página 147 (imagine o velhinho ficando digno de repente, cara de metidão, levantando da poltrona ao som de um coro masculino soviético e sacudindo o punho contra uma sociedade injusta e desumana) diverte minhas noites, mas mesmo assim vou ter que pedir que parem um pouquinho, um pouquinho só, com essas empolações todas.

Alfredo Bosi: “Persigo a palavra poética, mais densa que a cotidiana.” Quando estava no colé-gio, qualquer frase desse tipo era recebida por um “ai, Creuza” que me parece que só faria bem ao sr. Alfredo Bosi. (Ou um tapão na nuca. Aliás uns tapões na nuca, bem distribuídos, resolveriam os problemas de grande parte da literatura brasileira.)

Oh, chega, chega. Os cadernos literários estão cheios de frases assim, com escritores gaúchos ou franceses ou chineses dizendo que querem “retratar a sociedade burguesa”, “a opressão feminina”, “o inferno da violência no coração de cada ser humano”, e todas essas bobajadas que um simples “ai, Creuza” resolveria.

Só digo que hoje me cansei de tanta empolação humana - dessa visão da literatura como uma coisa que o tio lá faz pra me ensinar a ser menos racista e não me matar e limpar atrás da orelha.

E ainda estranham que poucas pessoas leiam. Quem quer pagar para levar tamanha passada de mão na cabeça? Depois de ler os livros deles, eu, que não era racista (oh, juro), sou capaz de virar racista só de pirraça. Mas me matar não vou, é muito esforço só pra dar um susto numa senhora pomposa como Lygia Fagundes Telles.

(Publicado originalmente na edição 26, de set/out/nov de 2004, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, agosto de 2004

Céu, inferno e as mulheres



Amigos que freqüentam a Unicamp me dizem que estou errado quando digo que o Inferno fica em Osasco. As pessoas do país todo, dizem eles, quando morrem e foram más, vão para Barão Geraldo assistir aula (e se tornam Mestrandos de Ciência Política. Tenho certeza que no Inferno todos são mestrandos, arrastando os pés em busca de bibliografias e para sempre ansiosos pela aprovação da bancada de demônios).

Da minha parte não acho que vocês de Campinas possam se gabar de ter O Inferno; a Unicamp não me parece pior do que a Usp, a Puc, Oxford ou qualquer Uniban. Com maior ou menor eficiência, bibliotecas melhores ou piores e alunos com diferentes graus de feiúra (quanto pior a faculdade, mais espinhas eles têm – eis aqui um bom método de classificação do ensino superior que ainda não vi ser aplicado), são todas parte do Inferno. Talvez, ao morrer, as pessoas más façam um vestibular. Quem além de mau for burro vai para uma dessas universidades com siglas esquisitas, Unibao, Unibimbo, sei lá eu.

Mas sim, a academia é uma das muitas formas de infelicidade no mundo. E a pós-graduação é uma forma especialmente cruel de tortura - um pau-de-arara dos joelhos do espírito. Quem faz tese não sorri, quem faz tese suspira muito. Todas as pessoas que conheço que estão fazendo tese dizem que não têm mais tempo para ver filmes, para ler livros, para fazer cútchi-cútchi na bochecha da mulher amada. Parecem arrasados, massacrados pela vida. Devem de fato ter sido maus e ido para a Unicamp.

Quem faz tese, alguma coisa fez para merecer.

E as pessoas que trabalham nas secretarias das faculdades são evidentemente demônios. Podem ter vários nomes, Marta, Juvenilda, Tim. Mas pessoas que trabalham em secretarias de faculdades são sempre demônios que riem da sua, nossa, minha, tragédia burocrática. Manuseiam papeizinhos coloridos com ares de monstros gargalhantes, de oficiais da Gestapo decidindo o seu destino com frieza. E fecham o guichê na sua cara de alma condenada.

E, dizem-me, Hitler e Brizola foram vistos assistindo a uma aula de “Literatura e Outros Códigos Estéticos” na sala CL10 do Inferno.
-Mãe, que aconteceu com o vovô?
-Ah, meu filho, o vovô morreu e foi desenvolver tese. Agora reza e vai dormir.

***

(Escrevi o texto abaixo, sobre as mulheres, algum tempo atrás – e não tive coragem de publicar porque naquela época um amigo meu estava casando, e eu não queria que ele desse uma interpretação excessivamente literal aos meus exageros retóricos. Considerando-se que eu era o padrinho, não pegaria bem ele achar que eu realmente queria interromper o casamento, dar um tiro nele e, humm, “fazer algo” com a noiva. Padrinhos não podem fazer isso. Que gafe, que gafe. Mas agora vai.)

Sinto ciúmes de todas as mulheres do mundo. É terrível, numa noite como esta, encostar a cabeça na janela, olhar para a cidade e imaginar que cada luzinha é uma mulher linda me traindo. Queria sair de mangueirinha separando todos os casais, e acho a atração sexual que as mulheres têm por homens que não sou eu uma coisa obscena, imunda. Nunca vi um casamento, mesmo de uma desconhecida, em que não quisesse levantar e gritar, “Parem! É um erro!” Vejo a história da humanidade como uma longa história de traições a mim – as mulheres deviam, todas (Helena, Laura, Eleonor de Aquitânia) terem se mantido castas na esperança de que um dia eu nascesse. Cada carinho feito por uma mulher linda desde o início dos tempos devia ter sido feito em mim, em mim – mesmo os carinhos feitos às rosas. E esta é toda a tragédia do mundo.

***

Algumas mulheres esperaram por mim - na Grécia, na Turquia, na China, na Índia, na Itália. Sob os impérios de Carlos Magno, de Teobaldo II, de Calígula e Caracala, sob as presidências de Lincoln, Taft e Venceslau Brás, algumas mulheres envelheceram esperando por mim. Não há noite que passe sem que eu beije a memória do rosto delas, refletida na fonte tranqüila da minha imaginação.

***

A atração dos homens pelas mulheres é também vil, é grosseira e insolente - elas são minhas, e só eu sei apreciá-las com a suficiente delicadeza de espírito. Cada marido é um canalha que comete adultério todas as noites de sua vida de casado, pelo fato de ir para a cama com a mulher que deveria ter casado comigo, se não fosse o azar de ter sido separado delas por décadas ou séculos ou mares. Aproveitaram-se desse pequeno azar e oficializaram seu adultério vil com uma cerimônia que apenas imita o casamento. Cada casamento é um crime, e queria dar um tiro em cada noivo.

***

Queria acordar no meio de uma cama impossivelmente grande, onde estou eu e todas as mulheres lindas que já existiram. Elas todas em variados graus de deshabillé. Abraçado a Ava Gardner, dou um beijinho no braço de Elsa Martinelli. Agarro Juliette Binoche pela cintura, rolamos para cima de Katie Holmes e minhas duas namoradinhas de infância, Patrícia Nakamura e Adriana Espíndola. Deduzo pelas conversas que Cleópatra está com o controle remoto, mudando de canal em canal – há uma tela gigantesca na nossa frente, e entre pernas e pescoços vejo, durante um segundo, a cara de James Stewart em “Janela Indiscreta”. O filme está começando e ouço Elizabeth Taylor dizer, “Vou fazer pipoca”. Isabella Rosselini faz comentários sarcásticos – não a enxergo, deve estar na cama uns vinte metros mais à esquerda. Enquanto uma Anita Ekberg jovem assopra no meu umbigo e Charlotte Rampling me faz cafuné, pergunto o que aconteceu, como vim parar lá, que diabos é isso. Me dizem que morri, estou no céu, casado com elas todas. Pergunto pelos antigos namorados e maridos delas. “Morreram e viraram todos gays. Estão casados uns com os outros, felicíssimos”. (Fico feliz por eles, muitos eram meus amigos.) “Oh, eu sentia tantos ciúmes de vocês”, eu digo, e começo a chorar. “De vocês todas.” Elas lutam para chegar perto de mim e secar as minhas lágrimas com beijos. “Tantos, tantos ciúmes”. “Ah, passou, passou. Que gracinha. Agora dá um beijo, encosta a cabeça aqui e vamos ver o filme.”

(Publicado originalmente na edição 25, de agosto de 2004, da revista Semana 3)

Alexandre Soares Silva, junho de 2004

Olha, um escritor canhota na sua vida...



Há revistas que não sejam para idiotas? Todas as revistas que vejo na sala de espera do veterinário (é só lá que leio revistas) são para algum tipo específico de idiota.

Há a revista para executivos idiotas ("Você S.A.") e a revista para quem quer ser executivo idiota ("VIP"). A revista para o pai de família idiota ("Veja", "Isto É") e a revista para a dona de casa idiota ("Cláudia"). A revista para a filha idiota ("Todateen"), a revista para o filho idiota ("Superinteressante"), a revista para intelectuais idiotas ("Bravo"), e a revista para esquerdistas idiotas ("Caros Amigos"). E, claro, a revista para donas de casa consideradas idiotas até mesmo pelas outras donas de casa idiotas ("Chiques e Famosos").

Há também uma revista para cachorros idiotas, "Focinhos". Minha cachorra nem fixa os olhos nessa revista, embora eu jure que ela olha algumas das melhores fotos de cachorros-na-neve da "National Geographic". (Ela, como todo mundo, também gosta de fotos de esquimós enrugadinhos.)

Às vezes imagino um especialista em marketing todo feliz porque descobriu um segmento de idiotas ainda não explorado pelas revistas. E lá vão eles criar uma revista para gays idiotas ou albinos idiotas ou sanfoneiros idiotas ou técnicos de vôlei idiotas. Deus!

Fiquei muito feliz depois que parei de ler revistas; hoje só leio livros e mãos. E, ocasionalmente, para rir, as legendas da tevê a cabo.

***

Desde os mais nerds anos da minha vida tento aprender a ler mãos para poder segurar as mãozinhas de mulheres indefesas. Segurei muitas, folheando ao acaso uma biblioteca inteira de mãos femininas, lendo uma linha aqui e acolá - dizendo baixo e devagar as linhas do coração e dos filhos, como um jogador de futebol tentando ler um livro de auto-ajuda.

Se funciona, não sei. Eu mesmo tenho as mãos quadradas de gente prática e ativa, e pfui, sou tão prático quanto sou neguinho. Mas gosto de ir percorrendo a palma da mão da mulher Eleita e Linda com a ponta do indicador, como se estivesse procurando uma passagem especial, deixa eu achar, era tão bonito. Aqui (aí eu minto): "Um blogueiro canhoto entrará na sua vida. Está vendo, é esta linha aqui. Cabelos grisalhos. Modos agradavelmente antipáticos e gentis..."

Uma vez na faculdade li a mão de uma mulher linda que tinha o que os livros caracterizam como "dedos de psicopata". Porque na quiromancia você lê também a forma dos dedos e das mãos, a flexibilidade das articulações, a cor da pele. Sangue seco na borda das unhas também deve ser mau sinal, mas divago.

Os dedos ditos de psicopata terminam achatados, com unhas curtas; os dedos têm um formato um pouco de pinto, com uma cabecinha, sabe? Talvez você ache que não existem dedos assim, mas oh, existem. Essa mulher linda tinha dedos de pinto, dedos de psicopata.

Mas eu não liguei. Ela era quieta, e de repente ria muito alto jogando a cabeça pra trás em momentos que não eram engraçados. Mas nunca a vi sendo psicopata, propriamente falando. Olhei bem nos olhos dela enquanto dizia que tal linha significava "um escritor canhoto na sua vida" etc. etc., e ela me olhando séria, seus longos dedos de pinto descansando na minha mão.

Claro que às vezes um homem dizia, "Ah, você lê? Lê a minha também.", estendendo contente a mão peluda de torcedor do Olaria. Profundo desgosto na tenda quiromântica do Dr. Soaressilva. Ele não entendeu o espírito da coisa.

A coisa toda foi feita pra pegar na mão de menininhas. Não que não seja, hã, válido; deve ter algum sentido. O destino de alguém é guiado pela personalidade - não só, eu sei, mas em grande parte. E a personalidade vai marcando tudo numa pessoa - o rosto, a retidão da coluna, as linhas da mão e a beleza da prosa. Alguém poderia prever o destino de uma pessoa ao ler um soneto escrito por ela, deduzindo coisas a partir do uso de cesuras e cacófatos. O uso das figuras de linguagem indicando quantos filhos a pessoa vai ter. Muita metáfora, vixe, vai morrer virgem.

Uso de rimas ricas e rimas pobres indicando a prevalência da razão sobre a emoção, ou o contrário, sei lá. "Esta inversão sintática aqui indica a chegada de um blogueiro canhoto na sua vida." Mas, ah, de que vale tudo isso sem segurar na mãozinha?

E a última das mãos que veio parar, aninhada, nas minhas - eu realmente fico me procurando lá. E acho que me vejo - deitado na curvatura ascendente da linha do coração, como se fosse numa rede, a cabeça apoiada na almofadinha formada pelos montes de Mercúrio e Apolo - aquelas polpinhas debaixo do mindinho e anular, que no caso da mão dela, dessa mão em particular, formam uma polpinha só, como um bom travesseiro.

"E olha, um escritor canhoto na sua vida..."

(Publicado originalmente na edição 24, de junho de 2004, do jornal Semana 3)

Alexandre Soares Silva, maio de 2004

Olá



Uma amiga minha comprou um livro porque tinha foto de gente pobre na capa e ela sentiu pena. Juro, não estou brincando.

Pensei em fazer isso também. De agora em diante, cada livro meu vai ter foto de gente pobre na capa. É claro que não basta ser pobre... Não basta ser um sujeito que ganha pouco mas está vestido decentemente, sentado numa poltroninha. É preciso parecer pobre, ter um barrigão cheio de vermes, essas coisas.

Na verdade pensei em procurar um primo do meu primo, sujeito alcoólatra que vive sem camisa e é barrigudo, e pedir para tirar fotos dele no seu quintal esquálido, sentado numa lata de soja enferrujada.

- Agora coça o barrigão e faz cara de pobre.
- Mas eu sou pobre...

Que mania é essa de pobreza agora? Cada ator que se vê nos filmes ganha mais do que o personagem que representa, e nunca o contrário. Isso é significativo. Eu queria ver um filme em que o ator ganhasse menos que o personagem que representa. Um. Unzinho.

Bom, o livro era um desses de gramáticos malucos que querem provar que a chamada norma culta (o português que eu e você chamamos de correto) é uma forma de opressão e que legalzinho mesmo é falar tudo errado, coisa e tal. Pode ser, pode ser, mas eu nunca entendi o que há de tão errado em oprimir as pessoas um pouquinho. Oprimir é bacaninha, desde que feito com moderação. Oprima com sabedoria. E se não oprimirmos os pobres, eles vão ficar por aí sem fazer nada, profundamente entediados e falando tudo errado. Vão acabar oprimindo uns aos outros para aplacar o tédio, e você sabe pobre como é quando briga, tem sempre um que dá um tiro e mata uma pessoa que ia passando do outro lado da rua. Estou avisando.

***

Não sabe nada sobre a vida quem vê tevê sentado ou de pé; você tem que deitar no chão, num tapete. E com alguma coisa na barriga subindo e descendo junto com o umbigo - um copo de martini, por exemplo, ou uma garrafa de cerveja, ou um livro, ou um cachorrinho dormindo enrodilhado...

E nada de tevê aberta - que, como sabemos, só é vista agora tarde da noite, ou no meio da tarde, por pessoas que fumam maconha; ninguém sóbrio e são veria aquilo. (Só a minha mãe, talvez.) Tenho espasmos no cérebro cada vez que passo na sala e ouço o diálogo das novelas.

Diálogos de novela são um dos pontos baixos do espírito humano. Você vê um bando de seres humanos reunidos num estúdio no Rio, alguém grita "Atenção, gravando!" e de repente eles não parecem mais seres humanos. Alguns são bons atores, mas começam a falar como extras. Extras, por sua vez, falam como zumbis. Repara nos extras.

Mas é possível ser feliz vendo tevê a cabo. Vendo exatamente aquilo que as pessoas muito cretinas ainda chamam de "enlatados". Se são enlatados, há arte nessas latinhas. Sim, arte. Vi uma vez um escritor brasileiro - velho, ruim e pomposo - falando com desprezo, numa entrevista, das "comediotas da Sony". Mas cada comédia daquelas, mesmo as piores, são reescritas dezenas de vezes, cada linha sendo tratada com um cuidado que duvido muito que esse escritor tenha com os seus livros. Ele lê cada linha em voz alta? Várias vezes? Várias, várias vezes? Com pessoas ouvindo, para que ele possa ir mudando uma palavra aqui e acolá de acordo com a reação delas? Duvido muito.

Era o Inácio de Loyola Brandão, caso você tenha ficado curioso. Não ia mencionar o nome, ia bancar o elegante e coisa e tal. Mas não resisti. Gosto de fazer inimigos gratuitamente. Um por semana - mantém você em forma, acaba com aqueles temidos pneuzinhos da alma. Excelente passatempo para a garotada, diversão sadia que os mantém afastados das drogas. Oh, um dos meus heróis era um jornalista inglês que dizia que, quando não tinha inimigos, saía e arranjava um. Auberon Waugh, homem muito odiado. Disse que os operários ingleses ganhavam demais e eram muito preguiçosos. Depois escreveu uma coluna dizendo que o pessoal da gráfica do jornal ganhava muito mais do que ele e mesmo assim estavam sempre em greve. Depois disso, cada vez que ia entrando no jornal e tinha que passar pela gráfica, era vaiado pelos operários. Passava no meio deles sorrindo levemente e com a coluna excessivamente reta, que arrogante. Ele mesmo se metralhou no Chipre, em 1958. Sem querer. Perdeu um pulmão, o baço, um dedo. Mas divago...

Onde estávamos? Oh, alguma coisa sobre a tevê, mas o resumo é isto: evite os canais abertos, que são feitos por e para maconheiros (nada mais a explica...), e veja sitcoms, que são aquelas coisas que os bocós chamam de "enlatados". Sempre deitado no chão. Deitar no chão é postura mui nobre e conduz à felicidade. Tenho passado muitos anos em casa sem fazer nada, e não posso opinar sobre muita coisa - mas posso opinar sobre a felicidade de ver tevê deitado no chão...

(Publicado originalmente na edição 23, de maio de 2004, do jornal Semana 3)

Delfin, março de 2006

End in the end



Tudo chega ao fim um dia. Tudo. A vida, os amores, o planeta, o dia, pode pensar no que você quiser. De um modo ou outro, qualquer coisa que possamos imaginar acaba. Inclusive o tempo.
É, é estranho, mas você deve se lembrar que é graças ao sentido humano de tempo que as coisas se originam e também se encerram. O tempo é a chave de tudo para a humanidade. E as viagens no tempo, tema comum na ficção, só têm sentido para os homens. Para a nossa percepção.

Proponho uma viagem rápida até setenta anos atrás. Naquele longínqüo 1936, nascia o pri­mei­ro herói mascarado, o Fantasma, criado por Lee Falk. E a noção de tempo já estava presente. Afinal, ele é o espírito-que-anda e, portanto, é imortal, graças a uma certeira artimanha: a linhagem hereditária — que, de certa forma, não deixa de ser uma maldição — que leva todo Kit Walker a se tornar o próximo protetor de uma linhagem que dura mais de 400 anos.

Logo de cara, o primeiro herói tinha a solução para aquele que viria a ser o principal paradoxo da indústria dos quadrinhos ocidentais: a finitude de seus personagens. Nos EUA, isso leva a crises, a guerras secretas e todo tipo de invencionismo. Nos quadrinhos infantis, ao imobilismo do crescimento dos personagens, tornando-os muitas vezes crianças com décadas de vidas — e aí, talvez, as criações de Maurício de Sousa tenham sido as que foram melhor talhadas para suportar a pressão do tempo, em vista do bom humor dos roteiristas de suas histórias, que brincam sem qualquer amarra com a idéia, genuinamente temporal, da cronologia.

Os altos e baixos dos heróis possuem isso de ruim: a finitude inexistente. O mercado sempre ditou o tempo que cada personagem deveria durar. O mesmo mercado que nunca se adaptou à ideia de que ele poderia ter maior controle sobre este aspecto criativo. Teve que acontecer uma guerra e, nela, um grande incidente em Pearl Harbor para que tudo se movimentasse na busca de outra solução.
Enquanto os heróis americanos se eternizavam artificialmente e os europeus ensaiavam os pri­mei­ros pas­sos rumo à aventura, os japoneses descobriram, muito rapidamente, que o eterno na mente dos leitores se fixa muito melhor quan­do se cria um mito, se desenvolve o mesmo e, depois, se encerra a criação. O paradigma dos mangás, de histórias contidas, demorou dé­ca­das para ser assimilada no ocidente. E é o grande motivo do sucesso de séries recentes, como Sandman, Y – The last man, 100 Balas e Cerebus.

Digo tudo isso porque entender o fim dos ciclos é importante. Nem sempre, no entanto, estes ciclos são planejados. Às vezes acontecem de modo fortuito e incontrolável. E, nestes casos, o tempo, aquele que se seguirá a este fim, é que irá mostrar quem chegou para ser lembrado no futuro e quem nasceu para ser esquecido.

Esta edição de Semana 3 marca o fim de um destes ciclos. Todos sabem que estou por aqui desde muito antes do primeiro número, seja na escolha do nome do jornal (que, poucos sabem, começou com o fim do fanzine El Justiciero), seja na escolha do logo, da periodicidade, das cores predominantes, do formato sempre diferenciado, do conceito sempre inovador.

Certamente Barão Geraldo e Campinas não merecem ser privados da informação contida nestas páginas, das grandes entrevistas, das polêmicas. Mas, ao menos por enquanto, é hora de fechar esta porta e lembrar. Até o dia, claro, que alguém resolva reabri-la. Que seja breve.

(Publicado originalmente na edição 37, de março de 2006, da revista Semana 3)

Delfin, dezembro de 2005

We shot the sheriff



O faroeste é um gênero muito importante para a minha geração. Sério. Pode perguntar para qualquer cara destes que começa a ficar velho, nascido nos fins dos anos 60 ou começo dos 70, se ele não assistia faroestes na tevê. Sério. É algo tão importante quanto Os Trapalhões ou, sei lá, Playmobil. Ah, isso não é importante pra você? Então, sugiro que, delicadamente, desvie o olhar desta coluna e se dirija para outra parte desta revista. Pois, hoje, só quem se importa é que vai entender a importância do que tenho pra dizer.

Pois bem, era natural assistir aos bangue-bangues. A Record era a tevê que mais dedicava tempo para os mocinhos, bandidos e índios em sua programação. Hoje bem nostálgicas, a Sessão Bang-Bang (faixa de seriados sobre o Oeste Bravio) e o Bang-Bang à Italiana (faixa de filmes em horário nobre dedicada aos faroestes, notadamente os originários do país da bota) faziam a cabeça de muitos garotos e criavam ídolos instantâneos.

Lembrar de séries como Laredo, James West, Laramie, Os Waltons, Chaparral e dezenas de outras é quase uma obrigação. Tanto quanto recordar as músicas memoráveis de Ennio Morricone em filmes de Sérgio Leone. Ou, ainda, tentar pescar na memória se o melhor cara com as armas era o Ringo do Giuliano Gemma ou o Trinity do Terence Hill. Aliás, quantos ho­mens já fizeram o papel de Trinity? Ou de Sartana? Ou de Django?

Um repositório, portanto, de visões distorcidas do Oeste Distante foi colocado em muitas men­tes incautas brasileiras. O resultado é que muita gente, até hoje, se identifica com estes filmes por aqui. É um fenômeno, no entanto, que atinge muitos países. A particularidade é que, no Bra­sil, o Faroeste Spaghetti é que se tornou muito mais popular para a minha geração.

Isso tudo tinha que ter uma conseqüência.

Teve. Um bando de artistas e roteiristas brasileiros, unidos a alguns poucos roteiristas da América do Norte e capitaneados por Shane Amaya, levaram a cabo um projeto que durou quase dois anos da concepção à finalização: Gunned Down. A história do álbum, lançado pela editora independente Terra Major, é contar histórias de faroeste com a visão diferenciada que temos aqui, no Brasil.

A idéia colou. O álbum — que ficou pronto a tem­po de ser lançado na famosa comicon de San Diego, no meio deste ano — acabou no estande da editora em menos de uma hora. Um fato bem raro e que só colaborou para que a versão nacional saísse bem rápido.

O nome do álbum nacional, à parte do nome da nova novela global, era óbvio: Bang Bang. Não é de se estranhar que os editores da Devir tenham tido a mesmíssima idéia que Mário Prata, criador do folhetim global.

E tem de tudo na revista: história longa, história curta, traço tradicional, traço inovador, acabamento limpo, acabamento sujo, roteiros mais ao lado do humor, outros mais ao lado da aventura. Enfim, um álbum que contempla o espírito de uma época que ficou pra trás, mas que ainda pode ser lembrada.

Gente boníssima, como os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, estão no álbum. Apesar deles se­rem os nomes mais conhecidos, tem mais gente de altíssimo nível por lá: Fábio Cobiaco, PEOV, Bruno D’Angelo e Kako são só alguns deles. Um grande destaque é para Ricardo Giassetti, ex-sócio da Pandora Books e roteirista de alto nível (e que figuras lá de fora, como Darko Macan, já sabem que existe há algum tempo).

Inteiro em preto e branco (como nossas tevês antigas), é um álbum imperdível. E tenho dito.

(Publicado originalmente na edição 36, de dezembro de 2005, da revista Semana 3)

Delfin, novembro de 2005

Cem anos de Tico-Tico



Cem anos é muita coisa. Quando o objeto do centenário é importante, então, é mais coisa ainda. Pode-se seguir por qualquer lado para se analisar: importância histórica, referência pessoal, influências em áreas do conhecimento humano, enfim, muitos viéses.

Ano que vem, por exemplo, é o centenário do vôo histórico do 14 Bis, que notabilizou Santos Dumont, em boa parte do mundo, como o verdadeiro pai da aviação. Um vôo que, na verdade, será comemorado gloriosamente, com a ida do primeiro homem brasileiro ao espaço.

Aqui em terra mesmo, há mais centenários acontecendo. No futebol, por exemplo, é a vez do aniversário do Boca Juniors, do Chelsea e também, por que não?, do Sport Recife. Na literatura, o centenário é de Júlio Verne, ainda que eclipsado pelo quarto centenário do Dom Quixote. Mas também faz cem anos que outras coisas começaram a rolar no mundo, como o picolé, o teste de QI e o avião (pois, sim!, o 14 Bis foi inventado por Santos Dumont um ano antes, ele só não havia decolado ainda).

E os quadrinhos, será que tem o que comemorar neste ano cheio de centenários dignos de nota? Certamente sim. Um internacional, que chama mesmo a atenção de todos, e um nacional, que merecia mesmo ser lembrado.

Os cem anos do primeiro aventureiro do mundo dos sonhos, o ainda insuperável Little Nemo, é o mais importante, sem dúvida. Criação de Winsor McCay, um dos grandes gênios que o mundo dos quadrinhos já viu, a série revolucionou os conceitos ainda incipientes de roteiro e desenho da época, catapultando a qualidade de ambos para alturas ainda impensáveis para um tipo de arte publicada em jornais mal impressos e com coloração sofrível. Mas Nemo (que quer dizer ninguém) era muito mais impressionante do que se poderia crer que fosse possível. Por isto mesmo é até hoje cultuado por grandes artistas de muitos meios, como, por exemplo, Neil Gaiman e Phil Collins.

Já o centenário nacional é o da primeira pu¬bli¬ca¬ção infanto-juvenil de quadrinhos daqui, O Tico-Tico. Responsável pela formação de pelo menos três gerações de crianças, o semanário trazia a qualidade editorial do jornal que lhe deu origem, “O Malho”, e também a grande ca¬pa¬ci¬da¬de dos autores nacionais, principantes na área, em expandirem rapidamente o universo ficcional infantil.

Homenagens ao jornal/revista, que che¬gou a ul¬tra¬pas¬sar os primeiros cinqüenta anos de sua vida nas bancas, começam a aparecer. No Rio de Janeiro, por exemplo, uma exposição magnífica retratou a história d’O Tico-Tico, com grande pre¬ci¬são e muitos originais, numa verdadeira aula da história das HQs brasileiras.

Na última semana, também chegou às livrarias a edição “O Tico-Tico: cem anos de história”, de Ezequiel de Azevedo, pela editora Via Lettera. Mas o livro, de apenas 64 páginas, tem inúmeras falhas de pesquisa, é incompleto e superficial perto da história de uma publicação que passou dos cinqüenta anos em circulação. O que faz muita gente pensar se o autor (cuja biografia é sequer citada) não quis mesmo tirar uma casquinha com este material visivelmente apressado.

Ao contrário, a editora Opera Graphica, que deu um tremendo salto de qualidade nos últimos anos, promete um verdadeiro compêndio sobre O Tico-Tico, que só não chegou ainda às livrarias por conta do caro zelo do editor Franco de Rosa pela correção das informações textuais e visuais do álbum. Se for assim, a homenagem se torna justa. A história das HQs merece qualidade. O oportunismo editorial? Podemos ficar sem.

(Publicado originalmente na edição 35, de novembro de 2005, da revista Semana 3)

Delfin, outubro de 2005

Adaptações



Hoje não vou falar de nenhum quadrinho específico. Na verdade, alguma divagação será vista por aqui. A intenção é discutir a aceitação dos quadrinhos pelo público em geral. Gostando ou não de HQs, você faz necessariamente parte deste público. Só isso já faz com que a discussão valha a pena.

A motivação para escrever esta coluna partiu das notícias sobre a adaptação, para o cinema, da minissérie de Alan Moore e David Lloyd, V de Vingança. A reclamação, como sempre, é a mesma: não há fidelidade ao roteiro original. Para piorar, os Irmãos Wachowsky simplesmente tiram a máscara do personagem-título, algo impensável para qualquer um que leu a série.

Isto me fez lembrar de outra história que tem no esconder a face do protagonista uma de seus pilares sustentatórios: Judge Dredd. Batizado no Brasil simplesmente como O Juiz, o filme mostra o rosto de Joe Dredd de forma escancarada, só porque o ator escalado era Sylvester Stallone.

A indústria cinematográfica é bem cruel. Do inferno e As aventuras da Liga Ex¬tra¬or¬di¬ná¬ria foram outros dois quadrinhos complexos que tinham, em seus roteiros cinematográficos, incongruências enormes em relação à série original de quadrinhos. O privilégio, porém, não é apenas das histórias mais elaboradas. Os heróis mais conhecidos, na verdade, são os que mais são violentados em suas essências.

Vejam, por exemplo, o recente filme do Quarteto Fantástico, no qual Victor von Doom é o dono da missão particular espacial que lança os quatro imaginautas ao espaço. Aliás, a nave não se destroça na reentrada e, é claro, a origem do Dr. Destino foi radicalmente comprometida. Mas é um filme que ainda dá pra assistir, ao contrário de Demolidor e seu spin-off, Elektra.

No primeiro, Ben Affleck está tão mal caracterizado que passamos até a reparar mais nisso do que no falso roteiro. Mas, se você gosta do ator (ou da atriz Jennifer Garner, que faz o papel de Elektra Natchios), mesmo assim você vai se abismar com o Rei do Crime negro. Pois é, o Careca conseguiu ficar pior, quem diria!

Eu juro, há um total constrangimento de minha parte quando ouço falar de obra de HQ adaptada para cinema. Os antecedentes mostram que, infelizmente, por mais que quadrinhos sejam como storyboards para quem trabalha nesta área, as obras originais nunca são fielmente seguidas, mesmo que seja um bom e detalhado gibi.

É esse preconceito no ar, essa coisa egóica de cada diretor querer personalizar tanto, criar para si uma visão interna e diferenciada de personagens, é que destrói e muito as chances de prosperidade com obras em quadrinhos. A maioria das vitrines de livrarias do Brasil não só não expõe HQ em vitrine, como meio que esconde num canto ao fundo da loja. Só sendo garimpeiro e tento muito boa-vontade.

O desejo de todo roteirista, que pensa em ver sua obra para o cinema bem adaptada, é conseguir algum controle na criação de sua obra ou adaptá-la o mais fiel quanto for possível. Senão, amigo, poderemos ler baribaridades, como os gibis de segunda linha da DC e da Marvel. E ninguém quer isso, vê?

Apesar de adaptações razoáveis, como X-Men, Superman e Estrada para Perdição, a palavra adaptação me dá arrepios. Será que o povo dos quadrinhos é tão incompetente que não consegue, de modo algum, emplacar com suas idéias e seus roteiros respeitados?

Bem fazem mesmo são os produtores de Watchmen: viu que não deu, aborta tudo. As coisas ficam bem melhores, assim.

(Publicado originalmente na edição 34, de outubro de 2005, da revista Semana 3)

Delfin, ago/set de 2005

Palavras do mestre



O dia seguinte ao meu aniversário neste ano foi bem triste. Ao ler os sites de quadrinhos do último 3 de janeiro, descobri que o maior mestre dos quadrinhos do século passado havia morrido. O carismático Will Eisner, de tantas vindas ao Brasil, país no qual era mais reconhecido e pu¬bli¬ca¬do que nos Estados Unidos, vai deixar mui¬tas saudades. Mais do que isso, no entanto, o que ele deixa é um dos mais honestos, impetuosos, criativos e grandes legados da história dos quadrinhos ocidentais.

Sempre tem quem não conheça Eisner, então não custa nada disparar um parágrafo óbvio, citando que ele foi o criador do Spirit, um dos primeiros heróis clássicos dos quadrinhos. Spirit, na verdade, era o policial Denny Colt, dado como morto após uma missão, mas que continuava vivinho da silva. Marcou época por conta do traço elegante de Eisner, de suas histórias inusitadas e, principalmente, por conta do fator humano envolvido em suas tramas. Spirit sempre foi um herói crível, uma pessoa que não enfrentava super-vilões, que não tinha qualquer superpoder, que era só um mascarado querendo justiça — humanamente, como qualquer pessoa seria.

Eisner também marcou época por ter criado (ou ao menos formatado comercialmente) as graphic novels, histórias autorais nas quais se podia desenvolver temas mais longos, pessoais e independentes, geralmente voltados a um público mais maduro. São dele, por exemplo, o tex¬to e o traço das badaladas histórias O Edifício, Um contrato com Deus e Avenida Dropsie (este último vertido em uma peça de teatro de grande sucesso no Brasil).

Porém, a obra do mestre que mais marcou nos últimos anos foi Quadrinhos e Arte Seqüencial, consderada um verdadeiro códice dos quadrinhos modernos e que inspirou, nos últimos anos, inúmeros profissionais de quadrinhos em todo o mundo, ocidental e oriental. Juntamente com Desvendando os Quadrinhos, livro de Scott McCloud, a obra amplificou muito o modo como os quadrinhos eram sentidos quanto às possibilidades, funções, estética e importância.
Era natural, portanto, que Eisner revisitasse um dia suas anotações e produzisse mais algum material sobre o assunto, que de algum modo complementasse e, claro, amplificasse a onda produzida pela sua primeira obra teórica. Deste modo, surgiu Narrativas Gráficas, livro que foi, no país, postumamente publicado.

Narrativas traz um Eisner ainda mais maduro quanto às suas convicções acerca da arte seqüencial, defendendo de modo ferrenho as possibilidades desde veículo de informação e mostrando, passo a passo, como é criada a narrativa gráfica aplicada aos quadrinhos. Há comparações com outros meios de comunicação, exemplifica com diversos exemplos cada ponto a ser demonstrado, elencando, para conduzir a história, personagens pré-históricos (para demonstrar que até mesmo quem nunca teve nenhuma noção de HQs poderia aprender e apreender tudo o que está lá dentro).

O livro tem, em seus exemplos, os pontos mais altos, ao analisar as narrativas de astros como Milton Caniff, Al Capp e George Herriman, bem como apresentando ao leitor obras precursoras ds quadrinhos como hoje conhecemos.

A edição nacional, publicada pela Devir, peca infelizmente por conta de diversos erros de digitação e revisão, suficientes para que se fique triste. Pois uma obra destas, que deve constar na prateleira de qualquer amante sério da nona arte, deveria ser apresentada ao público com cuidado redobrado. Afinal, isto é o mínimo que se espera de uma empresa, que, em 2005, papou o HQ Mix de editora do ano.

(Publicado originalmente na edição 33, de ago/set de 2005, da revista Semana 3)

Delfin, julho de 2005

O amor e o poder



A Garota-Retrô era como uma namoradinha da América. Provavelmente a heroína mais querida do país. Então o choque provocado por sua morte trágica não poderia ser menor do que foi: uma perda histórica. Para algumas pessoas, no entanto, esta morte é só o início de uma viagem em busca de histórias passadas que se pretendia esquecer. Assim, somos introduzidos às histórias de Christian Walker e Deena Pilgrim, os dois detetives encarregados de descobrir quem é o assassino daquela que era um exemplo para todas as mulheres.

O universo de Powers, novo título da Devir no Brasil, pretende jogar um novo viés na perspectiva pela qual os heróis são vistos. Uma perspectiva policial que, apesar da aparente natureza vigilantesca dos heróis uniformizados, poucas vezes é explorada. O responsável por esta virada é o roteirista Brian Michael Bendis, principalmente. Ele é muito bem secundado pelo cocriador da série, Michael Avon Oeming, e pelo colorista Pat Garrahy, mas é patente que a grande responsabilidade é do escritor.

Aliás, o trabalho com o lado policial das histórias, que o aproxima de autores como Max Allan Collins (Ms. Tree, Esrtrada para Perdição), leva os quadrinhos a uma situação pouco vista no universo superheróico. O estilo, tradicional na Europa (notadamente na Itália e nos países francófonos), ganha novos e violentos contornos no Novo Mundo. Não é incomum, portanto, que vejamos os uniformizados em situações mundanas.

Perceba isto: mundanas mesmo. Situações constrangedoras, que podem estragar suas carreiras. Situações de confronto entre a ordem estabelecida e os preceitos morais de cada indivíduo que se traveste para combater os males sociais. E quase sempre tais conflitos não levam a situações amistosas.

Bendis já havia incursionado pelo universo das investigações policiais antes de se aventurar pe¬las tramas de super-heróis. Um exemplo é sua série, inédita aqui, intitulada Torso. A narrativa é sobre o primeiro caso de Elliot Ness, transferido de Chicago após a prisão de Al Capone — também outro crime de relevância: o assassino do Torso, o primeiro serial killer dos EUA.

Mesmo hoje, Bendis espalha seu texto gigantesco (haja criatividade dos letristas para acondicionar tamanha quantidade de palavras por quadrinho!) por obras tão diversas como o Demolidor e a aclamada série Alias (nada a ver com a série de tevê homônima), ambas pela Marvel. E com o mesmo êxito alcançado após o prêmio Eisner conquistado em em 2001 pelo seu trabalho no primeiro arco de histórias de Powers, justamente o álbum que a Devir publicou há dois meses: Quem matou a Garota-Retrô?

A série em si é extremamente interessante, mas muitos insistem em compará-la com outros casos de visões alternativas do mundo dos heróis, como Astro City e Marvels. Porém, Powers possui um diferencial acentuado: Bendis apos¬tou na criação de sua própria mitologia, ao invés de recorrer a pastiches, reaclimatação dos arquétipos conhecidos dos heróis ou recontar as histórias tradicionais sob um novo prisma. Isto dá uma vivacidade renovada às suas tramas, o que é sempre muito bem vindo.

Também polêmico, um dos próximos arcos da série trata de uma cena criminal envolvendo jogadores de RPG. Chamado Roleplay, será interessante de ver o tom ácido do escritor sendo publicado pela editora que, hoje, mais publica material deste tipo de jogo no Brasil.

Paricularmente, eu acho o homem um grande roteirista. Mas, se puderem, corram atrás é de Torso. Lá, Bendis faz literatura. E história.

(Publicado originalmente na edição 32, de julho de 2005, da revista Semana 3)

Delfin, junho de 2005

A revolução chama



Falar de um quadrinho lançado há mais de um ano nunca foi do meu feitio. Mas, quando se tem um motivo para isto, eu faço de muito bom grado. Principalmente quando é para se dar boas notícias: é a Brainstore, meus caros, que volta com tudo! A editora, que estava meio sumida dos olhos de todos, aparecendo pra dar um rápido aceno de vez em quando, fincou presença na XII Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, de modo marcante.

Apesar do pequeno estande, a editora estava em peso, comandada pelo editor Eloyr Pacheco e trazendo muitas novidades, como a volta da revista sobre sci-fi e HQs, Replicante. Só que o importante é que, finalmente, chegou às minhas mãos um dos grandes trabalhos de ficção científica e aventura publicados no Brasil em 2004. Ninguém falou quase nada dele e, como ele foi bem lembrado na Bienal, merece esta matéria. Estou falando do belíssimo álbum Ironwolf: as chamas da revolução, de Howard Chaykin, Thomas Francis Moore, Mike Mignola e P. Craig Russel.

Influenciado por ícones da ficção científica dos anos 30 e 40, Chaykin, em parceria com o amigo Walt Simonson (responsável pela controvertida reformulação do Thor na última década), criou o universo de Ironwolf, no qual predomina o Império Galaktiko, agora também chamado de Comunidade. Lugares que podem parecer com cenários clássicos europeus, mas que, na real, pertencem a uma nova ópera espacial.

Existe também um planeta Terra. Mas ele não é o nosso, nem o universo é o mesmo. A colonização universal, graças às técnicas de propulsão desenvolvidas pelos chineses no final do século XXI, agora era uma realidade. Havia muio a se explorar, muito a se conquistar e, também, muito a se destruir. Por isso mesmo, a sociedade continuou organizada em castas, com as pessoas que mandam querendo cada vez mais o poder, achatando a população no mais puro empobrecimento.

A grande matéria-prima é a madeira. Por ela é que há as grandes batalhas. A principal delas envolve os dois irmãos da família Ironwolf. Um deles, querendo o poder a todo custo. O outro, liderando uma resistência contra o Império. Numa destas batalhas pelas florestas, a nave do capitão Brian Ironwolf é traída por frotas aliadas. Toda a sua tripulação é morta, exceto o seu comandante e o assistente Goodfellow. Após um coma de quase dez anos, ele retoma a consciência. E tudo o que ele deseja é vingança.

Soa um pouco como Guerra nas Estrelas? Sim, mas o universo de Chaykin é um tanto quanto mais sombrio. Principalmente por envolver muito mais política do que se espera. A aventura toda se passa num lugar onde nem mesmo o herói é de todo bom e, por isso mesmo, a vingança arde forte em seu peito — diferente, portanto, dos motivos de Luke Skywalker.

Aliás, Chaykin é um grande elo de ligação entre as suas histórias, pois foi ele que desenhou o roteiro de Roy Thomas para a adaptação oficial de Guerra nas Estrelas para as HQs (publicada por aqui, na época, pela Editora Bloch).

Aliás, é bom salientar que Ironwolf e seu universo são anteriores ao épico de George Lucas: em dezembro de 1973, ele já aparecia na revista Weird Worlds #8, da DC Comics.

E a Brain? Bem, as HQs estão sendo retomados com a editora, após a mesma perder os direitos de publicar seus títulos regulares, como Sandman, Transmetropolitan, John Constantine: Hellblazer e Preacher (este a poucos números do final, o que irritou fãs de norte a sul do País).

Apesar disso, é uma boa notícia para os fãs, que podem esperar novidades bem próximas.

E, por que não?, vida longa à Brainstore!

(Publicado originalmente na edição 31, de junho de 2005, da revista Semana 3)

Delfin, maio de 2005

Ordem



As experiências que levam à publicação de quadrinhos nacionais no Brasil são quase sempre revestidas de coragem e bravatas. Poucas vezes, no entanto, existe um projeto consistente por trás, que envolve políticas específicas de mercado e fatores normalmente esquecidos, como distribuição, público-alvo e possibilidade comercial da edição pretendida. Aliás, muitos projetos morrem na praia e nem chegam às bancas quando todas as contas são feitas. Mas alguns procuram alternativas e conseguem chegar lá.

Um grande exemplo dos últimos 10 anos foi Holy Avenger, que enveredou pelo perigoso caminho do RPG combinado aos quadrinhos, mas que logrou um sucesso inesperado pelo mercado, visto que a revista era desdenhada por muitos profissionais decanos. A publicação marca a chegada definitiva da influência do estilo mangá ao traço nacional. Hoje, um pouco graças a HA, existem inúmeros fanzines e revistas que adotam o traço japonês como base.

Mas há ainda aqueles que insistem em se basear na escola mais tradicional de quadrinhos para criar seu projeto. E viva a diversidade: quando surgiu, nas livrarias, a primeira edição da Front, a idéia de uma publicação coletiva de quadrinistas nacionais pareceu mesmo muito boa. A cada número, as edições melhoravam consideravelmente de qualidade. Ao mesmo tempo, o coletivo, que se reúne numa lista de discussão, começou a perceber que um pouco dessa qualidade se devia à presença de um editor que tinha direito a voto e veto (no caso, Jotapê Martins, da Via Lettera, que publica a revista). Nem todos concordam com uma política editorial mais ferrenha num projeto coletivo, mesmo que isso seja para o bem da publicação. Esta é só uma das divergências surgida no coletivo Front. Elas levaram, no fim, à revista Kaos.

Fiquei sabendo da idéia há dois anos, dividindo um quarto de hotel na camaradagem com Sam Hart, um dos mentores da revista. Enquanto conversávamos sobre o evento em que estávamos (a 2ª FIQ, em Belo Horizonte), ele falou sobre a Kaos, que estava em negociações com uma editora para publicação em bancas.

Parecia meio loucura. Ainda mais quando descobri que a editora em questão era a Pandora Books. Cheguei a ver o boneco na revista ainda em 2003, quase que exatamente como ele chegou às bancas, quase um ano depois. A Pandora ia mal das pernas e, com o seu fim, a Kaos ficou sem casa. Mas os parceiros do projeto, como Sandro Castelli, Jean Canesqui, Anderson Cabral e o próprio Sam Hart, não estavam dispostos a deixar aquilo morrer na praia. A Kaos encontrou uma nova casa, a editora Manticora. Hoje, eles se preparam para o lançamento do número 3, barreira psicológica de qualquer quadrinho brasileiro.

Não é tão surpreendente assim. Quando se lê as duas edições iniciais da revista, se percebe logo de cara que ali residem boas idéias, formatação gráfica profissional e que nada ali foi jogado ao acaso. Há espaço tanto para séries quanto para histórias isoladas, o que é típico da escola inglesa de quadrinhos, como as clássicas 2000AD, Deadline e Warrior. Algo difícil de se levar avante, principalmente no início, quando o leitor não sabe ainda muito bem o que esperar de tudo aquilo.

Impressão de primeira, capa com tratamento especial, boas histórias e entrevistas surpreendentes, como as exclusivas de Alan Moore (realizada em 2000 e nunca antes publicada) e David Lloyd e as interessantes revelações de Marcelo Cassaro e Lourenço Mutarelli, dois dos nomes de maior êxito nas HQs atuais brasileiras.

Custa R$ 7,50. E vale cada tostão.

(Publicado originalmente na edição 30, de maio de 2005, da revista Semana 3)

Delfin, mar/abr de 2005

Amor y cohetes



Eu nem me lembro direito em que momento, já na década de 90, eu li, tardiamente, a primeira aventura dos irmãos Hernandez. Acho que foi na clássica revista “Animal”, mas não posso garantir. O que sei é que, quando a editora Record lançou, à época do grande boom dos quadrinhos, em 1991, a revista regular deles, intitulada simplesmente Love and Rockets, soube que estava definitivamente contaminado pelo meme do quadrinho underground americano. L&R e sua série irmã, “Locas”, eram simplesmente muito boas e não havia como ficar indiferente.

Ou havia: o título não vingou, apesar da insistência da editora, que lançara, inclusive, um volume “de luxo” (na verdade, só um pouco menos pobrinho) intitulado “Crônicas de Palomar”. Especificamente neste volume, o trabalho era no universo específico desenvolvido por Gilbert ‘Beto’ Hernandez. Histórias sobre um vilarejo miserável em algum lugar entre o México, o Texas e uma imaginação estelar. Estas histórias faziam parte de um grande arco enredado de forma nada convencional, que foi chamado por seu criador de Sopa de Gran Peña.

O título se refere à famosa história da sopa de pedra, na qual se diz que é possível fazer uma sopa com uma pedra: é só acrescentar ingredientes, para deixar o gosto melhor, ferver e, no fim, retirar o pedregulho. No caso do enredo de Beto Hernandez, esta rocha pode ser muitas coisas: a vila de Palomar, a pobreza, os atritos pessoais ou, em última análise, a vida miserável que a maioria dos habitantes do lugarejo aturam. Os outros ingredientes é que dão o tom desta série indispensável.

O título, no entanto, tem outro significado: sopa dos corações partidos. Pois esta obra fala intensamente de relacionamentos, que invariavelmente não são perfeitos, não sendo raro que dêem muito errado.

Love and Rockets, iniciada em 1982 e recentemente concluída em seu número 50, inovou em muitos aspectos: a voz narrativa, os conflitos humanos reais, o envelhecimento dos personagens como mote natural da vida. Eram personagens em que se podia acreditar, que nasciam, cresciam, viviam e morriam. E que, enquanto viviam, tinham crises, engordavam, tinham ciúmes, comportamento transgressor e muitas outras características que, hora ou outra, sempre afetam cada pessoa.

Muitas tramas paralelas foram criadas no universo de Love and Rockets: além do universo de Palomar, existem também, por exemplo, as mitologias paralelas de Mechanics (que incluem as badaladas Maggie e Hopey, além da coquete Penny Century, personagens criados pelo outro irmão, Jaime), do super-herói BEM e, também, de um material seriamente inclassificável (intitulado, nos EUA, de “Satyricon dos Hernandez”).

Todo este fantástico universo pode até demorar para chegar por aqui. Mas, ao menos, a republicação (ainda que fora de ordem), baseada nos álbuns da editora original dos irmãos (a Fantagraphics), já começou. O trabalho é da editora Via Lettera, que faz um trabalho competente e mostra que, mesmo após a saída de Jotapê Martins (o tradutor de HQs mais conhecido do País) de seus quadros, aponta que, em seu caminho, continuarão a aparecer os quadrinhos mundiais de qualidade. Por exemplo: em seus planos está a republicação de Watchmen em álbuns preto-e-brancos (que, infelizmente, privam o leitor da brilhante cor de John Higgins) e a conclusão de Bone.

(Publicado originalmente na edição 29, de mar/abr de 2005, da revista Semana 3)

Delfin, fevereiro de 2005

HQ sem receita



É bem raro que alguém que se pretenda jornalista cultural não acabe se envolvendo, em algum momento, com a produção de um fanzine. A maioria não resiste ao apelo, cada vez mais acessível, de deter o meio de comunicação para si, para que as próprias idéias sejam difundidas sem qualquer distorção, como foram concebidas. Foi a partir de fanzines que muita coisa interessante surgiu nos mundos escrito e visual – inclusive nas versões eletrônicas, como o mailzine. Foi também a partir desta base que surgiu a matriz da revista Tarja Preta.

Na real, ela é uma extensão do fanzine produzido pelo seu mentor, o jornalista e fotógrafo Matias Maxx. O projeto foi sendo gestado por oito anos, até nacer finalmente em 2004, com o lançamento da primeira edição. O nome da revista se refere, originalmente, às barras negras inseridas nos olhos de infratores menores de idade nos periódicos e impressos oficiais de décadas passadas. Mas, obviamente, também remete aos remédios mais fortes encontrados nas farmácias nacionais.

Assim como esses remédios, Tarja Preta não é para qualquer um. Se você, por acaso, adorar a turma do Mickey, da Mônica ou achar uma heresia falar mal de bichinhos fofinhos, desista, a revista não é para você. Se você tem saudade da ditatura, da discliplina militar, dos valores morais que são aprendidos nos colégios decanos, é melhor também passar longe. Na publicação, comandada por Juca e pelo próprio Maxx, a liberdade impera. Doa a quem quiser que doa.

Certamente o mais representativo personagem da Tarja Preta é o icônico Capitão Presença. O herói é adepto do cigarro de cânhamo (que, para os menos puristas, é chamado sem nenhuma cerimônia de baseado) e está sempre pronto para auxiliar aquelas pobres almas, necessitadas e ávidas pela calmaria proporcionada pela droga que estampa seu uniforme. Mas não se deixe levar pelo preconceito: a revista, que está com o quarto número no prelo, tem muita mais. Nomes já conhecidos do novo underground nacional, como Allan Sieber, MZK, Schiavon, Arnaldo Branco, Dunia e Fábio Zimbres (além de muitos outros) abrilhantam um festival de quadrinhos que, se são aparentemente toscos na forma, apresentam no discurso o tom do atual humor brasileiro, completamente sem máscaras e sem politicismos corretos.

A falta de periodicidade da revista não deve assustar. Não é falta de seriedade ou compromisso, é simplesmente assim que um fanzine funciona: ele vai às ruas quando algo precisa ser dito, o que é o modo mais honesto de se publicar qualquer coisa, sem fazer o leitor perder tempo com assuntos que não valham a pena. Para se tornar mais acessível, também a impressão é econômica, utlizando um papel de qualidade inferior ao das revistas normais e apenas duas cores na capa – o miolo é, claro, preto e branco.

Mas Tarja Preta não é fundamental. Você pode passar sem, sério. Porém, perde a chance única de acompanhar a explosão de novos talentos nacionais num cenário tão desgastado como o nosso.

Pronto para procurar numa banca de revista? Desista.Você pode adquiri-la em pontos de venda especiais ou pelo correio. Em Campinas, especificamente, ela é encontrada na gloriosa Banca Central, na av. Santa Isabel, 29, justamente em Barão Geraldo. Mas, caso você não encontre, basta consultar os modos de aquisição da publicação pelo website oficial de Matias Maxx: www.cucaracha.com.br.

(Publicado originalmente na edição 28, de fevereiro de 2005, da revista Semana 3)

Delfin, dezembro de 2004

Azul do filho vivo



Continuando o seu caminho de lançar bons quadrinhos com qualidade, a Conrad nos brindou, nos três últimos meses, com três álbuns importantes no que se refere ao panorama geral do underground americano: "Fabulous Furry Freak Brothers", de Gilbert Shelton; "América", de Robert Crumb; e "Blues", também de Crumb. Mas, hoje, vamos nos ater ao último, uma das mais bonitas e respeitosas edições de arte seqüencial que esta casa editorial já produziu.

A primeira virtude do material é se amparar numa pesquisa dos trabalhos do autor para compor, do modo mais completo, este livro. De modo inédito no mundo, a compilação reúne as histórias musicais já produzidas por Crumb em diversas fases de sua carreira, mixando a isto os mais importantes produtos gráficos relativos à música já realizados pelo artista.

Isto já bastaria para ser uma edição de peso. Mas não pára por aí. A qualidade técnica do álbum (impressão em papel de alta qualidade – especial para facilitar a leitura em qualquer ambiente – e capa dura) já alerta o leitor comum que aquele não é uma edição qualquer, apesar de estar sendo vendido indistintamente em livrarias e bancas de revistas. Como é comum no caso dos álbuns de luxo, o preço é sempre um pouco mais salgado. Mas eu espero conseguir convencer você de que este álbum, mais um exemplo dos novos bons tradutores que aparecem a cada dia no Brasil (ele foi vertido ao português – e mantido coerentemente em inglês em determinados trechos – por Daniel Galera), vale a pena.

Afinal, de contas, o que é que se vai encontrar neste "Blues"? Certamente, lições de história americana. Preconceitos de brancos e negros quanto à velha música de dor, aquela que machuca a busca pela alma atormentada de cada antigo escravo. Também a crítica corrosiva de um autor obsessivo, que faz da retratação das verdades nunca ditas um dos focos de sua obra. Algumas destas verdades estão aqui, por mais que se queira fechar os olhos revisionistas do mundo globalizado e politicamente correto. Sim, pois aqui não existem afro-americanos, mas, sim, negros, negros tão negros que são azuis, azuis como sua música, tristes como sua história.
Também resta espaço para alegria. Afinal de contas, como cronista fiel de sua visão de mundo, Crumb sabe que o maniqueísmo de seu nanquim constrói mundos cheios de tonalidades, pelo qual caminham todos os seus personagens. Pois o mundo não é preto-e-branco como o seu traço ácido. Disso, ele sabe bem.

Mas podemos ver aqui, finalmente, suas cores, justamente nos trabalhos fonográficos já realizados pelo autor. O mais notório, todos sabem, é a capa do clássico "Cheap Thrills", de Janis Joplin. Mas é uma exceção ao resto dos álbuns e pôsters ilustrados por Crumb, que, em geral, pouco ou nada tem da linguagem de quadrinhos que o notabilizam. É a chance rara de ver um ilustrador que retrata a sua paixão musical com sensibilidade e adequação, sem se render a apelos que não venham do coração. Pois Crumb também é um filho do blues.

Filhos assim é que o mantém vivo.

(Publicado originalmente na edição 27, de dezembro de 2004, da revista Semana 3)

Delfin, set/out/nov de 2004

Vampiromaníaco



É uma coisa boa perceber que, no meio da avalanche de títulos publicados para bancas de revista no Brasil, os bons quadrinhos de aventura da editora italiana Bonelli se mantém, em geral, firmes e fortes. Dylan Dog é um fenômeno, bem como o inusitado MágicoVento. Mas eles sempre inventam coisas novas. Mesmo em gêneros que sempre parecem desgastados, como o terror.

Veja a década de 70, por exemplo. Enquanto o mundo vivia um desgaste natural da superexposição de fórmulas macabras americanas, lá vinha um italiano, Dario Argento, e começava a produzir alguns dos mais cultuados filmes de terror já concebidos (tudo embalado pela trilha sonora do Goblin, que deixava as coisas realmente sinistras). Dario (sim, o pai da estrela Asia Argento) fez história e influenciou muito.

Os quadrinhos italianos de terror obviamente mamaram nessa fonte de leite e sangue. Na Bonelli, foi assim com Dylan Dog, de Tiziano Sclavi. Em 1999, uma série semestral muito arriscada pintou nas bancas de lá: Gea, de Luca Enoch – uma Buffy roqueira e muito estranha. Mas os vampiros dominaram mesmo a Itália com o lançamento de Dampyr, que acaba de chegar ao Brasil pela Mythos.

Dampyr é o nome dado, na tradição eslava, ao filho nascido da união entre um vampiro e um humano. Harlan Draka é um deles. E sua história começa no meio de uma guerra esquecida pelos pares europeus, na qual um mundo de mistério bizarro e terror surge, revelando novas frentes para o horror. Dampyr é sucesso em muitos países. Que o seja por aqui também.

(Publicado originalmente na edição 26, de set/out/nov de 2004, da revista Semana 3)

Delfin, jul/ago de 2004

Procura-se: Bebop



A editora JBC lançou, há dois meses, o primeiro mangá semanal no Brasil. Mais uma iniciativa inovadora desta que é, junto com a Conrad, a pioneira neste tipo de quadrinho. As seis edições de Cowboy Bebop, no entanto, não vão deixar saudade: são quadrinhos ruins, previsíveis, que se passam mais ou menos entre os episódios 13 e 14 da aclamada série de tevê da Sunrise. Para os fãs que se acostumaram com as aventuras televisivas (no Brasil, apenas os afortunados assinantes da DirecTV puderam ver, graças ao excelente canal Locomotion), eles sabiam que faltava algo.

Não é preciso muito para descobrir: Cowboy Bebop é uma série frenética, sonora e visual. Um anime que se aproxima do ocidente a partir de seu nome, que é uma clara referência a duas particularidades surgidas na cultura americana. A primeira são os cowboys, nome dado aos caçadores civis de criminosos, prática legal até hoje nos Estados Unidos. A outra é referente ao estilo de música criado nos anos 40 por Charlie Parker, em conjunto com Dizzy Gillespie e Thelonious Monk, que possui um ritmo acelerado, com muitos e complexos movimentos improvisados.

Estes são os fundamentos da ação da série, ambientada em 2071 e centrada no anti-herói Spike Spiegel e em seus companheiros da astronave Bebop: o ex-policial Jet Black, a misteriosa Faye Valentine, a garota andrógina chamada Ed e o cão gênio Ein (nome que pode tanto remeter a Einstein como ao fato do cão ser único – o nome quer dizer ‘um’ em alemão). Mas o que havia de tão inovador assim na proposta de Cowboy Bebop?

Uma coisa muito simples, na verdade: a série tinha a séria pretensão de criar um tipo indefinível de anime, fora de qualquer escala comparativa. E é isto mesmo que ele fez: criando uma pequena novela espacial, com episódios únicos e independentes, apesar do grande pano de fundo por trás, com histórias canônicas, bem ao estilo das séries americanas de drama. Mas, em princípio, a TV Tokyo, retransmissora inicial e parceira da Sunrise no projeto, exibiu poucos episódios que, apesar de empolgarem os primeiros fãs, não convenceram a empreitada a continuar. Um canal via satélite nipônico, no entanto, tratou de transmitir a série com o respeito que ela merecia: graças ao WowWow, o Japão viu toda a jornada de queda de Spike, em sua luta contra o vilão Vicious por conta de seu amor por Julia.

Aliás, esta tríade, bem trabalhada por toda a trama, apenas com toques sutis à medida que os episódios avançavam, eclodiu em momentos especiais, que estão, sem dúvida alguma, entre os melhores momentos da animação mundial nos anos 90. Tudo isso embalado pelos Seatbelts, banda japonesa de jazz formada especialmente para interpretar as canções do anime e que navega pelo ambiente da série com uma destreza ímpar. Sua líder, a vocalista Yoko Kanno, é certamente o gênio por trás das canções arrebatadoras, que fundamentam todos os 26 roteiros da complexa costura urdida pelo roteirista e criador de Cowboy Bebop, Shinichiro Watanabe.

Foi o primeiro anime adulto a ser exibido nos EUA, no Cartoon Network. Aqui, para os mortais, só o mangá. É pouco, muito pouco.

(Publicado originalmente na edição 25, de jul/ago de 2004, da revista Semana 3)

Delfin, junho de 2004

El cucaracha



A história é simples: um dia, Gregor Samsa acorda transformado numa barata. O resto são os conflitos cantados e decantados por muita gente, desde o próprio autor original, Franz Kafka, em seu Die Vwerwandlung (o nome original do livro "A Metamorfose") até os engraçadinhos do infame conjunto musical Inimigos do Rei.

Em que se pese todas as discussões que são geradas por esta história memorável, a Conrad deu mais um tiro certo ao trazer, para os leitores nacionais, a segunda oportunidade de se ler uma aventura dramática narrada pelo grande quadrinista americano Peter Kuper.

Apesar de você não reconhecer de cara o nome, Kuper não é tão desconhecido como se imagina. Basta pegar qualquer exemplar mais recente da revista MAD, especificamente na seção Spy vs Spy, que você encontrará o traço inconfundível dele, que foi escolhido para continuar o trabalho brilhante da página humorística criada pelo cubano anti-castrista Antonio Prohias.

Outro traalho de Kuper publicado no país é a edição especial "O Sistema", que foi produzida pelo autor para o selo Vertigo da DC Comics. O principal ponto narrativo da história é o fato de não se utilizar, em momento algum da história, o recurso dos balões de fala. É uma profusão de ações num cenário mudo pouco usual: a própria cidade de Nova York, ponto de referência da obra do artista. Afinal, é lá que vive, juntamente com sua esposa e filha.

Foi no prestigioso "The New York Times" que Kuper conseguiu quebrar um tabu: sua tira semanal Eye of the Beholder (algo como "O Olho de Quem Vê") foi a primeira a ser publicada no sisudo jornalão. Isso acabou projetando de vez seu nome num mercado competitivo e restritivo nos Estados Unidos: o de quadrinistas que não trabalham com heróis, mas, sim, com visões próprias da realidade e do mundo.

O estilo vigoroso de Peter Kuper, muito mais opressivo quando utilizado no contraste duro do preto e branco, pode ser conferido em seu A Metamorfose, segunda adaptação de Franz Kafka produzida pelo artista. Como eu já disse, a história é conhecida. Mas as sombras criadas por Kuper dão, logo de cara, o tom para quem se acostumou a ver aquela história apenas com as tipologias típicas de um livro.

Aliás, o adaptador também se reinventa, utilizando o recurso da fala, ao qual pouco recorre, de maneira coerente e bem interessante. A letrista da versão nacional não poderia ser outra: Lilian Mitsunaga, a mais conhecida e mais talentosa profissional dessa área que, certamente, é o patinho feio da produção de quadrinhos. Não por isso menos importante, sendo que, nessa obra, isso se faz muito presente, com cada personagem tenho seu tom de fala definido por tipologias bem escolhidas e de acordo com o caráter e a posição de cada personagem na história.

Talvez você, que já conheça bem o trabalho do bom Franz nascido em Praga, não sinta necessidade em sentir o terror ao ler, à baixa luz, esta bela adaptação de quadrinhos. Seria triste: esse livro é uma obra de arte tão bela quanto o seu original.

(Publicado originalmente na edição 24, de junho de 2004, do jornal Semana 3)

Delfin, maio de 2004

Quebra tudo, QQ!



Eu nem consigo mais lembrar quando foi que eu vi uma história do Quebra Queixo pela frente. O que eu lembro é que o traço era bem menos estilizado que hoje em dia. Lembro também que eu curti o personagem justamente porque ele se desvencilhava do estereótipo de herói brasileiro que se impunha desde sempre, tendo um mundo muito mais universal, que pode ser lido em vários lugares sem perder o contexto.

Ainda assim era um quadrinho de autor. Marcelo Campos o criou e o desenvolveu pela década de 80. Foi nos anos 90, no entanto, que o público pôde tomar contato com o QQ e com toda a riqueza de detalhes que o autor inseriu pelas histórias e origens dos vários coadjuvantes que passam pela vida do herói da Força Zero. Isso mudou com o lançamento de "Quebra Queixo: Technorama - Volume 1", que traz histórias-solo de vários personagens secundários do universo de QQ. O grande detalhe é que Campos fez o que a maioria dos autores nacionais não tem peito para fazer: liberar outros desenhistas e roteiristas para desenvolver histórias para suas criações.

Sem dúvida esse desprendimento do ego faz com que o álbum seja apreciado de uma forma completamente nova para os poucos leitores que são fãs confessos desse brutamontes impiedoso. Porque a edição, co-produzida numa parceria entre a Devir e a Quanta Academia de Artes (escola da qual o autor é sócio), revela alguns nomes interessantes para a renovação da HQ nacional. Nas cinco histórias é possível encontrar uma gama de estilos que, além de servir de portfolio para os novos valores, também revela, numa segunda leitura, as possibilidades dramáticas de determinados personagens com este ou com aquele traço.

Compare, por exemplo, os dois estilos de desenho que estão exemplificados nesta coluna. Na ilustração maior, aqui em cima, o traço estilizado pertence ao próprio criador do QQ, Marcelo Campos, que produziu uma HQ inédita e orientou os roteiros de toda a edição. É um traço de ação e aventura, com um toque de comicidade que, por exemplo, seria difícil de ser encaixado em uma história como a do Zédulixo. Esta aventura, de um coadjuvante do mundo do QQ, é desenhada por Rael Lyra, que ilustrou o painel inferior desta página. São estilos completamente diversos, mas que, combinados no inteligente mix do álbum, conseguem conviver e intergair de maneira agradável e funcional. O que apenas mostra que a decisão de Campos abrir sua criação a outros nomes era acertada.

Sinceramente, na espera de que o QQ, um dia, caia nas graças do grande público. Pois é um belo personagem, com histórias boas e pronto pra fazer muito leitor feliz.

(Publicado originalmente na edição 23, de maio de 2004, do jornal Semana 3)

Ricardo Meirelles, ago/set de 2005

Rouba, mas faz crescer



Talvez tenha sido o depoimento do marqueteiro Duda Mendonça, talvez o mal-explicado rolo entre Fábio Luis Lula da Silva e a Telemar, talvez a confissão do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de que houve caixa 2 na campanha presidencial do PT. O fato, o leitor bem sabe, é que com freqüência cada vez maior a palavra impeachment volta ao convívio dos brasileiros.

Não discutirei aqui se há base legal ou política para defenestrar Luiz Inácio Lula da Silva. Por contraditório que pareça, acho que esse é o ponto central, o “busílis da questão”, como dizia Florestan Fernandes, para retomar um saudoso petista. E, em tempos de dinheiro saindo pelo ladrão — pela cueca talvez seja mais preciso —, essa até poderia ser uma seara em que uma coluna intitulada Papel Moeda se sentiria à vontade. O que me tem chamado a atenção, porém, é um argumento que surgiu logo que o impedimento do presidente deixou de ser discutido apenas à boca pequena, um argumento que foge do tal busílis, a meu ver, e que no entanto tem se disseminado rapidamente.

O raciocínio é, basicamente, o seguinte: ok, o governo está fragilizado, mostra dificuldade em aprovar projetos de relevância, há dúvidas tão incômodas quanto pertinentes pairando sobre o presidente, dizer que ele não sabia de nada parece fazer pouco sentido, mas tirá-lo agora do cargo significaria comprometer a imagem do Brasil junto aos investidores — dois impeachments em tão pouco tempo, hum, melhor evitar —, injetaria incerteza na economia e cancelaria de vez o tal espetáculo do crescimento que Lula prometera. O dólar dispararia, a Bolsa de Valores cairia, a inflação poderia voltar a assustar, o desemprego subiria — enfim, seria ruim para todo mundo e ameaçaria uma das poucas áreas em que o governo vai bem, a economia.

O tom pragmático, a preocupação amedrontada com a economia — esse tipo de discurso há pouco facilmente indicaria o campo a que pertence seu emissor. Mas tenho visto e ouvido esse argumento tanto de petistas convictos (claro, até onde essa expressão é aplicável nos dias de hoje) quanto de críticos vorazes do PT. Acho que há vários problemas nesse tipo de raciocínio. Começo pelo menor.

O desempenho da economia brasileira certamente não é vexaminoso. O Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país em determinado período) saltou 5,2% no ano passado e deve ficar entre 3% e 4% este ano, se nada de extraordinário acontecer. O problema é achar que isso é um desempenho glorioso, ou mesmo suficiente. Não é. Vários países em desenvolvimento devem crescer mais do que o Brasil este ano, segundo previsão do Fundo Monetário Internacional: Argentina (6,0%), Chile (6,1%), China (8,5%), Colômbia (4,0%), Indonésia (5,7%), Índia (6,7%), Rússia (6,0%), Tailândia (5,6%), Turquia (5,0%) e Venezuela (4,6%), só para citar alguns. O FMI estima uma expansão de 3,7% para o Brasil, só superior à da Polônia (3,5%). Convenhamos: performance como essa não é algo que possa, por si só, justificar a permanência de um presidente no cargo.

O maior equívoco desse argumento, porém, é que ele repete, em nível macroeconômico, o mesmo princípio rasteiro que originou pelo menos parte importante da crise atual: o de que um fim financeiro legítimo justifica um meio ilegítimo. É legítimo preocupar-se — no sentido literal mesmo, pré-ocupar-se, começar a se ocupar de algo antes que esse algo aconteça — com o futuro da economia brasileira? Não há dúvida de que sim. É legítimo que Duda Mendonça, tendo prestado seus serviços com pirotécnica competência, receba o que lhe é devido? Não há dúvida de que sim. O problema é o passo seguinte. Para preservar sua saúde financeira, o marqueteiro abriu uma conta no exterior e recebeu de caixa 2. Para preservar a saúde financeira do país, quer-se poupar o presidente de investigações mais aprofundadas.

É como se o benefício de investigar indícios de irregularidade não compensasse o custo de ameaçar o crescimento econômico (em nada espetacular, como mostra a comparação com outros países). Parafraseando um slogan que Duda Mendonça não conseguiu tirar de circulação, é o rouba, mas faz crescer.

Certamente há argumentos melhores para defender que Lula termine seu mandato.

(Publicado originalmente na edição 33, de ago/set de 2005, da revista Semana 3)

Ricardo Meirelles, julho de 2005

Vodca e caipirinha



Um colega meu, jornalista, voltou recentemente da Rússia, onde esteve por uns 10 dias, a trabalho. Foi a primeira vez em que pôs os pés no país, após ter morado em Moscou por quatro anos, no início da década de 90. Ficou impressionado com o que presenciou: os sinais de crescimento saltam aos olhos, embora, ressalve, há todo o jeito de ser um desenvolvimento muito mais parecido com o que ocorreu na América do Sul (leia-se: produtor de desigualdade de renda) do que o que se viu na Irlanda ou na Espanha nas últimas décadas.

Um sinal expressivo nesse sentido: há dez anos, o trajeto entre o aeroporto e o centro de Moscou costumava ser feito em 40 minutos, e hoje demora duas horas e meia. Muito parecido com o que se tem visto nas grandes cidades brasileiras: expansão lenta da infra-estrutura, salto nas vendas de alguns bens de consumo (como automóveis) e produção inevitável, nesse caso específico, de trânsito caótico.

Na Rússia, o boom recente é atribuído a dois principais fatores: a disparada dos preços do petróleo nos últimos anos, em 2005 de forma especial, e a moratória da dívida, em agosto de 1998 — um processo que espalhou histeria pelos mercados financeiros e escancarou as fragilidades da economia brasileira: cinco meses e três presidentes do Banco Central depois, o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso desvalorizou o real.

Os estragos no Brasil, porém, foram fichinha perto do que ocorreu com a Rússia naquele ano: o Produto Interno Bruto (PIB, que mede a soma dos bens e serviços produzidos no país em determinado período) despencou 5,3%, algo que nunca ocorreu por aqui. Em 1998, a economia brasileira ficou praticamente estacionada (crescimento de 0,13%). Nos demos bem, portanto?

Não é bem assim. Peço licença ao leitor para disparar mais uma saraivada de números. No fatídico (para os russos) ano de 1998, um Brasil valia quase três Rússias — nosso PIB era de US$ 788 bilhões e o deles, US$ 271 bilhões. Desde então, a Rússia vem galopando 6,8% ao ano, em média. Resultado: no ano passado, a produção de bens e serviços nos dois países foi parecida: um Brasil valia 1,13 Rússia (o PIB brasileiro somou US$ 605 bilhões e o russo, US$ 535 bilhões).

Bom, isso foi o que ocorreu na “economia real” — essa expressão em si, comum no economês, não tem muita graça, admito, mas gosto dela porque traz implícito que seu oposto (o mercado financeiro) forma a economia “irreal”, o que faz todo sentido. No mundo das finanças, no mundo dos investidores, a diferença entre o que ocorreu aqui e na Rússia foi maior ainda (com vantagem folgada para eles).

Lancemos mão de um termômetro que freqüentava manchetes dos jornais às vésperas da eleição de Lula, mas que agora tem ficado engavetado nas páginas dos cadernos de economia: o risco-país. Trata-se do Índice de Títulos dos Mercados Emergentes (Emerging Markets Bond Index, o Embi+), elaborado pelo banco norte-americano JP Morgan Chase. Ele mede, em pontos, a diferença entre os juros pagos por títulos da dívida de países emergentes e os juros pagos pelos títulos do Tesouro dos EUA, considerados padrão de segurança.

Em tese, ele indica a capacidade, segundo a percepção dos investidores, de um país conseguir pagar suas dívidas em dia. Na prática, como diz em feliz definição o jornalista Clóvis Rossi, “o risco-país é, no fundo, um habeas corpus preventivo que os investidores adotam, em seu próprio benefício, para a hipótese de calote. Ou seja, cobram caro, preventivamente, com o que, se calote houver, já terão garantido todo o retorno necessário. Se não houver, melhor. Continuam faturando à tripa forra”.

Pois bem, apesar de ainda carregar a moratória na memória (com o perdão da rima), a Rússia tem um risco-país menor que o do Brasil. O índice brasileiro tem girado em torno de 400 pontos (ou seja, para comprarem os títulos da dívida brasileira os investidores exigem um juro 4 pontos percentuais maior que o do Tesouro norte-americano); já o risco russo é pouco menor que 150 pontos.

Essa historinha, parece-me, ensina pelo menos duas coisas. Uma, ter enormes reservas de petróleo ajuda muito. Outra, dar calote da dívida pode não ser o terror que tanto se apregoa.

(Publicado originalmente na edição 32, de julho de 2005, da revista Semana 3)

Ricardo Meirelles, junho de 2005

Microcrédito



É consensual (até onde essa palavra pode ser usada em política e economia) que uma das principais inovações do atual governo, na área econômica, seja a introdução ou a intensificação de mecanismos de estímulo ao crédito. Antes que o leitor vá logo torcendo o nariz e virando a página diante de assunto enfadonho, adianto: o tema expõe uma das principais características do sistema financeiro brasileiro — sua resistência aos clientes de baixa renda — e esconde uma bomba-relógio que, se não desarmada com cuidado, poderá fazer estragos à imagem do presidente Lula, o que pode ser ruim, ou ao bolso de muitos brasileiros, o que é pior.

Comecemos pela profusão de novas linhas de microcrédito, tipo de empréstimo de pequenas quantias, com menos garantias e sob condições menos rigorosas que as geralmente impostas a quem toma dinheiro no banco. O governo já lançou esse tipo de financiamento para pequenos agricultores, empregados libertados de regimes de trabalho forçado (eufemismo às favas: escravidão) e microempresários.

Houve também estímulo para que os bancos concedessem empréstimos mais baratos a pessoas pobres. O resultado foi pífio. As instituições financeiras preferiram deixar seu dinheiro (em economês: parte do depósito compulsório à vista) no Banco Central a emprestá-lo a clientes teoricamente de risco (e o “teoricamente” aí não se refere à teoria econômica, às pesquisas na área, que de resto mostram que os clientes de baixa renda pagam suas dívidas com pontualidade britânica; é um eufemismo, mais um, para preconceito mesmo).

O economista Paul Singer, professor da USP e atualmente secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, costuma dizer que o sistema financeiro — não só no Brasil, frise-se — é “blindado contra pobres”: do gerente ao segurança, são raros os casos em que alguém permite que um pé descalço entre, que dirá seja atendido, em uma agência.

Não por acaso, em um de seus mais ambicio¬sos programas na área o governo criou um intermediário para lidar direto com esse público: organizações não-governamentais é que vão tratar de emprestar (a bem da verdade: repassar) recursos a pequenos empresários. Ou seja, tirando os bancos da jogada, ou pelo menos do confronto direto no campo, a expectativa é de a coisa agora vai.

Mais dispostos os bancos têm se mostrado em relação a outra modalidade nova de crédito: o crédito consignado, aquele descontado diretamente na folha de pagamento, no que nós paulistas costumamos chamar de holetire. Esse é o tipo de empréstimo à pessoa física (horrível essa expressão, não?) que mais cresce no Brasil hoje em dia.

Peço licença e paciência ao leitor para desfilar uma fornada recente de números sobre o assunto. Segundo pesquisa do Banco Central com 13 bancos que atuam no setor, em abril os empréstimos com desconto em folha somavam R$ 16,549 bilhões — 31,2% a mais que em abril de 2004. Esse tipo de financiamento representava 31,6% do total de crédito pessoal concedido pelas instituições financeiras; no começo do ano passado ultrapassava um pouco a casa dos 20%.

Esse crescimento acelerado tem um segredo simples: as taxas de juros são muito mais baixas nos empréstimos com desconto em folha. Em abril, a taxa era de 36,5% ao ano — contra 75%, em média, cobrados nas operações de crédito pessoal. Como os bancos vêm menor risco de levar calote, aceitam oferecer juro menor.

Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas só enquanto a economia está crescendo. Quando e se o país entrar em marcha lenta (e isso está longe de ser improvável já nos próximos trimestres), o desemprego em alta vai gerar um problema de difícil solução: quem tomou dinheiro nos meses de festa terá que arcar com a dívida na hora da ressaca, sem emprego e sem saída.

Trabalhadores e bancos, ao que parece, já perceberam a ameaça. Não por acaso, mais da metade desses empréstimos vão para pessoas que não podem ser demitidas: funcionários públicos e aposentados e pensionistas do INSS. Mais ainda aí resta um problema.

Funcionários públicos e aposentado estão entre as categorias que menos recebem reajustes. O empréstimo que hoje abocanha um quarto da renda terá peso significativamente maior daqui a um, dois anos. Se as coisas continuarem como estão, o estrago não será pequeno.

(Publicado originalmente na edição 31, de junho de 2005, da revista Semana 3)

Ricardo Meirelles, maio de 2005

Discursos e reformas



Saiu do forno a versão mais recente do relatório “Perspectivas para a Economia Mundial”, publicado duas vezes ao ano, em abril e setembro, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Vale a pena perder algum tempo folheando o documento — ou navegando por ele, pois está disponível na internet (http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2005/01/index.htm). Não só pelo argumento de autoridade implícito em qualquer murmúrio produzido pela equipe do Fundo, mas também porque apresenta, a preço de banana, o texto que será reescrito por alguns bancos privados e oferecido nos próximos meses, a preço de caviar.

Como sói acontecer nesse tipo de estudo, o Fundo dá uma no cravo e outra na ferradura. Faz lá seus elogios ao Brasil, mas adverte que o país deve “implementar sua agenda de reformas”. No texto, há menção às reformas tributária e da Previdência; em entrevista em Washington, o chefão do FMI, o espanhol Rodrigo Rato, falou sobre a necessidade de reforma orçamentária e trabalhista. Basta folhear os jornais por alguns dias que ampliaremos a lista: reforma política, reforma sindical, reforma na lei de falências e na atuação do Banco Central, reforma administrativa, reforma agrária e reforma universitária.

Também no conjunto de entrevistas para divulgar o relatório, o economista-chefe do Fundo, o indiano Raghuran Rajan, relacionou as reformas a algo que hoje faz brilhar os olhos de qualquer brasileiro: a possibilidade de o país ter juros civilizados. “As reformas estruturais devem ser feitas para reduzir as taxas de juros”.

Curioso esse apelo das “reformas”. Repare o leitor que parte da lista se renova de tempos em tempos (reforma universitária, por exemplo, é relativamente recente; reforma administrativa já aparece mais raramente do que no começo do governo Fernando Henrique Cardoso), parte se repete em discursos ao longo do tempo (como reforma agrária, presente já nas Reformas — olha a palavrinha aí de novo — de Base de João Goulart).

Certamente, a permanência dessas expressões em governos tão distintos (bom, talvez não tão distintos assim) reflete a percepção de que muita coisa vai mal e precisa ser alterada. Difícil discordar, por exemplo, de que algumas leis trabalhistas perderam sentido hoje em dia, ou de que a carga excessiva de impostos precisa mesmo ser revista.

No entanto, quer porque não se concretizam, quer porque não se concretizam do modo esperado, quer porque não fazem mesmo diferença alguma, as reformas — tal como evocadas nos últimos anos — deixaram de ser apenas propostas de mudanças em determinadas áreas do país. Transformaram-se em ladainha para forjar esperanças.

Sim, as “reformas” talvez tenham uma função, digamos, psicossocial. Estipula-se, preferencialmente com palavras de sentido difuso, uma meta a ser alcançada (“desenvolvimento sustentável” tem sido a mais comum, como comentei na coluna da edição passada de Semana 3). Frente a essa meta, o discurso das “reformas” acena com passos supostamente concretos, como a indicar que existe um caminho claro, não-disputado, incontroverso, e que para segui-lo basta cumprir determinadas etapas, uma espécie de via-sacra que, ainda que envolva sofrimento, nos garanta um lugar no mundo desenvolvido.

Na prática, não é o que ocorre. As reformas não são incontroversas, muito ao contrário — basta ver a tributária, que se arrasta há anos, ou a trabalhista, que é suficientemente sensível a ponto de governo algum até agora ter tido coragem de tocá-la adiante.

As reformas também não são maravilha curativa, não são milagres. Tome-se o caso da reforma administrativa que envolveu privatizações e concessões; alguns serviços de fato melhoraram, outros decepcionaram (a concessão das ferrovias talvez seja o exemplo mais flagrante). A solução de alguns problemas resultou em novos problemas (para citar um exemplo, digamos, exemplar: rodovias com menos buracos, mas com pedágios mais caros).

Curioso, por fim, que em momento algum a lista de reformas faça menção explícita à carga insustentável da dívida brasileira. Bom, mas esse já é assunto para outra coluna.

(Publicado originalmente na edição 30, de maio de 2005, da revista Semana 3)

Ricardo Meirelles, mar/abr de 2005

Expressão da moda



“Quando o poeta diz lata”, nos ensina o hoje ministro da Cultura Gilberto Gil na bela letra de “Metáfora”, “pode estar querendo dizer o incontível”. Quando alguém diz desenvolvimento sustentável, nos ensina a leitura do noticiário, pode estar querendo dizer... qualquer coisa. Licença poética pra quê, se as folhas dos jornais garantem ampla, irrestrita divulgação de qualquer figura de linguagem, qualquer catacrese, principalmente se produzida por economistas?

Talvez a única exigência seja usar desenvolvimento sustentável como indicativo de coisa boa. No discurso da equipe econômica, Antonio Palocci e Henrique Meirelles à frente, a expressão parece ter se transformado numa maravilha curativa capaz de explicar ou justificar quaisquer medidas impopulares, freqüentemente incongruentes. Os juros estão na Lua? Ora, mas isso é fundamental na busca por um desenvolvimento sustentável. Baixar os juros? Também. Reformar a Reforma da Previdência? Sim, isso é parte essencial de uma trajetória rumo ao desenvolvimento sustentado.
Essa tem sido a alternativa preferida à expressão “país do futuro” — desgastada, datada, com ranço de ditadura militar. Desenvolvimento sustentável a substitui com vantagens: entrou na moda há menos tempo e não inclui “futuro”, palavrinha que na economia brasileira teima em se associar a “inalcançável“. É como se ela tivesse o dom de tornar “país” mais próximo de “do futuro” — mas numa proximidade lenta, turva, que não tem sequer compromisso de virar encontro.

Certamente desenvolvimento sustentável não quer dizer, nos lábios de economistas ou indústrias, o mesmo que significa quando pronunciada, por exemplo, pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Às vezes aponta para sentidos apenas diferentes. Às vezes para sentidos opostos — Antonio Ermírio de Moraes, presidente do Conselho de Administração do Grupo Votorantim, enche a boca ao falar da contribuição de novas usinas hidrelétricas ao desenvolvimento sustentável do país, as mesmas usinas que o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) embarga por temer danos ao desenvolvimento sustentável brasileiro.

Em geral, quando os ambientalistas dizem desenvolvimento sustentável se referem ao conceito elaborado pela Comissão Brundtland, das Nações Unidas, nos anos 80: um tipo de desenvolvimento que não afeta as bases do próprio desenvolvimento, que não prejudica nem a geração atual nem as gerações futuras. Entre os pontos centrais estão uso não-predatório dos recursos naturais e combate à miséria.

Para os economistas, é algo um tanto diverso. Refere-se à capacidade de um país crescer por longo prazo sem criar pressões de demanda (em linguagem corintiana: consumo excessivo) que possam desencadear alta persistente nos preços (inflação). Sob esse ponto de vista, o espantoso crescimento econômico da China na última década pode ser visto como desenvolvimento sustentável — agora, pergunte a um ecologista se ele acha que haverá uma árvore sustentada em pé se o atual padrão chinês de expansão durar muito mais tempo.

Um dos poucos economistas que merecem o status de pensador, Celso Furtado (1920-2004) argumentaria que o buraco é ainda mais embaixo. Num belo livro chamado “O Mito do Desenvolvimento Econômico” (publicado em 1974, quando o Brasil crescia o tanto que hoje cresce a China), ele aponta que o problema é o modelo de desenvolvimento baseado na desigualdade e na introdução contínua de novos produtos, em substituição aos que passam a ser considerados “ultrapassados” (e olha que naquela época não existiam celulares nem softwares da Microsoft).

“O custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco a sobrevivência da espécie humana”, escreve Furtado. Assim, conclui, “o desenvolvimento econômico — a idéia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos — é simplesmente irrealizável”.

“Quando o poeta diz meta”, nos ensina o hoje ministro da Cultura Gilberto Gil na bela letra de “Metáfora”, “pode querer estar dizendo o inatingível”. Para nossa felicidade, seria bom que economistas não produzissem metáforas com a mesma profusão que os poetas.

(Publicado originalmente na edição 29, de mar/abr de 2005, da revista Semana 3)

Ricardo Meirelles, fevereiro de 2005

Onda de hipocrisia



Insiste em não ser comovente a triste gincana (quem dá mais? quem dá mais?) em que se transformaram as promessas dos países ricos de ajudar as vítimas do maremoto que, em 26 de dezembro, varreu o Sudeste Asiático e a costa leste da África, matando mais de 150 mil pessoas.

As últimas cifras que vi indicavam que os doadores haviam se comprometido a liberar US$ 3 bilhões aos países atingidos pelos tsunamis. A Austrália liderava (US$ 756 milhões), embora George Walker Bush, que inicialmente avaliara que US$ 35 milhões eram mais do que suficiente, tenha falado mais recentemente em conceder US$ 950 milhões dos cofres do governo norte-americano. O leitor confia?

A verdade é que o retrospecto não ajuda. Com desanimadora freqüência, as promessas feitas no calor do noticiário são esquecidas pouco depois que se enterram os mortos e que a imprensa substitui a cobertura diária dessas catástrofes humanitária por notas esparsas e microscópicas.
Para sintetizar em um caso recente e emblemático: exatamente um ano antes dos tsunamis, em 26 de dezembro de 2003, um terremoto abalou a cidade história de Bam, no Irã, e matou 26 mil pessoas; a benevolência internacional ofereceu, na ocasião, US$ 1 bilhão em ajuda humanitária. Passados 12 meses, o governo iraniano havia recebido exíguos US$ 120 milhões.

Mas não é só nas tragédias de épico desespero que a boca dos governantes dos países ricos parece ser desproporcionalmente maior que o bolso. Em 2000, durante a Cúpula do Milênio (a maior reunião de líderes mundiais da história), os países da ONU se comprometeram a alcançar uma série de metas socioeconômicas para melhorar as condições de vida até 2015. Agrupadas, essas metas deram origem aos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que englobam áreas como pobreza, educação, saúde, meio ambiente e gênero.

Desses oito objetivos, apenas um se refere aos países desenvolvidos. Ele prevê, por exemplo, que as nações industrializadas aumentem até 2015 a ajuda humanitária para o equivalente a 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) — uma meta hoje só cumprida por cinco países: Noruega (1%), Luxemburgo (1%), Suécia (0,87%), Dinamarca (0,83%) e Holanda (0,80%); na lanterna repousam os Estados Unidos (0,17%).

Um estudo divulgado em janeiro pela ONU, o Projeto do Milênio, dirigido pelo economista Jeffrey Sachs, contabiliza outro ponto: quanto os países ricos precisam doar para ajudar os países pobres a cumprirem os outros sete Objetivos do Milênio (como reduzir a pobreza pela metade até 2015). Em 2002, observa o relatório, foram destinados US$ 65 milhões em ajuda humanitária aos países em desenvolvimento; para os Objetivos serem atingidos, seria necessário dobrar esse volume em 2006 (US$ 135 bilhões) e triplicá-lo em 2015 (US$ 195 bilhões).

Esses números todos e esse amontoado de “ões” podem turvar um pouco a dimensão do problema e dar a impressão de que cifras como essas são inatingíveis. Ledo engano. O próprio relatório traz uma comparação didática nesse sentido: “a exigência de dobrar a ajuda oficial ao desenvolvimento para US$ 135 bilhões em 2006, aumentando para US$ 195 bilhões em 2015, não é tão significativa quando comparada à riqueza dos países de alta renda — e ao orçamento militar mundial de US$ 900 bilhões por ano”. Sim, você leu direito: os países em desenvolvimento precisam de US$ 195 bilhões para erradicar a miséria e a fome, universalizar o ensino primário e realizar outras melhorias sociais. E os gastos militares no mundo são quatro vezes maiores que isso: US$ 900 bilhões.

Os países ricos torcem o nariz para esses dados e argumentam que financiar mercados emergentes não é como dar dinheiro ao ceguinho da esquina: corre-se o risco de que as verdinhas se engolfem por meandros podres e caiam nas mãos de políticos corruptos em países com parca tradição de transparência. Há algo de verdade nisso, mas o argumento omite que a corrupção é freqüentemente alimentada pelo próprio jogo de forças internacionais e esquece que há, mesmo nos países com farto histórico de corrupção, organizações não-governamentais que trabalham seriamente.

(Publicado originalmente na edição 28, de fevereiro de 2005, da revista Semana 3)

Ricardo Meirelles, dezembro de 2004

Temporada de chutes



Já está aberta, caro leitor, a temporada de previsões. Se final de ano é sinônimo de correria no comércio, decorações espalhafatosas nos shoppings, 13º salário na conta corrente, novena nas igrejas e pinheiros à venda nas ruas, no mercado financeiro pipocam relatórios parrudos com projeções para os mais diversos indicadores: crescimento econômico, inflação, juros, dólar etc. e muitos outros etc.

Reconheça-se que previsões econômicas não são exclusividade do período pré-Natal — nem a decoração espalhafatosa dos shoppings, aliás. Mas este é o período por excelência em que o calendário gregoriano fornece especial inspiração para que os economistas se debrucem sobre suas tabelas à procura de pistas sobre o que poderá ocorrer “no ano que se avizinha”, como diziam os oradores de antigamente.

Em princípio, não há nada de mais nisso. Conforme vai ficando mais próximo o adeus ao ano velho e a chegada do feliz ano novo, as pessoas normais fazem projetos, os economistas fazem projeções. O problema é as previsões econômicas serem tratadas como se não fossem o que de fato são: uma indicação que reflete mais o que ocorre no presente do que o que ocorrerá no futuro. Li tempos atrás, na coluna do professor da Unicamp Jorge Coli, na "Folha de S. Paulo", uma interessante observação sobre quadros falsos: uma pintura fajuta dificilmente consegue enganar os especialistas por mais de 20 ou 30 anos, pois o falsário imita não o estilo do pintor original, mas o estilo do pintor original tal como ele é visto em determinada época. “A leitura de uma obra é feita sempre com os olhos de agora, e o falsário não escapa disso”, escreve Coli. Em economia é a mesma coisa: freqüentemente as previsões para o futuro são apenas a cópia adaptada dos indicadores do presente.

O Banco Central divulga, semanalmente, uma compilação da média (mediana, na verdade) das previsões de cerca de cem bancos, corretoras e instituições financeiras — o chamado Relatório Focus. Em 3 de janeiro de 2003, o tal relatório mostrava as apostas dos economistas para o ano recém-iniciado. Comparando-as com o que de fato ocorreu ao longo dos 12 meses seguintes, constata-se: todas as previsões eram furadas, às vezes grosseiramente furadas.

Vamos aos números (note o leitor que as previsões incluem duas casas depois da vírgula...). Em 3 de janeiro do ano passado, o mercado esperava inflação alta para 2003. A expectativa média era de que o IGP-DI, um índice que mede principalmente a variação dos preços no atacado, aumentasse 14,50% ao longo do ano. A alta, na realidade, foi de 7,66%. Para o IPCA, que mede a variação do custo de vida do consumidor, a aposta era de que houvesse salto de 11,00%. O que ocorreu foi um avanço de 9,30%. Para o Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos em determinado período), esperava-se em 3 de janeiro um crescimento de 1,93%; mas o que ocorreu mesmo em 2003 foi um encolhimento de 0,20% na economia brasileira. Na balança comercial, as instituições financeiras previam que as exportações superariam as importações em US$ 15,50 bilhões; erraram por quase US$ 10 bilhões: o saldo no ano passado foi de US$ 24,80 bilhões. Só mais dois exemplos. A aposta era de que o dólar terminasse o ano cotado a R$ 3,70; fechou em R$ 2,88. Para as transações correntes (saldo das relações comerciais e financeiras entre o país e o exterior), as projeções eram de déficit equivalente a 5,90% do PIB; o que houve, porém, foi um superávit de 4,10%.

A mira ruim é exclusividade de economista tupiniquim? Claro que não. Um relatório divulgado em junho do ano passado pelo Escritório Geral de Contabilidade (GAO, na sigla em inglês), um braço do Congresso dos EUA, mostrou que, das 134 recessões que ocorreram nos mercados emergentes entre 1991 e 2001, o Fundo Monetário Internacional (FMI) só previu 15 (ou seja, 11%).

Não se trata, é claro, de desprezar os avanços na estatística e na econometria. Antes delas, futuro era apenas coisa do acaso ou dos deuses. O problema, como sintetiza o professor Fernando Costa, da Unicamp, em um resenha do livro Desafio aos deuses: a fascinante história do risco, é que os economistas “parecem ter se tornado escravos de uma nova religião, um credo tão arbitrário como qualquer outro: rezar por um modelo matemático que parece explicar tudo. Porém, o poder das emoções humanas destrói, rapidamente, esse modelo”.

(Publicado originalmente na edição 27, de dezembro de 2004, da revista Semana 3)

Ricardo Meirelles, set/out/nov de 2004

O biquíni e a inflação



Dias desses recebi por e-mail uma daquelas listas de frases curtas e “perspicazes”. Duas tratavam de estatísticas; uma delas clássica: “Estatístico é aquele que, se está com a cabeça em um forno e os pés no congelador, ainda diz que na média está tudo bem”. A outra é atribuída a Aaron Levenstein, a quem minha ignorância desconhece: “Estatísticas são como biquínis: o que revelam é sugestivo, mas o que escondem é essencial”.

Essa me fez lembrar de uma aula de matemática que tive no ginásio. A professora pediu para que cada um dissesse sua altura e peso. Todos informaram as medidas; depois somamos e dividimos pelo número de alunos da classe. Pronto: tínhamos a altura e o peso médio dos estudantes. O regozijo só não foi maior porque logo nos demos conta de que ninguém na classe tinha aquelas medidas. Moral da história: o “aluno médio” não existia.

A comparação com o biquíni e a história do “aluno médio” deveria abrir como pop-up toda vez que abríssemos as páginas de economia dos jornais. Assim como o maiô de duas peças, os indicadores revelam coisas muito importantes, mas escondem porções essenciais da economia.

Os índices de inflação, por exemplo — que voltaram à moda desde que o barril de petróleo começou sua escalada no mercado internacional e desde que o Banco Central começou a achar que o espetáculo do crescimento brasileiro está tão exuberante que merece um intervalo providencial. Pois bem: a atuação do BC, leva em consideração esses índices de inflação publicados nos jornais, com conseqüência mesmo para quem mora em Barão Geraldo.

Agora peço licença ao leitor para despejar a sopa de letrinhas mais comum sobre inflação.

Uma delas é o Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna, o IGP-DI, calculado pela Fundação Getúlio Vargas. Ele leva em conta os preços no atacado (que têm peso de 60% na composição do índice), os preços ao consumidor nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro (peso de 30%) e os custos de construção civil (peso de 10%). É muito usado para corrigir tarifas (como a de energia elétrica, por exemplo) e aluguéis (se você é inquilino, é provável que o índice escolhido para reajuste seja o IGP-DI ou algum parente dele, como o Índice Geral de Preços ao Mercado, IGP-M).

Outro índice acompanhado de perto é o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), ligada à USP, que mede a variação do custo de vida de famílias paulistanas que ganham de 1 a 20 salários mínimos.

Também é figura carimbada nessa área o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); ele reflete o custo de vida de famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos em nove regiões metropolitanas (Curitiba, Rio de Janeiro, Belém, Fortaleza, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Salvador), além de Goiânia e Brasília. O IPCA é o índice usado como parâmetro no sistema de metas de inflação, criado em 1999 pela equipe de Armínio Fraga e mantido, como tudo o mais, pela equipe de Henrique Meirelles.

Pois bem. Quando o BC destrincha o IPCA, ele não está se debruçando sobre preços cobrados em Campinas; no entanto, se o mesmo BC eleva os juros, vá o leitor nos dias seguintes tomar dinheiro emprestado numa agência bancária...

Os índices de inflação publicados nos jornais podem até revelar algo sugestivo: uma tendência semelhante à do dia-a-dia de cada pessoa. Mas não é nos jornais que você encontra o essencial sobre a variação de seu próprio custo de vida — é no seu extrato bancário.

(Publicado originalmente na edição 26, de set/out/nov de 2004, da revista Semana 3)

Ricardo Meirelles, agosto de 2004

Quando o pajé desconfia



Os relatórios de consultorias e bancos de investimento, os papers das corretoras, os documentos do Banco Central ou do Ministério da Fazenda exalam, freqüentemente, uma arrogância que tem muito a ver com um tipo de imagem que pretendem passar: a de equilíbrio, sobriedade. Essa postura costuma produzir discursos de tom insípido e pode ser resumida por uma expressão muito cultivada no métier, mas que não quer dizer quase nada: “racionalidade econômica”.

A bem da verdade, as decisões nessa área por vezes assemelham-se mais a apostas intuitivas, palpites presunçosos, jogo de búzios, elixir de curandeiro. Que o diga o irrequieto ziguezague das Bolsas de Valores e das taxas de câmbio, es-tampado quase todos os dias nas páginas dos jornais. Que o diga, também, a desmesurada beatice com que alguns economistas se apegam às recomendações de manuais produzidos nos países ricos. Comparar suas determinações às maravilhas-curativas de druidas e pajés é ser desprestigioso a druidas e pajés — como nos demonstra o impagável “O Elixir do Pajé”, poema mundano de Bernardo Guimarães publicado em 1888, antecipando em mais de um século os poderes do Viagra.

No entanto, vez ou outra os próprios pajés do mundo moderno mostram desconfiança sobre o remédio que tantas vezes recomendaram. É o que acontece, por exemplo, em um relatório recém-divulgado pelo Banco Mundial, intitulado “Reformar a infra-estrutura: privatização, regulação e concorrência”. Nele, há trechos que anos atrás talvez só pudessem ser atribuídos ao Instituto de Economia da Unicamp — um bunker de extrema-esquerda se comparado ao Banco Mundial — ou a assessores da bancada parlamentar do PT (pré-governo Lula, claro).

Rememora-nos o insuspeito World Bank: “Durante boa parte dos anos 90, a privatização era proclamada o elixir que transformaria as enfermas e letárgicas empresas estatais em fontes de produtividade criativa e dinamismo a serviço do interesse público”. Os governos dos países em desenvolvimento prometiam que a transferência do patrimônio para a iniciativa privada iria finalmente acelerar a expansão econômica. Instituições financeiras e organismos multilaterais (incluindo o Banco Mundial, mas isso não está explícito no relatório) colocaram-se samaritanamente à disposição para levar o processo à frente. “Os meios de comunicação globais, de forma quase uníssona, louvaram esse avanço na elaboração de políticas”, diz o estudo.

E assim se passaram muitos anos... Hoje, a maioria da população dos países latino-americanos desaprova a privatização – o Brasil, onde pouco mais de 60% reprova a atuação das empresas privadas, é o mais condescendente entre os sete países pesquisados pelo instituto Latinobarometro (a Argentina, onde a desaprovação encosta nos 90%, é a mais crítica ao processo). Constata o World Bank: “Como todo elixir econômico, a privatização foi supersimplificada, superestimada e, no final das contas, frustrante — cumprindo menos do que foi prometido”. Há um box especialmente pedagógico no relatório, intitulado “Geração de energia no Brasil mostra que a privatização não é sempre a melhor saída”.

Sim, desconfiado leitor, trata-se do mesmo Banco Mundial que na década de 90 promovia a privatização com insistência de fazer inveja a vendedor de enciclopédia (ok, a internet envelheceu essa metáfora; digamos então “de fazer inveja a esses que nos ligam um dia sim outro também para estar nos empurrando a última novidade em cartão de crédito”).

E por que a grande imprensa brasileira não deu uma linha sobre o relatório? Para isso leiam, na edição passada e nesta, o artigo de meu colega de coluna na Semana 3, Wagner Geribello.

PS: A propósito, o relatório, em inglês, está disponível na internet: http://econ.worldbank.org/prr/reforming_infrastructure/.

(Publicado originalmente na edição 25, de agosto de 2004, da revista Semana 3)

Ricardo Meirelles, junho de 2004

A metáfora da dona de casa



Muito se tem falado sobre a profusa quantidade de metáforas produzidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seus discursos. Os jornais, as revistas, os comentaristas de rádio, os humoristas, todos eles se debruçam vez ou outra sobre o assunto. O pessoal do Casseta & Planeta também tira uma casquinha sempre que pode; a última deles, pelo que me lembro, era que Lula voltou da China com a idéia de que conhecera um promissor mercado comprador de metáforas.

Hoje, na estréia desta coluna, não vou me ater à figura de linguagem presidencial - que, aliás, nem sei se metáfora é: numa rápida conversa que tive sobre o assunto com o lingüista Sírio Possenti, aqui de Barão Geraldo, ele ponderava que o que Lula faz tem cara mesmo é de parábola. Não vou me ater, tampouco, a metáforas exportáveis. Ficarei com uma que importamos há alguns anos e que encontrou mercado farto em certas colunas econômicas, em bancos e corretoras e, especialmente, no Ministério da Fazenda: a metáfora da dona de casa.

Pedro Malan e seus comparsas usavam-na com freqüência; Antonio Palocci, ao comprar o kit completo de seu antecessor, trouxe junto esse hábito. O leitor já a ouviu e sabe que ela aparece quase sempre no seguinte contexto: o governo deve fazer, com suas contas, o que faz a dona de casa - gastar só o que a família ganha. É uma maneira de dizer que o setor público não pode gastar mais do que arrecada e que deve economizar dinheiro para pagar suas dívidas (ou seja, registrar o que em economês se chama de superávit primário).

A metáfora é ruim, por vários motivos. Um deles: não encontra respaldo na realidade dos brasileiros, como mostrou recentemente a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF, para os íntimos), uma espécie de raio-x feito periodicamente pelo IBGE sobre os gastos das famílias do país. Está claro lá: a maioria dos brasileiros tem dificuldade em pagar todas suas despesas. Em números: o IBGE dividiu as famílias em dez faixas, de acordo com o rendimento mensal; só nas faixas que agrupam famílias com renda superior a R$ 3 mil por mês (14,67% das famílias brasileiras) gasta-se menos do que se recebe. Ou, como resumiu uma feliz manchete do "Jornal do Brasil": "Sobra mês no fim do salário".

Outro motivo: não encontra respaldo na realidade financeira. Uma dona de casa endividada não pode decidir sobre as taxas de juros que corrigem seus débitos, o Estado pode (R$ 426 bilhões da dívida pública brasileira, ou 46% do total, é indexada pela Selic, aquela taxa que o Banco Central estipula mensalmente). Pode-se argumentar que, na prática, o BC sofre limitações de diversos tipos, o que é verdade, mas limitação não quer dizer impossibilidade. Além disso, a dona de casa não dispõe de uma Casa da Moeda, não emite dinheiro para comprar verduras na feira, pagar o pão na padaria ou arcar com a passagem de ônibus - ao contrário do Estado (claro que também aí há limitações, mas, repito, limitação não quer dizer impossibilidade).

É pena, de qualquer modo, que os economistas não levem a metáfora um pouco mais adiante. Eles lançam mão dela para argumentar que é preciso economizar dinheiro a fim de pagar dívidas. Mas o que faria uma dona de casa se lhe sobrasse uns trocados no final do mês: compraria o remédio para o filho que tem sérios problemas de saúde ou pagaria a dívida no banco? O mínimo que se pode dizer é que a escolha não é tão óbvia como tem sugerido o discurso e a prática do Ministério da Fazenda, que deixa o país adoecer enquanto garante a poucos uma polpuda terapia.

(Publicado originalmente na edição 24, de junho de 2004, do jornal Semana 3)

Wagner Geribello, março de 2006

Interrupção

Termina nesta edição a aventura midiática de Semana 3 e, por causa, termina também a troca de figurinhas sobre mídia e adjacências que esta coluna procurou manter com os leitores desde meados de 2004, se não erram meus neurônios nem incorrem em engano meus desorganizados arquivos.

Foi bom! Durante esse período, mês sim, outro também, obrigava-me isolar um tema da/na mídia para tratar com os parceiros leitores, assim como fazem citologistas quando isolam determinada célula para pesquisa, do que pode resultar entendimento um pouco melhor do tecido. Conversar criticamente nunca é demais, nem debalde. Do diálogo vem debate e do debate costuma vir luz que permite enxergar melhor e, portanto, posicionar-se.

O lado ruim do processo é que as análises críticas aqui desenvolvidas, no mais das vezes, apontaram para horizontes pouco promissores e situações nada estimulantes no que respeita às relações mídia/sociedade. De um lado, a mídia insistindo em sobreviver exclusivamente como produto de/no mercado. De outro, amplas fatias da sociedade persistindo no afastamento gradual e inexorável da busca razoável de conhecimento e informação de interesse público, pra dedicar-se ao consumo constante e crescente de querelas e superficialidades. Assim, quando o repasto não é servido e o conviva não demonstra apetite, o banquete não acontece e os platonistas perdem a oportunidade do debate. À situação de jejum intelectual sobrevem o fato marcado pela esterilidade saarina da modernidade (ou pós-modernidade como querem alguns), dominada pelo supérfluo, avessa e aversa à exercitação do intelecto. Sobra esse mundeco midiático frívolo, envolvido “in toto” com a praga devastadora do consumismo liberal globalizado.

Escrevendo este derradeiro artigo no imediato pós-carnaval, perco-me na tentativa de localizar exatamente quando o carnaval começa e se exatamente termina, de vez que o clima alegórico, descompromissado, irreverente e irresponsável vem de antes e depois continua na mesma, emprestando curioso e deplorável perfil carnavalesco permanente à sociedade... medra a fantasia, abunda a alegoria, mas falta o saudável realismo da razão ou, pelo menos, do razoável.

Vai daí, farta-se o jornalismo de moda, personalismos, novelário, show, jogo, consumo e superficialidades que tais, enquanto escasseiam conteúdo, análise, crítica, defensoria, envolvimento, reflexão, compromisso, ética e, sobretudo, busca da verdade, no sentido epistemológico do termo.

Talvez, por isso mesmo, tenhamos que interromper... vai saber se essa sociedade quer mesmo veículos como Semana 3 e espaços como o Entremeios. A demanda demonstra que não e, portanto, a razão sugere que é esta a hora e a vez de sair de cena, porque monólogos são aborrecidos e socialmente inúteis.

Destarte, considerando a irreversibilidade que se apresenta ao insigne partinte, resta aos leitores a insigne ficante mídia contemporânea que aí está, disponível na banca mais próxima... divirta-se. De nossa parte, interrompemos por aqui.

Quem sabe noutro lugar e outro momento... quem sabe?

(Publicado originalmente na edição 37, de março de 2006, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, dezembro de 2005

Neojornalistas



Daniel Leb Sasaki... guarde o nome, você ainda vai ouvir falar dele, ou melhor, vai ler textos assinados por este promissor integrante da safra nova de jornalistas que, neste momento, transita da condição de recém-graduado, para aquela outra de profissional mergulhado no cotidiano da informação.

Leb começou muito bem. No derradeiro momento de faculdade recolheu informações, pesquisou à exaustão, gravou/anotou quilômetros de entrevistas e reuniu tudo em um protótipo de livro-reportagem, apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo na PUC-Campinas. Na Banca tirou merecido dez e o livro foi inscrito na premiação que o Intercom, o mais importante evento nacional de comunicações sociais, destina a trabalhos de graduação. Leb faturou o segundo lugar.

Mas o sucesso não parou por aí. A editora Record sinalizou interesse, Leb fez ajustes e... resultado: quem esteve no espaço cultural da Fnac no Parque D. Pedro, em 18 de novembro, pode ver um jovem sorridente autografando “Pouso Forçado, a história por trás da destruição da Panair do Brasil pelo regime militar”. O discurso de abertura ficou a cargo do senador Eduardo Suplicy, que além do próprio exemplar, levou mais dois, um para o Ministro da Defesa, outro para o comandante da aeronáutica, enaltecendo a importância da obra para conhecer mais sobre história recente do Brasil e até mesmo para retomar pendências legais, políticas, sociais e econômicas esquecidas, mas ainda não resolvidas.

Jovens como Daniel transpiram talento e representam alento para as desilusões todas que a gente vai empilhando, à medida que lê/ouve/vê tanta incompetência e tanto incompetente militando a mídia. A expectativa é que a turma nova arrase de vez com a mesmice, a acomodação, a ausência de conhecimento e a mercantilização que engessa o jornalismo da hora.

Quando repórteres de jornalões tradicionais e arrogantes como o “Estadão” pluralizam campus como (os) campus; quando a comentarista de política da CBN pré-condena no ar e com ironia, à revelia da justiça e fica tudo por isso mesmo; quando o noticiário internacional abre um quinto de página para comentar relações legais e afetivas entre uma soldada e um cachorro do exército norte-americano, entre outras barbáries, é hora de jogar esse povo todo no baú da mediocridade, para deixar que os novos, carregados de idealismo e orientados pelo intelecto, assumam as redações e resgatem o bom jornalismo do limbo em que se encontra.

Configurado como produto, ajustado pelo mercado e adequado ao interesse político (essa história de Sarneys e ACMs dominarem redes de comunicação e, congruentemente, cacicarem a política nacional), o jornalismo vem se agigantando na mediocridade e se apequenando na qualidade, além de fugir cada vez mais do seu horizonte de orientação que é (ou deveria ser) o interesse público, no sentido social e sociológico do termo. Concentração de veículos em poucos e poderosos grupos empresariais, domínio do interesse econômico sobre o objetivo jornalístico e uma esterilização crescente do conhecimento, empurram o jornalismo, cada vez mais, para o tampo da penteadeira, onde assume função de perfumaria supérflua, que enfeita mas não importa.

Por estas e outras, o desejo é que gente como Daniel Leb, não contaminada pela putrefação do ambiente, tome o jornalismo de assalto, levando ao público aquilo que ele precisa: imprensa séria, rigorosa na auto-avaliação e intransigente na própria valorização, não prostrada pelo servilismo mas postada como voz da sociedade, negando-se como produto de vendilhão, para se valorizar como serviço de interesse social.

Prestem atenção no Leb e na turma integrada ao modelo que ele representa. Da alquimia entre os novos jornalistas, fazendo e, na outra ponta, a sociedade, exigindo, vai (re)nascer bom jornalismo.

Ah, sim... sobre o livro? Trata-se de um apaixonado e detalhado relato de mil e muitas falcatruas que governo, autoridades e empresários, na época obscura da ditadura, puseram em andamento, tergiversando do direito e manipulando a justiça, para, no interesse de alguns, literalmente destruir uma empresa que foi símbolo da aviação comercial deste país, a Panair do Brasil. Mas sobre o livro a gente conversa em outra oportunidade, além do que, sobre a obra, há matéria e resenha de sobra pipocando na mídia. Por agora, ficamos com o autor e a esperança que ele representa.
Assim, o livro, que leva o termo “pouso forçado” no título, na verdade prenuncia empuxo total das turbinas para uma decolagem radiante na direção do bom jornalismo dos neojornalistas. Precisamos, esperamos, queremos.

(Publicado originalmente na edição 36, de dezembro de 2005, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, novembro de 2005

Pluralidade x concentração



Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade e das Expressões Culturais. Sob esse título extenso, 148 dos 154 estados membros da Organização das Nações Unidas aprovaram as bases de uma nova política mundial para a cultura, cujo cerne está na reação à crescente concentração dos meios de difusão cultural decorrente, sobretudo, da globalização imposta pelo capitalismo moderno. A aprovação aconteceu em Paris, em 20 de outubro. Como era de esperar, a grande imprensa brasileira deu ao fato importância menor que a merecida.

O documento lança as bases para a defesa da pluralidade cultural, reconhecendo que, assim como na política e na economia, também no plano da cultura o esperado equilíbrio e a desejada igualdade entre as nações cede lugar a um inaceitável quadro de dominantes e dominados, colocando em risco de extinção extensa gama de valores e expressões culturais, desde idiomas até produção cinematográfica, passando pelas mais diferentes formas de manifestação cultural, no sentido antropológico do termo (expressão material de valores sociais).

Pelo menos dois fatores atribuem à aprovação do documento dignidade de manchete: 1) Nasceu no Brasil, em pleno governo PT (este que, reza a mídia, só acerta no aro e não encesta uma), a discussão que deu origem à Convenção, mostrando que, hoje, o país tem um projeto político internacional e 2) A Convenção procura impedir que países periféricos, como Pindorama, vejam práticas e valores culturais próprios desaparecerem na poeira do tempo, enquanto modelos padronizados e globalizados são impostos em todos os quadrantes, sobre todos os povos.

A remessa da matéria para páginas internas em dimensões reduzidas confirma, de um lado, o despreparo da mídia para tratar, com merecida relevância, assuntos de interesse social e, de outro, o corporativismo que norteia as pautas, uma vez que a questão da diversidade versus concentração cultural passa pelo plano midiático.

Considerando a premissa fundamental da antropologia e do mais elementar bom senso de que não existe absolutamente nenhuma possibilidade lógica e racional de hierarquização cultural, que possa criar uma ordem de culturas superiores e culturas inferiores, resta, como único fator explicativo (mas não legitimador) de culturas recessivas e culturas dominantes a difusão. Ou seja, o potencial de ampliação e sobreposição de algumas culturas sobre outras é uma questão midiática: domina a cultura apoiada no maior potencial de difusão, enquanto aquela carente dessa ordem de recursos tende ao atrofiamento e extinção. Portanto, a questão está muito mais na mídia que nas formas de expressão cultural propriamente ditas e, como se sabe, a mídia não gosta de reconhecer que, em nome de interesses econômicos, de quando em vez atua na contramão do interesse social. Além disso, a Convenção da Unesco sugere ações de maior controle no trânsito cultural, o que pode significar interferência governamental sobre a mídia, possibilidade que faz tremer as empresas de informação, (mal) acostumadas a estabelecer seus parâmetros de ação (incluindo éticos) pelas leis (?) de mercado.

Não por outras razões, os Estados Unidos votaram contra a aprovação da Convenção e, lá, a mídia deu relevância ao tema, evidentemente não no sentido de aplaudir a medida que visa compensar o desequilíbrio cultural, mas para condenar a “petulância” dos periféricos, acusando a medida de anti-democrática. Considerando que são americanos 85% dos filmes que serão exibidos hoje em todas as salas do planeta, não é de estranhar que a imprensa estadunidense condene a Convenção e que a vassalagem jornalística de outros países, Brasil incluso, apoie os gringos ou ignore o tema. Afinal, cultura é notícia quando traz lucro e como para 2005 a expectativa é que a indústria cultural movimente mais de um trilhão de dólares, não compensa propagar idéias para redistribuir essa grana e reorganizar o painel cultural sobre o globo terrestre. Fica para a imprensa a missão mais “democrática” de noticiar fatos realmente importantes como a nova produção da HBO, que, aí sim, vale chamada na primeira página.

(Publicado originalmente na edição 35, de novembro de 2005, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, outubro de 2005

Máximo e mínimo



Retiro forçado por questões de saúde me colocou fora das últimas edições de Semana 3. Retorno retomando o tema da crise política que, infelizmente, foi (é) maior, no tempo e no espaço, que meu involuntário afastamento.

Abarrotada de crise, a mídia, no geral, tem apontado fatos e desdobramentos como conseqüência exclusiva do comportamento errado e dos erros de condução das agremiações que ora ocupam o Governo Federal, Partido dos Trabalhadores à frente, tratando a oposição (elite político-econômica liberal) como simples observadora passiva do processo, isenta de planejamento e ações no sentido de empurrar de vez a situação para o buraco.

Assim, o comportamento da grande imprensa nem sempre deixa ver que a direita não tem se furtado ao impulso de empurrar a banqueta sobre a qual a esquerda está apoiada, após enrolar no próprio pescoço a corda da improbidade, atada com o nó da incompetência. Apoiada em fórmulas maniqueístas, a mídia tem reservado manchetes para os desmandos criminosos da esquerda, enquanto relega pouco espaço para evidências que ajudem esclarecer quanto a direita deixa de perder com a fragilização da esquerda e como isso reflete no contexto político, social e econômico do país.

Confira alguns itens que vão ou foram “pras cucuias” por conta da desmoralização das forças políticas de esquerda e da conseqüente queda da sua capacidade de influir nos destinos do País e cuja alteração favorece muito o projeto liberal.

TV digital. Sai de vez a tese do desenvolvimento de tecnologia brasileira, substituída por aquisições no mercado internacional, independente da dependência que acompanha a decisão, implicando em mais sucateamento dos recursos nacionais de pesquisa, fuga de cientistas e volta à dependência crescente da ciência alienígena, ao preço e às ordens dos centros hegemônicos.

Privatizações. Interrompidas e, em certos casos, questionadas pelo atual governo, voltam à baila com o fortalecimento do poder liberal, inclusive com alguns itens já definidos, como educação (abertura ao capital estrangeiro e proliferação descontrolada do ensino pago) e recursos hídricos (captação, tratamento e distribuição).

Comunicações. Consolidação de agências reguladoras e legislação favorável à democratização dos meios e recursos, timidamente ensaiadas na atual gestão, desaparecem das pautas de governo. Independente de conseqüências sociais e culturais, o mercado volta a regular (?) produção cinematográfica, concessões de transmissão (rádio e tv) e coisas que tais.

Informática. Vira passado, sem nunca ter sido presente, a possibilidade de substituir a base Microsoft por programas abertos na esfera governamental, assentando passos na direção da independência e da economia. Comandados da mega-empresa americana, atuando aqui em Pindorama, ficam livres para impor compra e uso “ad aeternum” dos badulaques virtuais de mister Gates.

Controle rígido dos desmandos capitalistas. Coisas como a investigação da “enrolação Daslu”, com direito a prisão de contraventores, independente de conta bancária e amizades influentes podem voltar a ser substituídas pelo vale tudo do mercado, em que “gente de negócio”, em princípio e por “lei natural”, está isenta de culpa e dispensada de investigação.

Políticas sociais. Soterramento da universalização, para adoção definitiva e integral da política focada, é o caminho sob o domínio liberal, sugerindo, sem exigir, que, na medida das possibilidades, mas não obrigatoriamente de acordo com as necessidades, o setor privado (travestido de “terceiro setor”) se encarregue do “esmolismo” aos pobres e desamparados, porque, ocupado com a Casa Grande, o governo não pode cuidar de azares e mazelas da senzala.

Geoestratégia. Mesmo tímidas e débeis, tentativas de reordenar o cenário internacional, ajustando esforços entre iguais (cognominados países em desenvolvimento), no ver e no fazer liberal atrapalham em demasia o mercado, de modo que bom mesmo é manter a condição periférica em nome do pragmatismo econômico e do “realismo” diplomático.

A lista poderia ir seguindo, mas já basta para mostrar que à maximização de alguns fatos (manchetes, retumbância, chamadas, o show da mídia), corresponde a minimização de outros (notas, parcas pé de página, sem análise nem destaque) apesar da importância similiar entre ambos. No entanto, ao primeiro reclamo de que o descalabro do descalibre põe em xeque a isenção jornalística, vozes “zelosas” determinam que isso tudo não passa de tese conspiratória e alarmismo infundado, pois a mídia continua, sim, neutra e equilibrada... a bem da verdade.

(Publicado originalmente na edição 34, de outubro de 2005, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, junho de 2005

País periférico, imprensa periférica



Muitas e múltiplas as conseqüências da Cúpula América do Sul-Países Árabes, realizada em Brasília no início de maio. A maior parte, evidentemente, repercutiu no campo diplomático, outras repicaram na área da economia e outras, ainda, foram ecoar na seara da política. Mas sobraram também conseqüências para a mídia. A mais flagrante: a imprensa brasileira (ainda?) não está preparada para tratar de temas internacionais.

Talvez a história represente a melhor ferramenta para entender essa incapacidade estrutural da imprensa tupiniquim. Nascido colônia e, pós-inde¬pendência, perpetuado como país periférico frente a organização econômico-política do planeta, o Brasil sempre teve voz tímida e presença modesta na geoestratégia internacional. Só eventualmente consultado e raramente envolvido pra valer no jogo de interesses internacionais, o Brasil sempre foi mais empurrado do que se mostrou capaz de intervir no cenário mundial, salvo lá e acolá, no mais das vezes como mediador de querelas ou em situações específicas, a maior parte circunscrita à América do Sul. No mais, para o mundo, o País foi sempre e tão somente exportador de matéria-prima e consumidor de manufaturados, sofrendo/pagando os custos econômicos, políticos e diplomáticos dessa desigualdade. Mesmo na passagem de exportador de primários para negociador global de “tudo um pouco” (serviços, manufaturados, tecnologia etc.), a participação diplomática não seguiu a reacomodação econômica e, do ponto de vista da geopolítica norte/sul, a brava gente brasileira manteve-se na posição de “povo lá de baixo” aos olhos dos bambas “lá de cima”. Coisas que De Gaulle disse e ninguém, ainda, desdisse.

A mídia “de acó” seguiu a tendência e, quando o sistema transnacional de comunicação começou a se estruturar, com o aparecimento das agências internacionais de notícia, preferiu a condição de cliente assinante ao posto de fornecedor de informação. Resultado: até hoje, veículos e jornalistas não conseguem enxergar um palmo além das fronteiras quando o assunto é informação internacional. Tirando duas ou três exceções, como Newton Carlos, não há nestas terras jornalista capaz de articular meia dúzia de linhas analíticas razoáveis sobre cenário geoestratégico. Reforçando a deficiência, a atenção, o espaço e a importância para editoria internacional nos veículos brazucas são menores que a importância da África no contexto internacional. Assim, fica explicado porque essas editorias são um mar estrangeirado de “copy-desk”... “New Yok Times”, “The Times”, “The Gardian”, “L’Express”, “Le Figaro”, “L’Oservatore Romano”, “The Washington Post”, “Los Angeles Times”, “Financial Times” e por aí vai. Do mundo, sabemos o que eles nos contam… e só.

Na cobertura (?) da Cúpula, o despreparo veio à tona. Em parte por conta da linha editorial e/ou da posição política dos veículos, deliberadamente interessados em desprestigiar o evento, em parte por incapacidade mesmo. De qualquer forma e por qualquer destas razões o resultado foi catastrófico. Cito dois exemplos. O primeiro de “Carta Capital” que, na mesma edição (18 de maio/2005), apresentou duas versões diferentes e controversas, uma reduzindo o evento a um show de ineficiência e falta de resultados (página 6, Brasiliana, Jeitinho das arábias) e outra, curtíssima, reconhecendo a importância da iniciativa (página 22, A Semana, Vale a intenção da semente). Qual valeu?

Outro exemplo, mais contundente, ficou por conta de Lúcia Hippólito, que se apresenta na CBN como comentarista política. Em 10 de maio, referindo-se à Cúpula, ao invés de abordar as dimensões diplomáticas e internacionais, preferiu comentar as conseqüências do esquema de segurança montado sobre a rotina brasiliense. O comentário não mencionou que reuniões dessa envergadura sempre, em qualquer lugar do mundo, envolvem complexos e amplos esquemas de segurança. Por exemplo: o fórum de Davos não altera somente a rotina da cidade, mas muda o cotidiano de toda a Suíça e de muitos suíços. Portanto, diferente do que sugerido pela matéria da CBN, as alterações aqui verificadas não são exceção, mas regra nesse gênero de evento. Nesta senda, o comentário ignorou, por desconhecimento ou intenções outras, as dimensões e o significado de um acontecimento internacional que reuniu dezenas de Chefes de Estado, indicando a busca de novos horizontes nas relações do Brasil com o mundo, em termos econômicos, políticos e geoestratégicos, preferindo focar congestionamentos (in)conseqüentes, dando a exata dimensão do (des)preparo dos veículos e agentes da mídia nacional para tratar o internacional. Restou o folclórico: talvez tenha sido a primeira vez na história da imprensa que, na tentativa de fazer análise de política internacional, a comentarista acabou fazendo um boletim de trânsito!

(Publicado originalmente na edição 31, de junho de 2005, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, maio de 2005

Texto e contexto



Em meio ao show do papa e temas de praxe (política, violência, esporte etc.), a edição de 19 de abril da “Folha de S. Paulo” reservou espaço para noticiar o “presta atenção” que a Fuvest endereçou a cursinhos e vestibulandos, referente à redação.

Ponto para a “Folha”, que soube valorizar e dar destaque ao assunto, inserindo chamada na capa e colocando a matéria na primeira página do caderno Cotidiano, com foto e infográfico. O passo em falso foi o enfoque, imediatista e reducionista. Mesmo assim, a matéria configurou boa oportunidade para o leitor refletir sobre um tema relevante, pertinente e atual: a (in)capacidade de expressão textual/redacional que vem qualificando (?), cada vez mais intensamente, parcelas significativas da sociedade, sobretudo os jovens.

O ponto de origem da matéria foi a declaração da diretora executiva da Fuvest, Maria Tereza Fraga Rocco, a respeito de metodologias de ensino de redação caracterizadas por fórmulas padronizadas. Nesse embalo, a Fuvest fez crítica e ameaça: a fórmula padronizada impede a desenvoltura do candidato e, por isso, textos assim não serão aceitos no vestibular. Candidato que usar fórmulas e clichês vai zerar na prova de redação.

Além de apresentar trechos do depoimento da diretora, a “Folha” infografou modelos de avaliação de redação, reproduziu um exemplo de boa redação (sic), e ouviu alunos e a coordenadora de redação de um cursinho de São Paulo.

Mas se, para a “Folha”, a matéria acabou por aí, o leitor ligado percebeu que o tema é mais sério e cutuca a questão da capacidade expressiva no geral. Ou seja, não é só no vestibular que as pessoas tropeçam quando precisam escrever um texto. Habilidade expressiva através do recurso textual vem se mostrando artigo cada vez mais raro.

Professores convivem com esse problema de perto. Envolvido com uma clientela universitária de 650 alunos (circa), jovens na maioria, um professor confidenciou: "Na relação professor/aluno, a forma de contato mais intensa é o texto, que está presente na prova, no trabalho em grupo, na resenha, enfim, em quase toda atividade didática. Mas, após uma década de magistério, enxergo algumas coisinhas que emergem do ambiente acadêmico, como a crescente dificuldade de manifestação através do texto. Coerência, lógica, organização, clareza, são aspectos cada vez mais raros na forma de escrever dos discentes. Na contramão dessa tendência, é cada vez maior a quantidade de alunos acometidos da síndrome da folha em branco: olham durante muito tempo para a folha, ensaiam algumas frases desconexas, mas não conseguem passar da tentativa. O texto continua embotado e embutido em interstícios neurais aos quais o proto-redator não tem acesso."

Quando relatos assim circulam entre professores, a maioria fica de cabelo em pé e pergunta: “Onde vamos parar?” Exatamente não sei, mas acho que o caminho aponta para uma sociedade com menos texto. Temos aí um problema? Parece que a maioria dos professores e jornalistas acha que sim. Mas, pessoalmente, prefiro acreditar que estamos diante de um fato. Informática, sistemas, processos e recursos de comunicação eletrônica, simbioses agregando celular, televisão e games em aparelhos únicos, o CD, o DVD, enfim, essa parafernália toda que imediatiza a comunicação e robotiza o comunicador está criando um novo cenário, no qual a cultura literária perde importância e espaço.

O que se apresenta, portanto, é um momento talvez tão importante, do ponto de vista social e histórico, como o advento da imprensa, que abriu o período literário, tornando livro e letra pontos de referência e padrão de cultura. Talvez essa idade do texto, tal e qual concebemos, esteja agonizando em leito de morte, abrindo espaço para modelos com outros referenciais. A primeira leva a embarcar no trem da mudança é, sempre, a juventude e aí fica mesmo difícil esperar dessa galera desenvoltura idêntica ou superior a que tiveram gerações anteriores para discorrer idéias na folha de papel. Em tempos de orcute, xéte e onlaine, textualizar pode ser démodé e os conceitos de boa redação talvez sejam (serão) outros. Aos que militam na pedagogia ou transitam pela imprensa, vale a pena atentar para esses aspectos transformadores e, quem sabe, mudar os mapas de referência.

Mas, aí, o leitor vai dizer que, então, sou contra o bom texto, nos moldes ortodoxos. Muito pelo contrário. Sou fã de carteirinha do bem escrever. Mas eu, bem, eu sou de ontem, intrometido no hoje, com perspectivas cada vez mais reduzidas de amanhã. Conto pouco. Já a turma jovem, apesar de desconhecer o texto, domina o contexto que, parece, se destextualiza a passos largos, gostemos ou não.

(Publicado originalmente na edição 30, de maio de 2005, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, mar/abr de 2005

Boca no trombone



Nesta edição, a coluna foge do padrão. Ao invés de focar o comportamento de um ou alguns veículos midiáticos, como sempre faz, faz agora diferente, colocando na berlinda a grande imprensa nacional, como um todo, excetuando raríssimas e desprezíveis exceções e bate palmas calorosas para as publicações e emissoras que cerraram fileiras e caíram de pau sobre as intenções espúrias da politicalha interessada em auto-reajustar seus salários.

Fazia tempo a gente não via a mídia fechar com a opinião pública com tanta sintonia e esticar o dedo na direção de oportunistas travestidos de políticos, fazendo ver e ouvir que já estamos até a tampa das malandragens de politiqueiros e desmandos da politicagem.

Em um evento em São Paulo, logo depois que “CartaCapital” virou revista semanal, na presença de empresários, de políticos, como Marta Suplicy e de administradores públicos, como o ex-ministro da educação Paulo Renato, o jornalista Mino Carta lembrou que à mídia compete vigiar o poder. No caso da tentativa de aumento salarial dos deputados federais não deu outra: a mídia não só vigiou o poder, como, em diversos exercícios opinativos – editoriais, colunas e comentários – deixou muito claro o julgamento dela mesma e da opinião pública a respeito da politicalha que tergiversa da ética e do senso de responsabilidade social.

Sim, o leitor vai dizer que adiantou pouco, no campo da prática, porque os vendilhões da ética voltaram e voltarão à carga, por vias outras, sorvendo pelas bordas (um ato administrativo aqui, um outro ali) até deglutir todo o mingau que se propuseram comer, pouco importando que o leite e a farinha são tirados à boca do povo, em cuja composição não faltam famintos, mal-empregados, desempregados e subempregados, abandonados da sorte e do governo.

Concordo. O “presta-atenção” sobre a tentativa de aumentar salário e verba dos deputados não eliminou as mazelas todas que rotulam segmentos significativos do poder político desta pátria sub-traída. Mas indicou um caminho, deixou uma sementinha, se não de expectativa, pelo menos de esperança. Estamos em processo. A democracia restaurada, instaurada e instalada há vinte anos, abrindo a fase pós-militares, ainda é criança e, por isso mesmo, pequenina, faz pouco, é frágil, tem muito a aprender e muito mais a fazer. Por enquanto, ela ainda carreia votos para gente que se elege apoiando pinguço. Mas, se a cada dia a sociedade se afastar um pouquinho mais desse presente inadequado e do passado nefasto, buscando um futuro justo, aceitável e conveniente, não para os políticos, mas para si mesma, vale a pena acreditar e não custa nada tentar.

Se não representa ação efetiva, de resultados concretos, a postura assumida pela mídia no caso em tela arvora-se em exemplo e indica trajetórias: pau na corja que, um dia, ainda que distante, ela verga, quebra e, se não fugir, acaba por enfrentar o julgamento inflexível e o veredicto severo da sociedade. É possível, sim, acabar com a bandalheira. O primeiro passo é querer, o segundo é cobrar... Aí, já estamos, como manchetes inconformadas mostraram à sociedade incrédula que em um contexto de salário mínimo girando na casa de duas centenas, é inadmissível e inaceitável que certos parlamentares pretendam concentrar renda e benefícios próximos de cem milhares per capita. È discrepância pra ninguém botar defeito, ou mais precisamente, é um discrepante defeito político, anomia que o organismo social não pode absorver nem o bom senso pode aceitar.

Valeu a sacudidela. A expectativa é que a sociedade, imprensa junto, ponha-se em causa: não mais se aceita nem se convive com maus políticos. Enquanto a mídia delata, o indivíduo também pode fazer muito, execrando a pilantragem: mesmo que o cara seja colega, conhecido ou até mesmo amigo, se for político e não for ético, a ordem é romper com ele, dispensar o cumprimento, evitar o contato, jogar o cara no lugar do qual jamais deveria ter saído, o ostracismo. Na hora do voto é bom pensar e, depois de votar, cobrar, enfim, por a boca no trombone que, assim, o bicho assusta, treme, corre e a política sem ética, desprovida de senso, um dia morre.

(Publicado originalmente na edição 29, de mar/abr de 2005, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, fevereiro de 2005

Alexandre, o falso



Passado o período dionisíaco que interpõe véspera de Natal ao Natal, última noite do ano velho ao primeiro dia do ano novo e pré-carnaval ao carnaval, gerando motivo pra muita ceia, outro tanto de almoço, festas repimpadas, gandaia da boa, mas pouca produtividade, cá estamos, de volta à labuta, comentando mandos e desmandos de meios e mídias, pra notar que, infelizmente, às festas não sobreveio a seriedade... muito pelo contrário.

Em 2005, a mídia continua classificando o receptor como boçal acéfalo unineuronal, desprovido de gosto, conhecimento e senso estético, ao queimar espaço com idiotices que envolvem muitos, mas interessam a poucos, como a produção holliwoodiana pretensamente referenciada no general macedônio Alexandre, cognominado o grande, apesar da pouca estatura. Refiro-me ao filme, mas também à publicidade veiculada na mídia impressa, como a peça que ocupou toda a página 3 da Ilustrada (caderno E) da “Folha”, no primeiro domingo do ano, estampando foto de página com um tal Colin Farrell (ator?) travestido de Alexandre. Você viu? Riu? Eu também. Com topete de metrossexual assumido, pernocas raspadas e olhar de galã global, a figura é o protótipo perfeito do Alexandre alegórico, próprio da Mangueira carnavalesca, incluindo a capa (notou uma observadora atenta) segura por um broche plastificado, oriundo dos varejos quinquilharescos de R$ 1,99. Ridículo!

Mas não é só a “ridicularidade” que preocupa e incomoda. A plastificação de figuras como Alexandre e a redução do passado a roteiro e imagens holliwoodianas sufoca e pode suprimir o conhecimento da História e, conseqüentemente, vulnerabilizar ainda mais as pessoas à adesão incondicional e passiva da ordem social vigente.

História significa conhecimento e, portanto, base para reflexão crítica. Sem História, a sociedade perde referenciais, abandona a reflexão, aceita passivamente imposições de toda ordem (políticas e econômicas inclusive) e vira massa de manobra nas mãos do poder. Se o leitor já se deteve para analisar o tema, percebeu que a manipulação e a instrumentalização da História sempre foi preocupação prioritária do poder. Absolutistas, nazistas, stalinistas e conexos usaram e abusaram da re-historiografização no sentido de substituir a memória crítica pela adesão e aderência a valores circunstanciais de oportunidade.

O capitalismo não faz diferente, entendendo que a História só tem sentido quando valoriza determinados direitos, legitima certos procedimentos e estimula comportamentos específicos. Por isso mesmo, a glamurização do Alexandre americanizado é pior que risível. Dondocado com xampu e gel, a imagem do Alexandre de Hollywood não remete ao combatente, mas certamente estimula o consumo. Deixa de ser referencial histórico, mas ajuda muito nas vendas. Além disso, falando inglês e personificado por um legítimo “all american boy”, o Alexandre fílmico mitifica a figura de conquistador, ao mesmo tempo em que perde a nacionalidade macedônica, para incorporar uma identidade americana, consolidando e legitimando o domínio, tanto aos olhos dos dominantes quanto à visão (passiva e/ou adesista) dos dominados. Enfim, como já afirmaram mil e muitos comentaristas e estudiosos da comunicação em geral e do cinema em especial, o objetivo real e final é propaganda... de imagem, de valores, de conceitos, de situação e de relações sociais.

Mas a propaganda, no caso, não se limita ao filme. Antes, durante e depois da exibição, a mídia jornalística completa e amplia o processo propagandístico, mantendo a película na pauta das matérias e nos espaços publicitários, fechando o cerco comunicacional. Com isso, independente das (des)qualidades artísticas, o filme já chega como sucesso pré-configurado, que a afluência de público só faz confirmar. Resultado: o processo é maquiavélico, mas muito funcional e o receptor vai, aos poucos, mas inexoravelmente, perdendo a capacidade para diferenciar Alexandre, o grande, de Alexandre, o falso.

Por isso, quando conquista, domínio e imperialismo estão na ordem do dia, em tempos de globalização, criações midiáticas desse gênero, por serem proposital e calculadamente falsas, são, também, preocupantes.

(Publicado originalmente na edição 28, de fevereiro de 2005, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, dezembro de 2004

Arafat



As imagens mostrando o líder palestino Yasser Arafat deixando Ramalah e o subseqüente anúncio de sua morte trouxeram uma tristeza desalentadora, que amorteceu o ânimo, despertou receios, causou preocupações e se tornou, automaticamente, motivo deste (e outros) comentários.

Tristeza pela morte da pessoa. Seja qual for o corpo esvaziado da alma, morte é sempre ruim, triste, lamentável. Ninguém gosta, ninguém quer. No entanto, a cobertura do evento incluiu foto de um grupo judeu ortodoxo brindando, com copos ao alto, a morte de Arafat. Pasmo, pois causa medo (muito) e vergonha (ainda mais) repartir o status de ser humano com gente que comemora a morte, seja lá de quem for. A expectativa é que esses corações e mentes possam conhecer, ainda vivos, paz e respeito à vida, para segurança de todos, inclusive deles.

Tristeza pela morte do líder, a quem não viu realizado o sonho, justo e inevitável, da nação palestina: soberana, independente, segura, próspera e pacífica. Sabemos todos que os palestinos já sofreram demais – humilhação, privação, violência, ostracismo, preconceito. Merecem a terra que lhes é de direito e o direito de implantar uma nação independente. Faz pouco, o mundo viu surgir um novo país, Timor, que tem pela frente um caminho longo e difícil de luta contra a pobreza, mas conta com três aliados importantes: reconhecimento, ajuda e esperança. No caso palestino, o reconhecimento é a muralha que recorta a terra de plantio, isola cidades e divide famílias, a ajuda são os esquadrões de Merkava, derrubando casas, ou terroristas, aliciando jovens, transformados em suicidas desesperados e a esperança é uma bandeira tricolor, que o mundo não conhece nem quer reconhecer.

Tristeza, também, pelo sectarismo e parcialidade com que fração significativa da mídia, incluindo a grande imprensa brasileira, deu conta do evento, qualificando de intransigente o dirigente que mais falou em negociação nas últimas décadas; negando status de estadista (editorial "Folha de S. Paulo") ao líder inconteste dos palestinos e falseando suspeitas de corrupção sobre uma figura que só vestia roupa espartanamente militar, viveu décadas degredado, cultivou ascese religiosa e passou anos confinado na sede administrativa da ANP, por dedicação à causa e despotismo do governo israelita. Acusar de corrupção quem não conheceu o luxo e negou a ostentação leva a crer que alguns trazem no cérebro o que deveriam ter nos intestinos e colocam sobre a ética um borrão do que levam no cérebro.

Tristeza e desalento, porque aguçou a desesperança, mostrando que o aperto de mãos que sela a paz morre numa praça de Israel (Rabin) ou num hospital francês (Arafat), enquanto o estímulo à guerra consolida-se na truculência (física inclusive) de Sharon, no sorriso sarcástico de Bush ou no oportunismo sangrento de Bin Laden. Assim, parece que já vai a hora dos tolerantes, pacíficos e cordatos enfiarem a bota nos fundilhos desses apocalípticos, abrindo espaço para um mundo mais sereno, em que rezar na mesquita não tenha como pré-requisito a proibição de orar na sinagoga.

Tristeza, ainda, por mostrar que preconceito, obscurantismo e barbárie continuam a banhar as margens do Jordão e ofender a sacralidade das pedras de Jerusalém, considerando que nenhum humano é mais que ser humano, não há raça de valor maior, nem cultura de perfil superior, nem deus que não aceite, como seus, a igualdade na diversidade e a concórdia na diferença. Portanto, além de retrógradas, são más e perigosas as crenças e a obstinação que estimulam a intolerância e legitimam a intransigência.

Ao comentar a morte de Arafat, alguém (re)escreveu que o ex-chefe da Autoridade Palestina não perdia uma oportunidade de perder uma oportunidade. O comentário não é original nem atual e se a frase deveria ser “de efeito”, acabou mostrando o “defeito” maior da mídia norte e sul-americanas no quesito assuntos internacionais: parcialidade. Etnocêntrica, estrábica, empresarial e comprometida, a grande imprensa ainda não se revela capaz de focar com isenção, distanciamento e competência os eventos que modelam a história, contribuindo para desenvolver o senso crítico do receptor, ao tratar com igual senso crítico a mensagem do emissor. Dessa forma, a mídia instiga o ódio, alimenta a ignorância, justifica o preconceito e promove o confronto. Não só, mas principalmente por isso, a morte de Arafat foi triste.

(Publicado originalmente na edição 27, de dezembro de 2004, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, set/out/nov de 2004

Censura



Rolou e continua rolando muita tinta e outro tanto de saliva em debates sobre a criação de duas instituições ligadas à mídia, uma voltada para a área do cinema e do vídeo, Ancinav, e outra focada na imprensa, CNJ. As siglas ainda são provisórias e as instituições ainda são propostas, portanto abertas ao debate e receptivas a mudanças. Mas, assim mesmo, impressiona o número de interessados em participar das conversações, como causa espécie a rapidez com que se definem posições e polarizações.

Seja pelo interesse real, seja pela crença de que mídia é assunto pra qualquer Zé Mané meter a colher, debates, afirmações e contra-afirmações sobre Ancinav e CNJ já se espraiaram pelos mais variados interstícios, desde opiniões inconseqüentes, obtusas e sem fundamento, até considerações de ordem jurídica, legal, política e econômica, na amplitude maior em que esses segmentos podem ser desdobrados. Assim, ao contrário do que sugere nossa vã filosofia e ponderado bom senso, é muito grande o número de pessoas que “conhece” e “domina” a complexidade toda das comunicações sociais e, portanto, julga-se no direito ou capacidade de “palpitar” sobre o tema. A maioria conhece pouco e, por isso mesmo, fala muita bobagem. Há, também, quem participa não por conhecimento ou afinidade com o tema, mas por interesse, no mais das vezes econômico. Mas isso é só uma parte da questão. Existe outra mais grave.

Das manifestações todas que afloraram dos debates, aqui no Brasil e mesmo no exterior (leia-se Estados Unidos... sempre eles), muitas associaram as instituições ao (re)cerceamento da livre manifestação ou censura. Disseram: implantar Ancinav e CNJ significa facilitar e oficializar a prática de censura por parte do governo. Dos que pronunciaram a frase, erraram alguns, mentiram outros, pela razão simples que, já faz tempo, censura é só parcialmente pratica (real ou potencial) de governo. Se governos de modo geral e o brasileiro em especial buscam, de fato ou de direito, exercer controle sobre a mídia, esse controle já vem sendo intensamente exercido por entidades extra e às vezes anti-governo: as chamadas empresas de comunicação.

Portanto, se houve tempo em que, por força de lei e espada, estava em mãos de governos despóticos a capacidade de controlar a mídia, hoje, efetivamente, quem controla o trânsito e o conteúdo das comunicações (cinema, televisão, rádio, jornal, revista, internet, tudo, tudo) são empresas, pela razão simples e óbvia do direito de propriedade. Em instância última, quem decide o que, como, quando e para quem se publica, ou não se publica, é o dono. O resto é mistificação. Como é muito grande o percentual de meios/mídias controlados por reduzido número de empresas e se o conceito de censura pode ser aposto à noção de controle da informação, então, já faz tempo que a mídia está sujeita a censura.

Logo, debates sobre Ancinav, CNJ e temas afins podem e devem sofrer correções de percurso, paralelizando, à questão da possível/futura censura de Estado, a real e presente censura empresarial, pois instituições que podem ameaçar a liberdade pelo Estado, de outro ponto de vista podem representar bastiões contra o controle da informação pela empresa. Essa linha de raciocínio também torna mais fácil entender porque empresas jornalísticas e setores alinhados com o liberalismo capitalista (incluindo as manifestações alienígenas) foram (e são) os que mais imediatamente e com maior veemência manifestaram-se contra a proposta das agências. Estavam (estão) obrando em favor da liberdade de expressão ou maquinando pela manutenção impune e irrecorrível do controle?

O controle oligopolístico da captação, processamento e difusão de informações cobra um preço social alto, alguns dos quais já comentados nesta coluna, como a exclusão das classes populares do sistema midiático. Outros pontos como qualidade de informação, defesa de interesses nacionais, pluralidade cultural, interesse público versus interesse do público etc. integram o cardápio relativo à questão. Logo, debater a criação de instituições que possam reverter ou alterar o “status quo” das comunicações sociais é tema dos mais importantes e a posição liberal precisa ser questionada, se não, o que pode ou não pode ser visto, lido e ouvido, continuará a ser decidido por Marinho, Frias, Mesquita, Saad, Godoy, Abravanel, Sarney...

(Publicado originalmente na edição 26, de set/out/nov de 2004, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, agosto de 2004

Voz e vez na mídia

Foi sugerido, na edição passada, que a imprensa representa uma parte da sociedade (menor, rica e poderosa, chamada elite), mas deixa fora outra parte (maior, pobre e desprovida de poder, chamada massa). Faltaram causas e, uma delas, é a resistência da mídia às tentativas discursivas da massa, por razões políticas (distribuição/concentração de poder) e econômicas (distribuição/concentração de renda).

Ao reduzir a informação à condição de produto, e a circulação da informação à condição de serviço, a mídia vira empresa que mercantiliza informação.

Empresarialmente, a mídia faz o que fazem as empresas: constitui clientes, seleciona fornecedores e estabelece parceria, visando lucro. Quem gasta e gera dinheiro entra como receptor e emissor, no caso a elite. Já a massa, no máximo, entra no jogo como consumidora passiva e periférica, ajustada à aquisição dos produtos mais baratos e sensacionalistas. Por isso e erroneamente, os termos “imprensa popular” e “imprensa sensacionalista” se confundem, como acontece com os dois (únicos) jornais diários de Campinas, “Correio Popular” e “Diário do Povo”, um mais “popular” sensacionalista, outro, pretensamente, nem tanto.

Empresas midiáticas também agem concorrencialmente, tirando o competidor da reta para ganhar mercado. Isso gera concentração. Ora, concentração e elitização, diz a sociologia, são categorias próximas e interdependentes. Logo, quanto mais concentra, mais a mídia afasta a massa e dela se afasta.

Aplicando o raciocínio à realidade, pode-se entender a agressividade com que foram recebidas as tentativas do governo municipal abrir espaço para a mídia alternativa, com a municipalização da gestão de emissoras comunitárias de rádio, ampliando, potencialmente, o acesso das massas.
No plano jurídico/legal, a regulamentação de direitos e deveres relativos à geração e circulação de informação é ideologicamente liberal: garante a exploração comercial e, ao mesmo tempo, interpõe barreiras e empecilhos a projetos e ações alternativas. A tênue definição de fronteira entre pirataria e legalidade, quando se trata da difusão eletrônica de informações, leva com facilidade à criminalização de soluções alternativas. Com isso, o direito à livre expressão sai do campo de discussão político/social para cair na esfera policial. Reprimir policialmente a irradiação de idéias parece não contribuir muito para arrefecer o mutismo midiático das camadas populares. Talvez, antes de reprimir, valesse discutir. Todavia, a reflexão não encontrou espaço aqui em Campinas. A justiça indeferiu, a mídia condenou, a intelectualidade ignorou e a proposta da municipalização acabou aparecendo menos como oportunidade necessária de debate e mais como erro descabido e inoportuno.

No episódio, o “espírito de corpo” da mídia apareceu de imediato. Em 2 de julho passado, o “Correio” manchetou na página 5: “Lei vai facilitar rádio comunitária ilegal”. Além do contraponto da lei que facilita o ilegal, a matéria menciona a preocupação de entidades corporativas como a Associação das Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo. Na mesma data, a “Folha de S. Paulo” (C3, Caderno Campinas) também tratou do assunto e já na linha fina lembrou que a legislação proposta “fere, pelo menos, três artigos da Constituição Federal...”, incluindo, na matéria, posição de outra entidade corporativa (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Em 3 de julho, o assunto foi a principal manchete do “Correio” e, na mesma data, também apareceu na coluna Xeque-Mate. No dia 4 de julho, foi retomado na página 4. Mas apesar de dar voz a entidades corporativas, em nenhum momento as matérias trataram a difusão comunitária como possibilidade de acesso popular aos meios de comunicação. O tema recorrente foi a manutenção da estrutura legal que regulamenta o assunto. Simplificando, a mídia instituída quer preservar-se e sabe resguardar-se das tentativas que obstaculizam a mercantilização e a oligopolização dos veículos, mesmo que isso signifique manter/ampliar o silêncio, o isolamento e a marginalização comunicativa das massas.

A proposta de mudança na regulamentação da difusão radiofônica é tema importante e sério, de profundas conseqüências sociais. No entanto, a população em geral e os setores ligados à comunicação social (universitários, pesquisadores, jornalistas, sindicalistas, movimentos populares etc.) recusaram o debate. Uma pena, pois sem debate e mobilização a massa continuará ausente da mídia... sem voz e sem vez.

(Publicado originalmente na edição 25, de agosto de 2004, da revista Semana 3)

Wagner Geribello, junho de 2004

Lado B



Lado B. A expressão apareceu com o disco, aquele preto, antigo, que precedeu o CD e o DVD, cuja tecnologia determinava gravação em ambos os lados. Quem adquiria a música desejada, gravada no lado A, também pagava e levava uma outra, gravada no lado B. Essa nem sempre a gente queria e, às vezes, nem conhecia. Música do lado B raramente tocava no rádio e não entrava nas paradas de sucesso. Desconhecido e desprezado, lado B acabou virando sinônimo de segunda categoria, coisa sem importância.

Sociedade também tem lado B, a face desprezada e desconhecida, para a qual ninguém dá muita importância, incluindo a mídia.

Quer ver?

Pega aí o jornal que você assina. Qualquer um serve... "Folha", "Estadão", "Correio Popular". Abra o caderno ou editoria de economia. Confira comigo: tem matéria, notícia, artigo, comentário, depoimento, entrevista, em que os empresários se manifestam? Tem. Pois é, lado A. Tem manifestação de patrão? Também tem. De novo, lado A. Achou aí a palavra dos executivos, dos banqueiros, dos investidores, dos financistas. Tudo lado A. Agora, procura matéria com operário. Mas não sobre operário, em que outro, sempre alguém do lado A, se pronuncia em nome dele. Só vale manifestação do próprio obreiro. Não achou nada, não é mesmo? Pois então, operário é lado B. Agora, procura, por favor, depoimento de liderança sindical (pelego não vale, é lado A também). Também não encontrou? Lado B. Em suma, quando se trata de economia, lado B não pia.

Vamos pra outra editoria. Cultura. Essa que em alguns jornais chama "Caderno C" ou "Caderno B" ou "Ilustrada", essa mesma. Procura artista global. Achou? Lado A. Filme hollywoodiano... tem de monte, não é? Lado A. Música marketizada pela indústria cultural... também lado A. Achou, não achou? Ótimo. Agora, vamos rever o caderno, procurando manifestações culturais de raiz, arte popular, coisas assim. Não achou nada? Pois é, lado B.

Repita a experiência nas demais editorias, contornando, é claro, a coluna social, pra evitar que ironia e sarcasmo extrapolem o limite do ponderado. Tente, por exemplo, política, ou serviço ou então o noticiário local... isso, editoria "Cidades". Achou uma entrevista com moradores "famosos" do Cambuí? Então, o típico bairro lado A. Ah, mas você também achou matéria sobre a periferia. Isso quer dizer que lado B também aparece na mídia. É, de vez em quando aparece mesmo, reconheço. Mas se manifesta? Não. O periférico, o morador do Jardim Lá Longe não fala. Lado B, não tem voz e como não tem voz, também não tem vez na ordem das prioridades sociais. Ou seja, lado B não conquista porque não sabe reclamar, não recebe por não saber pedir, não usufrui porque não tem discurso legitimador. Assim como a música do lado B não toca na vitrola, o lado B da sociedade não se manifesta através da mídia. É mudo, calado e, conseqüentemente, pária alienado na sociedade da informação. É o lado ausente das páginas, telas e ondas hertzianas da mídia. Aparece pouco e, quando aparece, outros falam por ele.

Visto o fato, aí nas páginas do seu jornal, sobrevem a questão: que motivos impedem as camadas populares repartirem com a elite o direito à palavra, ao verbo, à opinião, ironicamente chamada pública? Dizem os estudiosos que as razões são muitas, e além de muitas, também múltiplas. Sobre elas, a gente conversa no próximo encontro, aqui mesmo no Semana 3. Por enquanto, vá pensando no termo "direito à palavra" e conferindo a ausência do lado B nas linhas e entrelinhas da mídia.

(Publicado originalmente na edição 24, de junho de 2004, do jornal Semana 3)

Wagner Geribello, maio de 2004

Deu no NYT



Assemelhada ao cão vigia que late por qualquer ruído, avança até contra as sombras, mordendo tudo e todos, a direita, defensora intransigente e intolerante do status quo capitalista, não baixa a guarda, tripudiando de todas as formas qualquer tentativa de mudança social.

Imbuído da idéia de que mudanças não são bem-vindas e que o sistema tem que seguir como está, a todo custo e a qualquer preço, o conservadorismo patrulha cada centímetro do contexto político do planeta, farejando todos os cantos. Ao descobrir a presa (a mais tímida manifestação de alternativas), o cão estica a cauda, fixa o olhar e late, apontando, delatando, acuando. Se a "ameaça" persiste, o bicho morde, dilacera, trucida, garantindo a consolidação, o crescimento e a imutabilidade estrutural da acumulação capitalista globalizada.

Na ponta da coleira estão os países capitalista mais ricos (geralmente designados pelo eufemismo de desenvolvidos), liderados pela patronagem americana. Ao sinal de mudança ou diferenciação a matilha ataca. A razão pode ser religiosa, como acontece com os muçulmanos; independentista, como é o caso do chavismo venezuelano; territorial, como se verifica na Palestina; político, como ocorre em relação a Cuba; ou econômico, como demostra o "affair" iraquiano. Não interessa muito a ordem, as causas, os motivos, os planos, as possibilidades e muito menos os direitos agregados a esses eventos. A leitura é mais simplista: se ameaçam a ordem globalizada, precisam ser extirpados. Cães não raciocinam, reagem instintivamente.

A metáfora canina pode ajudar a entender por que o mais conhecido jornal do planeta, "The New York Times" decidiu compor e publicar artigo sobre hábito e gosto etílicos do presidente brasileiro.
Publicado na página seis da edição de nove de maio passado, o artigo compromete seriamente a imagem do presidente e da nação que ele governa, ao considerar um possível perfil alcoólatra, que poderia afetar seu desempenho.

Passado o espanto, a pergunta que fica é: por que o "NYT" resolveu dedicar espaço e escalar articulista (Larry Rother) para difamar o presidente brasileiro?

O "NYT" é porta-voz do sistema e Lula não faz o tipo esperado e desejado de líder ajustado à ordem vigente. O próprio articulista descreve o presidente brasileiro como esquerdista, que, no jargão político conservador, significa algo/alguém diferente, que está contra o sistema (vide doutrina Bush, expressa com todas as letras: quem não está conosco, está contra nós. Lembram?). Portanto, apesar do bom-mocismo do governo brasileiro, aceitando, entre outras imposições, pagar mais 10 vezes dívidas que por mais de 10 vezes já foram pagas, às custas do desenvolvimento econômico e social do País, Lula da Silva significa potencial de mudança e para Washington isso não é bom, ainda que possível e legal em um sistema democrático.

Outra razão para latir é o prestígio do líder petista em círculos relevantes da política mundial. Isso tem levado a comunidade internacional a considerar o nome de Lula e, por extensão, o Brasil, a participar e mesmo capitanear ações nem sempre interessantes e às vezes contrárias aos interesses do sistema de modo geral e dos norte-americanos em especial. Os exemplos são muitos, mas a manutenção e aproximações do Mercosul com a Europa, as restrições à Alca, as propostas cada vez mais freqüentes nas negociações internacionais de um eixo econômico, tecnológico e científico entre China, Índia e Brasil, aliadas à recente vitória brasileira na OMC contra os Estados Unidos são os que mais assustam os súditos de Bush.

Por fim, políticos de esquerda, sindicalistas, não são bem vistos. É preciso demonstrar para a comunidade internacional que eles não são "gente bem" e que não é bom levá-los à condição de líder. Logo, mesmo que um presidente seja ex-alcoólatra assumido, como é o caso do atual líder americano, ou que beba socialmente... bem, isso não é razão para artigo de jornal. Agora, se o presidente for de esquerda, então é preciso latir.

(Publicado originalmente na edição 23, de maio de 2004, do jornal Semana 3)

Marcelo Träsel, março de 2006

Pato no tucupi



Desde que comprei “Viagem gastronômica através do Brasil”, de Caloca Fernandes (editora Senac, R$ 95), sou fascinado por tucupi. Trata-se de um caldo amarelo-ovo retirado durante a prensagem da mandioca-brava, temperado com chicória, alfavaca e sal. É um tipo de “fugu” brasileiro — aquele peixe que tem veneno nas vísceras e pode matar o cliente do sushi bar se não for preparado por um especialista —, já que a mandioca-brava contém ácido cianídrico. Deve-se confiar que o produtor do tucupi ferveu o caldo pelas horas necessárias para decompor toda a substância venenosa.

O molho resultante é usado na preparação de dois dos pratos mais famosos da culinária do Norte: tacacá e pato no tucupi. Como o colega André “Cardoso” Czarnobai foi a Belém do Pará há algumas semanas, exigi que me trouxesse uma garrafa de contrabando. A idéia inicial era preparar um tacacá, mas infelizmente descobri que é impossível encontrar camarão seco em qualquer ponto do Rio Grande do Sul. Daniel Pellizzari, escritor e amazonense, respondeu da seguinte forma à pergunta “posso substituir camarão seco por fresco?”: “Nunca comi com camarão fresco, mas SEI que fica horrendo só de imaginar”. Ataquemos de pato no tucupi, então.

Outro problema para levar a cabo a empreitada era a inexistência de jambu a menos de 8 mil quilômetros de Porto Alegre. De acordo com o livro, porém, ele pode ser substituído por agrião, embora este não apresente a capacidade de amortecer a boca. O sabor é parecido. Chicória-do-Maranhão foi outra planta impossível de conseguir. No entanto, parece que seu gosto é semelhante ao do coentro, não à chicória tradicional do Sul — o motivo do nome é o formato serrilhado da folha, não o gosto —, então fui de coentro mesmo. Ao menos a alfavaca, ou majericão-de-folha-larga, foi obtida com uma simples visita ao supermercado. O pato veio da granja da minha avó. Espero que não fosse o pato preferido de nenhum dos meus priminhos.

A receita de Caloca Fernandes é a seguinte:
— um pato novo de mais ou menos 1,5 kg
— 4 xícaras de tucupi
— 4 dentes de alho amassados
— 4 colheres de sopa de azeite de oliva
— folhas de jambu, chicória e alfavaca
— sal e pimenta do reino

A autora diz para cortar o pato em pedaços na véspera e temperar com o azeite, o alho, o sal e a pimenta. Como ele ainda estava congelado e eu não acredito muito nessas vinhas d’alho de um dia para o outro, fiz isso umas duas horas antes de cozinhar. Depois, assa-se o pato por 40 minutos no forno a 180°C, ou até dourar. Os pedaços da ave são então transferidos para uma panela, regados com o tucupi e cozidos até ficarem macios junto com as folhas de jambu, chicória e alfavaca. Como disse, usei agrião e coentro no lugar das duas primeiras. Aliás, nunca havia presenciado em todo seu fedor um maço de coentro fresco. Até esta ocasião, havia usado somente os grãos. Rezei para que o gosto da erva não fosse parecido com o odor. Imaginem o que deve ser essa tal chicória deles, cujo nome científico é “Eryngium foetidum”.

Cozinhei por mais uns 45 minutos. Quando pronto, deve-se dispor os pedaços de pato em uma sopeira ou forma, espalhar folhas frescas de jambu por cima dele e regar tudo com o tucupi quente, cheio de gordura de pato e do sabor dos outros temperos. A s folhas usadas no cozimento devem ser descartadas. Os acompanhamentos indicados são arroz branco, farinha de mandioca e pimenta.

Francamente, não levei muita fé enquanto preparava o cozido. Aquelas folhas todas tinham odores e sabores estranhos. O tucupi não lembra nada que se conheça aqui no Sul. O cheiro mais aproximado em que consegui pensar foi maracujá. Não errei muito: o sabor é cítrico e lembra um pouco frutas como maracujá, limão e cupuaçu. E é bom. Muito bom. A primeira bocada do pato foi decepcionante, porque o tucupi não tomou conta do sabor — o que, aliás, é uma qualidade da receita: pato tem de ter gosto de pato, apenas com um fundo dos temperos. O molho resultante, porém, apresentou um gosto totalmente novo para mim. Difícil parar de comê-lo misturado ao arroz e à farinha de mandioca, com bastante pimenta vermelha. O próprio agrião, ingrediente que vi com mais reticência, acentua os sabores do tucupi e o pato.

Sei que ficou bom, mas não sei é se ficou parecido com o que deveria. É o problema de tentar pratos que nunca se provou.

(Publicado originalmente na edição 37, de março de 2006, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, dezembro de 2005

Colher de prata



A editora norte-americana Phaidon gentilmente me enviou uma cópia de “The silver spoon”, seu novo livro de receitas. Diz o release que se trata de uma das obras sobre culinária de maior sucesso na Itália, “finalmente traduzida para o inglês”. É um calhamaço com 1200 páginas e duas mil receitas de todo tipo. Dado o seu tamanho, está com um preço bem em conta: R$ 126 na Livraria Cultura, ou US$ 26,37 na Amazon. Claro que, por este preço, tem poucas fotos e essas poucas são de má qualidade. Ainda assim, a capa é bonita o suficiente para quem compra livros de gastronomia apenas para decorar a mesa de centro da sala ficar satisfeito.

É um bom livro para se ter como referência. Se fosse iniciar uma biblioteca culinária, seria um ótimo começo. Há receitas do absurdamente simples ao ridiculamente complexo e demora um tempo considerável testar todas as duas mil. Além disso, você tem um tipo de dicionário de pratos e ingredientes à mão, bem como de técnicas culinárias. As páginas finais trazem menus especialmente preparados por cozinheiros italianos famosos.

Livros como este são bons, porque você checa a geladeira para ver o que tem e depois procura uma receita com aqueles ingredientes. Há várias seções que explicam técnicas básicas de cozimento e preparação, bem como um glossário. Enfim, tudo o que um iniciante e até gente experiente em cozinha precisa. Ainda por cima, sai bem mais barato que a “Larousse gastronomique”.

Uma advertência: não sei até que ponto a culinária apresentada é tradicional. Há muitas receitas com ingredientes como curry. Em uma obra com esse tamanho fica difícil não incluir coisas menos, digamos, autênticas. É certamente uma culinária internacional, mas sob um viés italiano, o que já garante uma boa diferença.

Mas vamos ao que interessa: testar as receitas. Foi difícil escolher uma entre duas mil. Precisava de algum critério de aferição, até porque não sou especialista em comida italiana. Porém, faço um espaguete à carbonara considerado muito bom; já comi o prato em Roma, onde foi inventado; e trata-se de um dos mais famosos molhos italianos, presentes no cardápio de qualquer cantina que se preze. Os ingredientes são relativamente fáceis de conseguir no Brasil e nem tão caros. Era a escolha perfeita.

Exceto que foi impossível encontrar pancetta, mesmo no mercado público, onde se vende desde caviar até pipoca para macumba. Não sejamos anal-retentivos: usei um pedaço de bacon com bastante gordura, mesmo. Não-defumado, evidente. Segue a receita:

SPAGHETTI ALLA CARBONARA
— 25g de manteiga
— 100g de pancetta
— 1 dente de alho inteiro
— 350g de espaguete
— 2 ovos batidos
— 40g de queijo parmesão ralado na hora
— 40g de queijo pecorino (isto é, de ovelha) ralado na hora
— Sal e muita, muita pimenta-do-reino

Antes de mais nada, cozinhe o espaguete “al dente”. Derreta a manteiga em uma panela ou frigideira grande, adicione a pancetta — ou bacon — e o alho e refogue até que este último comece a escurecer. Retire o dente de alho e jogue fora. Jogue a massa na panela e misture com a pancetta. Apague o fogo, derrame os ovos batidos por cima e junte metade dos queijos. Salpique a pimenta, de preferência moída na hora. Mexa muito bem, de modo que os ovos façam uma capa sobre a massa. Coloque o resto do queijo, mexa de novo e sirva. Salgue apenas no prato, pois o queijo parmesão tem muito sal.

Agora, eu sempre tive orgulho de minha carbonara, que segue uma receita do Silvio Lancelotti. Modéstia à parte, é melhor do que a que experimentei em Roma. A principal diferença é que leva um pouco de nata junto com os ovos — o que, segundo minha pesquisa, não existe na receita original. A idéia do alho também não conhecia.

Pois bem: a receita do “Silver Spoon” resultou na melhor carbonara que já comi. O livro está aprovado com louvor. Dez com estrelinha. Podem comprar.

(Publicado originalmente na edição 36, de dezembro de 2005, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, novembro de 2005

Porcarias favoritas



Dando certo prosseguimento à coluna anterior, aproveito o espaço deste mês para falar de minhas “junk foods” favoritas. Em primeiro lugar nas paradas, ao menos em termos de freqüência, está — tirem as crianças da sala! — o tão amado quanto odiado miojo.

Sim, senhores: eu gosto de miojo. Sim, senhoras: eu como miojo mais de uma vez por semana. A grande vantagem é a comodidade. Nem sempre se está disposto a gastar uma hora no fogão, sem falar em mais ou menos 20 minutos lavando a louça depois. O “rámen” necessita apenas uma tigela, água da torneira e cinco minutos no forno de micro-ondas para ficar pronto. Sem falar que pode ser comprado por menos de R$ 0,70 o pacote. O sabor é... Adequado.

Como acontece com todo produto massificado — sem trocadilho —, é quase impossível não gostar de Nissin Lámen. As corporações fazem testes e mais testes até chegar a algo que agrade à maioria dos paladares. Como as novelas da televisão. Se você assiste a uma novelinha de vez em quando, por que não comer Miojo, ou, aliás, qualquer outro tipo de “junk-food”?

O produto da Nissin nem fica tão molenga se você respeitar o tempo de cozimento; as outras marcas são todas uma droga. Adicionando-se um pouco de salsinha picada ou cenoura em rodelas o sabor ganha outra dimensão. Os melhores são os mais simples: “carne” e “galinha”. A versão “churrasco” é muito boa, não deixa aquele retrogosto de molho “barbecue” por semanas, efeito aliás típico da batata frita Ruffles de mesmo sabor. Estranhamente, o sabor “picanha grelhada”, que prometia ser melhor ainda, é só razoável. “Calabresa” e “bacon” convencem bastante. Por outro lado, o miojo “camarão” deveria ser banido pela Convenção de Genebra. Provavelmente atinge a quota de sal indicada para um ser humano durante uma semana inteira.

Já que tocamos no assunto, passemos às batatinhas. A Ruffles “cebola e salsa” é muito boa. Recentemente lançaram a versão “salame”, um tanto decepcionante, mas que ainda assim vale uma provinha. A Elma Chips se superou, entretanto, com a linha Sensações. As batatinhas sabor “peito de peru” têm mesmo gosto de peito de peru! Sério, é inacreditável. As de “queijo” são bem suaves, coisa rara quando se lida com esse tipo de ingrediente, e a versão “tomates secos” é bastante razoável. Excelente mesmo é o sabor “frango à passarinho”, bem apimentado e, incrivelmente, com gosto igual ao do petisco de botecos. No entanto, o camarão parece mesmo ser o nêmesis da indústria: sente-se apenas o gosto de limão e sal na Sensações “espetinho de camarão”.

A rainha de todas as batatinhas, porém, é a Pringles. Dizem até que há ingredientes transgênicos dentro. Dane-se. São muito boas. Muito sequinhas e crocantes. “Sour cream and onion” [coalhada com cebola] e “hot” [apimentada] quase justificam os horrores perpetrados pela massificação ao redor do mundo. Infelizmente aqui não se vendem as versões “curry” e “salt and vinegar” [sal e vinagre], ainda melhores. A versão “Texas barbecue sauce” [molho de churrasco texano], ao contrário da Ruffles, não deixa um sabor nauseabundo a semana inteira em sua boca. É meio doce demais, mas até aí respeita o ingrediente inspirador.

O Cheeto’s, que agora é assado, acertou em cheio com o sabor “batata frita com ketchup”. Já o sabor “cheeseburguer” é muito salgado nas rodelinhas que imitam hambúrgueres — sem falar que não há número suficiente de pães para embrulhar os hambúrgueres, como proposto na embalagem. Um salgadinho um tanto subestimado é o Doritos: a versão “original” e a versão “queijo nachos” são excelentes. Ainda mais com um molho de guacamole feito em casa. Recentemente tive contato com chips de mandioca. São caros e ainda difíceis de achar, mas têm futuro promissor, se houver investimento em publicidade.

Vocês, paulistas, ainda têm a sorte do acesso fácil aos deliciosos Okaki: salgadinhos de arroz nos sabores “apimentado”, “alga marinha” e “gergelim”. O primeiro é, de longe, o melhor. Chega a queimar as vias digestivas, se você ingeri-lo com o estômago vazio. Ainda graças aos imigrantes japoneses, podem contar com as ervilhas com wasabi. Estas são, definitivamente, o ápice, o supra-sumo, a quintessência da junk-food. Há ainda o sanduíche de pernil, lanche saudável e gostoso, inexistente no Rio Grande do Sul.

Por outro lado, não podem comer um autêntico “xis” gaúcho em qualquer esquina. Estrangeiros costumam ficar apavorados com o tamanho de nossos lanches. Em geral, têm diâmetro de cerca de 20 centímetros. Meu favorito é o “xis-bacon acebolado” em uma certa birosca de Porto Alegre. Quando em viagem ao sul, no entanto, sugiro que provem o “xis-coração de galinha”, típico dos pampas.

(Publicado originalmente na edição 35, de novembro de 2005, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, outubro de 2005

O gourmet parvenu



Ao contrário do que muita gente possa pensar, supostos gourmets não costumam ser gourmets o tempo todo. Se algum conhecido seu fizer questão de demonstrar seus conhecimentos gastronômicos mesmo em uma praça de alimentação de shopping center, trata-se não de um discípulo de Brillat-Savarin, mas de um esnobe novo-rico, ou, para nos mantermos dentro da francofilia que permeia o mundo da cozinha, de um “gourmet parvenu”. Os maiores representantes da classe são os enólogos de fim de semana, discípulos de Parker, que desmontei na última coluna.

Um bom modelo para os gourmets − e de resto para todos os homens de bem − é o tradicional cavalheiro britânico. Os gentis-homens de Sua Majestade têm mente cultivada, bom-gosto e refinamento, mas sabem o momento de aplicar tudo isso. De uma maneira geral, evitam constranger os mortais comuns exibindo seus atributos e abominam ser inoportunos. Diz-se que um verdadeiro gentil-homem deixa seu mordomo gastar os sapatos novos antes de começar a usá-los, para evitar o risco de ser tomado por um novo-rico perdulário. Dicas sobre onde comprar cartolas e bengalas podem ser obtidas com o colega de Semana 3 Alexandre Soares Silva.

Voltando à vaca-fria, há hora para elogiar a crocância das ovas de salmão, e há hora para se atirar em um miojão sabor picanha grelhada com tubaína de groselha. Mesmo o messias culinário francês Joel Robuchon já deve ter comido pão com cassoulet ao meio-dia de um domingo modorrento. Exigir de um cozinheiro ser gourmet em tempo integral é como esperar de um contador que se divirta fazendo a declaração de Imposto de Renda dos vizinhos no tempo livre. Nada mais chato do que ser gastrônomo o tempo inteiro. Estraga programas coletivos ao negar-se a comer “um mero xis-salada”, ou perde um dia de sol na praia cozinhando algo digno de sua habilidade culinária.

Existe, é claro, o aspecto sanitário da coisa. Restaurantes de beira de estrada podem negligenciar alguns preceitos básicos de higiene, sobretudo no armazenamento de carnes e controle de pestes. A afirmação de que isso não acontece em casas de alto nível, entretanto, é bastante discutível − “discutível” porque não fica bem a um gentil-homem dizer que dá tudo no mesmo, como mostra, por exemplo, o rude Anthony Bourdain em “Cozinha Confidencial” [Cia. das Letras, absurdos R$ 51,50]. De qualquer modo, algumas bactérias, vermes e fungos passeando pelo corpo costumam ser saudáveis, já que ajudam o sistema imune a se exercitar. Pesquisas indicam, inclusive, que gente muito limpinha tem maior tendência a adquirir síndromes auto-imunes.

De fato, uma das melhores refeições que já comi foi em um posto de gasolina no noroeste do Rio Grande do Sul, perto de Frederico Westphalen. Ofereciam um queijo cru produzido ali perto, com aquele insubstituível ranço de granja. Os ovos eram do galinheiro do proprietário do restaurante. Os bifes, frescos e macios. Para acompanhar, salada de batatas caseira e conservas de pepino e cebola também feitas no local. Comida que atinge os principais critérios da gastronomia contemporânea: frescor e domínio do ingrediente principal no sabor. Mas um “parvenu” torceria o nariz, fosse pela aparente simplicidade, fosse pelo medo de salmonelas.

Outra característica marcante deste grupo social é a tendência a estragar a comida através do “barroquismo culinário”. Acreditam que, quanto mais ingredientes sofisticados tiver, melhor fica um prato. Certa vez, em um churrasco, um sujeito arruinou um suculento pedaço de carne de búfalo, que não pedia nada além de sal, com vinho tinto em excesso. Ainda por cima, vinho de quinta categoria. Colocar todos os legumes da geladeira em uma omelete, submergir qualquer cozido em creme de leite e misturar todos os temperos da despensa são também comportamentos típicos.

***

Animado pela experiência com esta coluna — ou seria envaidecido? —, resolvi criar um blog culinário na comunidade insanus.org, onde já hospedo o meu “Martelada” [www.insanus.org/martelada]. Chama-se “Garfada” e é um projeto coletivo. Pretendemos fazer crítica gastronômica de verdade e discutir receitas e técnicas. O endereço é: www.insanus.org/garfada.

(Publicado originalmente na edição 34, de outubro de 2005, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, ago/set de 2005

De vinhos e biologia



Hoje em dia se diz muita bobagem sobre vinho. Especialistas como Robert Parker e diletantes oriundos de degustações de fim de semana não podem tomar uma taça sem encontrar traços de frutas vermelhas — talvez porque uva seja uma fruta vermelha... —, madeiras diversas, raposa, asfalto e até conchas quebradas. Bem, este colunista tem um alívio para quem nunca concorda com estes sujeitos: é simplesmente impossível, biológica e epistemologicamente, concordar com o gosto de alguém.

Uma leitura de “A árvore do conhecimento” [Palas Athena, R$ 44], dos chilenos Maturana e Varela, ajuda a esclarecer as coisas. Os dois biólogos tentam na obra estabelecer as bases biológicas do conhecimento humano. Os meandros da teorização são complexos e não interessam muito aqui nesta revista dedicada ao espairecimento. Basta saber: o que chamamos de “comportamento” de um organismo é a manutenção de correlações internas. O sistema nervoso não sabe que está caminhando, limita-se a manter certo nível de tensão muscular, de acordo com as informações sobre a posição do corpo no espaço e resistência do solo enviadas pelos cinco sentidos. Pois bem. Acontece que, como cada ser vivo cresce e organiza seu sistema nervoso de maneira diferente, porque é submetido a estímulos diferentes, sua “estrutura” está preparada para interpretar as sensações de uma maneira específica a ele e somente a ele.

Ora, tudo o que “sentimos”, sentimos apenas na mente. Nossos olhos, nariz, boca e ouvidos não sentem nada, apenas enviam sinais elétricos que são interpretados no cérebro. O mesmo cérebro que foi estruturado de acordo com nossa história de vida única, de modo que só pode interpretar as sensações à sua maneira única. Em outras palavras: ninguém pode sentir o mesmo gosto que outra pessoa sente ao tomar um vinho.

É óbvio que existe um mínimo denominador comum. Afinal, comemos as mesmas coisas que nossos concidadãos comem durante uma vida inteira, então aprendemos o que é gosto de abóbora, cor de ameixa, cheiro de abacaxi e tudo o mais. Mas a partir do momento em que se entra no sabor de asfalto derretido ou de cerejas crocantes, bem, aí é cada um por si, meu caro!

Nada surpreendente que Lawrence Osborne chegue à mesma conclusão em seu excelente “O connaisseur acidental” [Intrínseca, R$ 39]. O jornalista viaja pelos principais centros produtores de vinho e visita as principais vinícolas, para descobrir o que define um bom vinho e de onde vêm as associações mentais piradas de Robert Parker. Osborne inclui em cada parágrafo goles do melhor humor britânico e não poupa nem a si mesmo, fazendo pouco de suas próprias habilidades degustativas sempre que pode.

Lá pelas tantas, ao experimentar um vinho cujo nome infelizmente não posso reproduzir aqui, já que esqueci de sublinhar a passagem, sente que o líquido tem o sabor da biblioteca de seu pai. Com o detalhe de que seu pai jamais teve uma. Mas por que o vinho não poderia lhe causar essa sensação? Não será esse o papel do vinho, bem como de qualquer obra de arte: evocar imagens que não existem? Em todo caso, foi o único durante a tal degustação a associar o sabor com uma biblioteca paterna. A sensação era dele e apenas dele.

Como o gosto não é e não pode ser universal, o que define a posição de um vinho nas listas de revistas especializadas e connaisseurs, mostra Osborne, é um misto de marketing e às vezes qualidade. Há vinhos tão bons quanto o Lafite por aí, mas nem todos têm a família Rothschild por trás. Como coloca o autor, pagar 600 dólares por uma garrafa não passa de um ato de superstição. Ou, nas palavras do vinhateiro californiano Bill Cadman, “os ricos gostam que lhes digam do que eles devem gostar”.

Evidentemente, como acontece com outros alimentos, há um mínimo denominador comum no mundo dos vinhos. Um processo cuidadoso de fermentação, um terroir que traga características interessantes à bebida, barris de madeiras nobres, que adicionem ao sabor. Mas a partir deste mínimo denominador comum é cada um por si. E aí, meu caro, só passam a existir dois tipos de vinho: aqueles dos quais você gosta, e os que considera ruins.

(Publicado originalmente na edição 33, de ago/set de 2005, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, julho de 2005

Arigatô, Sakamoto



Não poderia deixar a meca gastronômica do país sem provar os sushis de Jun Sakamoto. Há um par de anos entrevistei o chef para uma matéria a respeito das relações entre arte e culinária. Pareceu realmente sério quanto a seu trabalho, algo raro quando até churrascarias rodízio servem sushi. Ia sair caro, é certo. Mas sou entusiasta da cozinha japonesa tanto quanto da francesa. A idéia de comer um nigiri de atum com foie-gras foi irresistível.

Foi absolutamente necessário fazer reservas, já que é bastante pequeno — outro bom sinal. O ambiente é relaxado e moderno. Provavelmente tem o dedo do arquiteto Sakamoto, que após a faculdade passou alguns anos em Nova York e, de volta ao Brasil, foi aprendiz e substituto após a morte do sushiman no Komazushi, anteriormente o melhor restaurante japonês da paulicéia.

Humilde, Sakamoto disse em 2003 à revista “Aplauso”, de Porto Alegre, que não se considerava ainda um sushiman completo: “Nenhum artista está pronto. Até o último dia da vida dele, até o último momento que ele pratica esta arte, está em evolução”. Sofisticado, ele enxerga aberrações como o sushi com coco ou com chocolate com, para usar um eufemismo, certo ceticismo. “Não altero, eu acrescento. Para acrescentar, preciso saber muito bem o que pode ser acrescentado. Tem muita coisa que, se você usar, vai ficar errado”, alerta Sakamoto.

E ele não decepciona. O couvert era um cozido de linguado envolto em massa, como um norimaki, sobre cogumelos shimeji refogados. Como entrada, harumaki [rolinho primavera] recheado com confit de pato e molho de vinho do porto. Neste ponto a competência do sushiman já estava provada. É preciso muito talento para ver pontos de intersecção entre a culinária francesa e a japonesa. Misturar duas culturas completamente diferentes é pura arte.

Após, ao sushi. Pedi quatro nigiri de atum com foie-gras, dois de lula com um sal francês especial — creio que fleur de sel — dois de enguia, mais um norimaki de ouriço, um de água-viva e outro com pequenos peixinhos, parecidos com brotos de feijão. Tudo impecável. A alga que envolve o arroz e o peixe é crocante. O arroz tem sabor marcante, mas suave. O nigiri de atum, que leva o foie-gras como substituto do “o-toro”, a rara gordura do peixe, é como um koan: tem sabor aparentemente simples, mas há algo lá, algo que faz o sujeito parar seus pensamentos enquanto sente o peixe se desmanchar sobre a língua e pode levar a uma epifania. O dos peixinhos era o menos interessante.

Com isso, já teria de passar um mês inteiro sem tomar cerveja ou ir ao cinema, mas ainda assim decidi pedir outra leva de sushi. Quem precisa de luz em casa, afinal? Felizmente tive autocontrole suficiente para não provar o sashimi de magret de canard [filé de peito de pato]. Pedi norimakis com alguns outros peixes, como o olho de boi, e novamente um nigiri de lula e outro de enguia. Estes novos peixes não eram tão surpreendentes, mas o nigiri de salmão com limão siciliano é muito diferente dos nigiris de salmão servidos em restaurantes normais, garantiu minha acompanhante.

Teria pedido mais sushi, se a minha conta já não estivesse em R$ 110. O que, creiam, não é caro. Não se consegue ouriço e água viva utilizáveis, assim, em qualquer supermercado. Foie-gras é importado da França, e caríssimo mesmo lá. Acima do preço é o couvert, por cerca de R$ 18, e a água, por R$ 8. A dose de sakê não sai por menos de R$ 8. Os sushis mais caros, no entanto, são os nigiris de o-toro ou com foie-gras e saem por R$ 7, um preço justíssimo. Creio que Sakamoto tira seu lucro na bebida.

Cabe ainda um grande elogio aos garçons. Há quase uma pessoa para cada mesa e todos eles conhecem muito bem os pratos. Explicam com grande precisão qual é o sabor de cada um e respondem honestamente quando o cliente pergunta se eles próprios gostam. São perceptivos quanto à personalidade dos comensais. Meu garçom logo notou que eu estava lá para provar pratos desconhecidos e me ajudou a montar o menu. Ao mesmo tempo, não tentam empurrar nada. De maneira que o cliente pode degustar a comida com a atenção que Sakamoto merece.

Jun Sakamoto – R. Lisboa, 55, São Paulo (SP) fone: (11) 3088-6019

(Publicado originalmente na edição 32, de julho de 2005, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, junho de 2005

Impressões de São Paulo



Passei uma semana em São Paulo, capital, visitando amigos e cuidando de alguns assuntos pessoais. Como tinha certo tempo livre, aproveitei para tentar provar o máximo de novidades culinárias — gastando o mínimo de dinheiro possível, já que sou um miserável bolsista do mestrado em comunicação da UFRGS.

Algo que sempre me impressionou é o profissionalismo dos funcionários nas cozinhas paulistanas. Mesmo os botecos de quinta categoria mostram cuidado em utilizar bons ingredientes e, por exemplo, montar um cheeseburger de maneira impecável. Aqui em Porto Alegre há uma relação direta entre o preço do lanche e a avacalhação em sua preparação. Um possível motivo seria o fato de haver centenas de padarias e lanchonetes em cada quadra de São Paulo e milhares de pessoas de olho no emprego do chapista. Talvez o livre mercado funcione mesmo.

A primeira experiência foi na feira dominical da Liberdade. O cheiro de yakissoba domina o ar local — e suas roupas, por dias a fio. Mas a comida preparada nas barraquinhas compensa. Na Liberdade se pode averiguar a miscigenação brasileira: nordestinos e sulistas dividem o trabalho com japoneses, coreanos e chineses nas barraquinhas. O acarajé e o sushi compartilham o mesmo espaço. Aí está uma convivência difícil de encontrar em qualquer lugar do mundo.

Os bolinhos tako-yaki da banca de Emiko Naraki foram a melhor descoberta. São bolotas de farinha misturada com água ou algum caldo e recheadas com pedaços de polvo [tako]. Por cima, é espalhado um molho espesso à base de shoyu e depois peixe ralado. Não são fritos, mas grelhados com perícia pelos cozinheiros em formas com moldes esféricos. Apesar de levarem polvo no nome, os tako-yaki podem ser feitos com camarão também. A bandeja com seis custa R$ 6. Outras boas opções no local são o pão chinês recheado e o guiozá da banca de Yoko Nakamura.

O Ponto Chic, uma das lancherias mais famosas da cidade, lar do bauru original, foi a parada seguinte. O sanduíche foi inventado quando um cliente assíduo, cujo apelido era Bauru, pediu que o cozinheiro abrisse um pão francês e recheasse com rosbife, queijo e tomate. Os queijos prato, suíço, estepe e gouda derretidos juntos na manteiga tomam uma textura consistente e contrastam com o rosbife frio. Como há pouco molho, o pão fica crocante, mas ainda assim úmido pelo tomate e pelo pepino em conserva. O Ponto Chic receberia dez com uma estrelinha, se as batatas fritas, apesar de secas, não viessem com um sabor de óleo velho. O bauru é um tanto caro, também: R$ 9.

Outro acepipe excelente é o sanduíche de pernil da Lanchonete Estadão. Assim como o bauru do Ponto Chic, o sucesso se deve à simplicidade. Os pernis são assados apenas com sal. Num pão francês fresquinho, o cozinheiro passa um vinagrete de cebola e pimentão com molho de tomate e coloca diversas fatias da carne. A harmonização é perfeita, já que nenhum dos dois ingredientes é temperado a ponto de ofuscar o outro. E custa apenas R$ 5.

No nível médio de preços e seguindo a exploração das etnias que compõem São Paulo, o restaurante libanês Halim foi outra grande descoberta. Considerava os restaurantes árabes de Porto Alegre bastante bons, até provar a comida de lá. É muito diferente. É muito melhor. O tabule, por exemplo, leva muito mais salsa do tomate ou trigo. O falafel leva favas, além do grão de bico, e é bem sequinho e crocante, acompanhado de um molho picante com tahine. Já o uzi, um bolo recheado com arroz e carne de carneiro, nunca havia encontrado em um cardápio da capital gaúcha. Pela janelinha da cozinha, pode-se ver que há somente libaneses trabalhando, o que é bom sinal. Os pratos giram em torno de R$ 12, ou pode-se pedir um rodízio por R$ 35. Fica na rua dr. Rafael de Barros, 64, perto da estação Paraíso.

Na parte seguinte do relato gastronômico de São Paulo, uma visita ao restaurante de Jun Sakamoto. Não percam o próximo capítulo desta emocionante saga!

LINKS
www.estadaolanches.com.br
www.pontochic.com.br
www.feiradaliberdade.com.br

(Publicado originalmente na edição 31, de junho de 2005, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, maio de 2005

A nova religião



Já fui vegetariano. Por quatro longos anos, em grau maior ou menor, evitei carne, açúcar e cereais refinados. Houve épocas em que não comia feijão se houvesse algum toucinho boiando nele. Em outras, aceitava um pedaço de peixe — frango, não, evidentemente, pois como todo bom natureba sabe, eles são cheios de hormônios. Alguns hábitos mantenho até hoje: prefiro sempre o arroz integral, procuro não me entupir de carne todos os dias e nunca mais tomei um refrigerante.

Minha saúde não melhorou em nada entre os 16 e os 20 anos, de modo que aos poucos fui deixando para trás os dogmas naturalistas. O principal motivo, entretanto, foi uma vontade incontrolável de voltar a ter prazer à mesa. Posso sentir as sobrancelhas dos vegetarianos se erguerem enquanto lêem a frase anterior, preparando veementes protestos. Dirão que basta aprender a cozinhar de outra forma, que é possível adaptar quase todos os pratos, que pode-se descobrir novos prazeres etc. etc. etc.

É tudo verdade. Arroz integral tem um sabor muito melhor do que o branco — aliás, tem sabor, ponto. Não troco um bom suflê de espinafre por picanha alguma. Os pratos com carne são, afinal, uma minoria no universo culinário. Não obstante, fazem falta. Especialmente quando se é um projeto de gourmet que, se peca por falta de conhecimento, tem curiosidade de sobra por novos sabores. Não poder provar uma receita desconhecida, só porque tinha carne, causava sofrimento demais.

Vamos ser francos: naturebas não gostam de comida. Está certo que boa parte de nossos gostos têm base em fatores culturais, então teoricamente podem ser modificados com algum esforço pessoal. Mas modificar o gosto para restringi-lo é uma atitude cristã em relação à comida, na pior acepção do adjetivo. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, além de preencher o atestado de óbito de Deus, provou que o cristianismo está fundado em um ideal ascético ressentido e anal-retentivo. O vegetarianismo — e, sejamos justos, qualquer auto-restrição alimentar, como dietas, fobias e frescuras em geral — não passa de uma aplicação deste ascetismo a um dos maiores prazeres que um homem pode ter. Não à toa, a gula é um dos sete pecados capitais.

Desfazer-se de todos os prazeres gourmandes em prol de uma saúde melhor e alguns anos a mais de vida na velhice exige uma boa dose de fé. Nenhum estudo até hoje comprova que vegetarianos vivem mais e melhor. A experiência empírica tampouco o faz. Meu bisavô comia uma lingüiça inteira com meia garrafa de cachaça antes do almoço e morreu dentro da média nacional de idade para a época. A diferença é que naqueles anos, as pessoas, se abusavam à mesa, faziam muito mais exercício nas tarefas do cotidiano. Os estudos médicos condenam a carne vermelha e as gorduras saturadas, mas esquecem de contextualizar as recomendações e terminam por provocar uma histeria alimentar inútil.

Carne vermelha e gorduras são ruins para gente sedentária que se entope de ovos, bacon e hambúrgueres todos os dias. A não ser em caso de certas doenças, não fazem mal algum se ingeridos com parcimônia e junto a uma variedade de frutas e vegetais. Ninguém precisa, afinal, comer costelinha de porco assada todos os dias. O importante é variar.

Suponhamos, entretanto, que realmente uma alimentação natural e vegetariana garanta alguns anos a mais de vida. Para quê? Para que diabos alguém quer viver cinco anos a mais torturando-se à mesa três vezes por dia? Qual a graça nisso? Só mesmo uma firme crença na redenção pelo ascetismo pode explicar algo do gênero.

Se é para ter uma atitude religiosa em relação à comida, tenhamos então uma atitude budista: trilhemos o caminho do meio, nem condescendendo com o epicurismo mais inconsciente, muito menos punindo-nos com a adesão a um ideal ascético. Aceitemos de coração aberto toda a experiência que o mundo nos oferece.

***

Errata: na receita de tira-gosto de berinjelas publicada na edição anterior, o colunista, pouco afeito a vinagre, teve um lapso deveras suspeito e esqueceu-se de acrescentar uma colher de sopa de aceto balsâmico ao antepasto, no mesmo momento em que os temperos são jogados na panela. Lamentamos qualquer inconveniência causada pela falha.

(Publicado originalmente na edição 30, de maio de 2005, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, mar/abr de 2005

Antepasto mafioso



Um dos meus antipasti favoritos é a caponata. Trata-se de um refogado de berinjelas com tomates puxado no alho e no pimentão, temperado no mais das vezes com alcaparras e filezinhos de anchova. Há algumas variações, que podem incluir ou não doses generosas de vinagre, a desidratação da leguminosa antes do preparo, ou uvas-passas brancas.

O nome caponata pode enganar o lingüista mais afoito. Sugere logo ter algo a ver com capo, o nome dado aos chefões mafiosos. A popularidade do aperitivo na Sicília só reforça a tese oriunda do senso comum. Mas o historiador da culinária mediterrânea Clifford A. Wright posiciona o berço da receita na Catalunha.

Para ele, o nome vem do catalão capón de galera, nome de um gazpacho - muito parecido com a caponata - servido a bordo de navios espanhóis. O vinagre age como conservante, tornando-o um alimento conveniente em alto mar. Outra possibilidade citada por Wright é a receita ter origem na palavra latina caupo [taverna], onde a cauponae [ou “comida de boteco para viajantes”] era servida.

Seja como for, a caponata acabou chegando à Sicília e certamente o capo dei capi em pessoa é um fã. Mais sobre a conserva em questão e outros pratos italianos pode ser lido em inglês no endereço www.cliffordawright.com.

A verdadeira caponata leva, como dissemos, vinagre e ainda muito sal, tornando-a bastante azeda. Minha mãe odeia coisas azedas e certa vez ficou sabendo que era possível adaptar a receita e usar menos destes ingredientes, o que a deixa bem mais suave – embora um siciliano pudesse discutir se continua ou não sendo caponata. Como não pretendo ser perseguido por uma Mercedes negra toda vez que sair de casa, passarei a chamá-la

TIRA-GOSTO DE BERINJELAS À CRISTINA RUSCHEL
- 4 berinjelas médias
- 2 pimentões vermelhos ou amarelos
- 1 cabeça de alho (no mínimo)
- Entre 50 e 100g de uvas-passas brancas
- 1 vidro de azeitona em conserva fatiada
- Azeite de oliva extra virgem
- 1 colher de sopa de aceto balsâmico
- Orégano
- Aji-no-moto
- Sal

Descasque as berinjelas e corte-as em fatias finas na forma de meia lua. Corte os pimentões em tirinhas. Fatie o alho, bem fininho. Escolha uma panela com mais de 30 centímetros de diâmetro. Cubra o fundo com o azeite, em uma porção bem generosa. Refogue o alho, tomando muito cuidado para não queimar. Acrescente as berinjelas, mexa bem e deixe cozinhar por alguns minutos.

Se suas fatias de pimentão tiverem mais de 4 milímetros, coloque-as na panela assim que a berinjela começar a escurecer. Caso sejam mais finas, espere elas cozinharem mais, ou o pimentão desaparecerá, causando prejuízos ao aspecto do prato. Acrescente orégano a gosto, mas não menos de 3 colheres de sopa, pelo menos uma colher de sopa de aji-no-moto e a colher de sopa de aceto balsâmico. Não deixe de mexer freqüentemente.

Caso o cozido comece a secar, use um pouco da água das azeitonas. Quando as berinjelas tiverem se tornado uma pasta, é o momento de adicionar as azeitonas, junto com a água da conserva e as uvas-passas. Desligue o fogo e deixe a panela tampada, abafando a caponata, até que esfrie. Então prove novamente e acrescente sal e orégano, se achar necessário. Depois guarde a conserva em potes de vidro, de preferência com boca larga, e cubra com um dedo de azeite, para evitar oxidação e fungos. À medida em que for usando, é recomendável manter o nível do azeite. Leve à geladeira.

A caponata pode ser comida pura, como acompanhamento, ou servida na forma de antepasto, com pão branco. A melhor combinação seria um pão italiano bem fresquinho.

***

O homem que comeu de tudo, Jeffrey Steingarten, volta a atacar os preconceitos alimentares e o febeapá gastronômico em “Deve ter sido alguma coisa que eu comi”, uma nova coletânea de artigos publicados originalmente na revista “Vogue” norte-americana. Entre outras coisas, redime o glutamato monossódico de qualquer ameaça à saúde, ensina a fazer o melhor café expresso, testa os diferentes tipos de sal e até mesmo cozinha para seu cachorro. O preço colocado pela Companhia das Letras é que ficou salgado: R$ 58.

NOTA DA REDAÇÃO
Semana 3 agradece a gentileza da pasticeria Primi Piatti em preparar a caponata, seguindo a receita, para a foto que ilustra a coluna. A Primi Piatti fica na av. Albino J. B. de Oliveira, 1.801 – fone: 3289-3434.

(Publicado originalmente na edição 29, de mar/abr de 2005, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, fevereiro de 2005

Em favor do cigarro



Em minha casa, desde sempre as visitas fumantes são obrigadas a se retirar para a sacada. Mesmo no mais frio inverno gaúcho. Meus tios por parte de pai patrulham diariamente minha única tia fumante. No outro lado da família, tampouco há viciados em tabaco — embora alguns dêem suas baforadas ocasionais. A fumaça e o cheiro de cigarros sempre me incomodaram. Até passar um maio gelado e chuvoso em uma pensão velha e suja de Toulouse, França.

No meu quartinho de paredes amarelo-azuladas (azul mofo), sentava à mesa descascada e bebia vinho com meus amigos ácaros. Toda noite, até dar sono e me convencer de que assim não podia continuar. Tabaco, ótimo substituto. Não dá ressaca, permite ir à aula de francês no outro dia e ainda ajuda a poupar um euro para cada cafézinho que eu tomaria — em casa bebo ao menos meio litro a cada 24 horas.

Fora estes dois bons motivos — evitar o álcool e poupar em café —, ainda fui influenciado pelo ambiente. O tabaco deve fazer parte da cesta básica naquele país. Como fumava passivamente toda vez em que encontrava um francês, resolvi ao menos ter algum prazer com a destruição dos meus pulmões. Comprei tabaco em pacote e 100 papéis para enrolar. Tinha a referência do Drum Halfzware Shag. Mais barato do que cigarro com filtros, mais sabor e mais estilo. Porque vamos admitir: se é para fumar, que se fume com estilo.

E sem filtro. Filtro é coisa para mulherzinhas. Fumar cigarro com filtro é o mesmo que tirar a gordura da costela de porco. Exceções talvez para Marlboro tradicional, Camel e Lucky Strike, se não estiver com saco de enrolar um cigarro. Por outro lado, o fato de ter de enrolar seus cigarros diminui um pouco a freqüência do uso.

O tabaco em pacotes é popular na Europa, não apenas por ter um sabor melhor, mas por questões econômicas. Custa o mesmo preço que um maço de cigarros com filtro normais, mas o tabaco para enrolar dura muito mais tempo, porque o sujeito ingere mais nicotina a cada baforada. Enquanto antigamente gastava 3 euros por dia num maço, um conhecido alemão agora gasta 3 euros por semana num pacote de Drum. Se você tem um maço de cigarros com filtro à mão, é muito mais fácil, é só pegar e acender a qualquer hora.

Numa noite saí e decidi levar o tabaco. Um colega de pensão de seus 30 anos fumava desde os 13 e sabia até fazer círculos de fumaça. Sem nenhuma consideração pelo meu amor próprio, pedi a ele que me ensinasse a tragar. Porque aos 23 anos um homem tem de saber manejar um cigarro. É uma falha de caráter, mesmo que não se fume, não saber fazê-lo. O vício em nicotina é terrível, bobo, grosseiro, indigno de um cavalheiro, mas um cigarro junto com cervejas e amigos não pode matar ninguém. O sujeito foi paciente e em poucas explicações eu já estava queimando a garganta com as primeiras baforadas, que são tão desagradáveis quanto a primeira cerveja.

Tabaco chapa nas primeiras vezes. Não muito, você só levanta no ar uns 2 centímetros e sente um pouco de entorpecimento. Talvez nem tanto pela nicotina, como pela diminuição do oxigênio no sangue, mas de qualquer modo, um brilho. É divertido e por isso fumei uns 5 ou 6 na primeira noite. E descobri que nas primeiras vezes o tabaco também dá uma senhora dor-de-cabeça no outro dia.

Alguém indicou o tabaco Van Neele, holandês — Young Javanese é outra marca recomendada. Comprei um pacote do Zware Shag, o tipo mais forte, para ver se o tranco é muito forte. Para um principiante, não é fumável. Melhor começar com o Milde, passar para o Half Zware e só então para o Van Neele Zware Shag. Ao abrir o envelope, o cheiro do Van Neele se espalha por tudo. Ao ser fumado, deixa o sabor na boca por horas, como se grudasse nas mucosas. É picante ao extremo. No Brasil, a marca mais disponível é Samson. Outra alternativa é fumar cachimbo, charuto ou cigarrilhas — todos ainda em minha lista de vícios por adquirir.

Infelizmente, logo será impossível aproveitar uma tragada de bom tabaco sobre um copo de excelente cerveja ou café no Velho Mundo. Na Irlanda e na Itália o cigarro já é combatido com multas em ambientes públicos. A França está aumentando os impostos sobre tabaco progressivamente. Em pouco tempo, só se poderá fumar em casa ou no meio da rua dentro da União Européia. Mais uma cortesia do fascismo dietético que toma conta do mundo. Os próximos alvos devem ser o álcool e as gorduras saturadas. Por isso, mesmo não sendo fumantes, deveríamos defender até o fim o direito de os outros fumarem — no setor para fumantes, evidente.

(Publicado originalmente na edição 28, de fevereiro de 2005, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, dezembro de 2004

A técnica do comer



Comer não é só encher a boca com algum alimento, mastigar, engolir e em alguns casos soltar um arroto depois. Nem mesmo se você fizer cara de erudito percebendo a origem grega do azeite utilizado para fritar as cebolas enquanto isso.

Para desfrutar completamente da comida é necessário uma técnica, no sentido grego. Para o povo de Homero, tekhné designava qualquer atividade humana passível de desenvolvimento. Desde produzir cestas de vime até fazer amor. De guerrear a filosofar. E era algo que se aprendia fazendo, com um mestre. Treinando. Aperfeiçoando-se, enfim – mas nunca chegando à perfeição porque, como algo próprio do humano, a técnica nunca pode ser perfeita.

Mas tergiverso. O ponto aqui é que existe também uma técnica do comer. Pode-se aprendê-la em escolas especializadas, o que é bastante recomendável. Como é de se imaginar que a maioria dos leitores não pretenda fazê-lo, relato aqui algumas noções que descobri como autodidata diletante.

Deixando-se de lado a questão social do uso dos talheres, é preciso aprender a preparar os sentidos. O primeiro passo para isso é conhecer os alimentos e sua história. Como você pretende descobrir o sabor de jabuticaba na calda do sorvete de creme, digamos, se nunca provou uma jabuticaba? Por isso é importante provar alimentos frescos, individualmente. Assim é possível conhecer seu gosto característico.

Quanto à história do alimento, serve para saber em que época do ano pedir um prato com mariscos sem risco de intoxicação e também para impressionar as gurias com seu discurso a respeito daquele tipo de chicória que cresce apenas em uma ilha perto de Veneza – não esqueça de fazer a cara de erudito.

Depois de estudar o sabor dos alimentos, você está pronto para testar seus conhecimentos na prática. Lembre-se de que se saboreia a comida primeiro com os olhos, depois com o nariz e finalmente com a língua. Todo aquele frufru dos restaurantes chiques na montagem do prato não é só frescura. Experimente colocar um ramo de salsa no arroz branco. Fica muito mais apetitoso, não?

O mesmo em relação ao olfato. Um defeito necessário dos restaurantes é não se poder sentir o cheiro da comida sendo preparada – ao menos nas boas casas do ramo. Nada abre mais o apetite do que o odor vindo da cozinha.

Note que saboreamos a comida não na língua, mas no cérebro. As papilas gustativas simplesmente transmitem impulsos elétricos ao sistema nervoso central, onde são interpretados. Mas neste processo interfere o estado psicológico. Uma pessoa deprimida vai achar até foie-gras algo insosso.

O cheiro e a visão da comida predispõem a apreciá-la melhor, assim como o ambiente do local. Música de teclado eletrônico ao vivo ou luz demais são gastronomicamente broxantes. Estar entre amigos em um ambiente pelo qual se guarda algum afeto, por outro lado, faz a comida ter um sabor muito melhor. Por isso a comidinha da mamãe é muito melhor que a de qualquer restaurante. A lição que fica é, quando possível, cozinhar em casa.

Outra boa dica é evitar café, cigarros ou bebidas fortes antes de uma refeição que prometa ser deliciosa. Estas substâncias amortecem as papilas gustativas e prejudicam o olfato. Talvez até a visão, dependendo de quanto uísque a pessoa beber. Durante a refeição, beba água, cerveja ou vinho. Se pedir uma Coca Diet, você se arrisca a ser assassinado pelo chef com uma bela faca de aço Solingen. Bebidas doces como refrigerantes e sucos mascaram o sabor.

Evite misturar tudo no prato em uma gororoba. Ao menos prove cada preparação em separado primeiro. Ao colocar os pedaços na boca, deixe que descansem um segundo sobre todos os pontos da língua antes de começar a mastigar. Depois de engolir, preste atenção nos sabores mais sutis que surgem com a ação da saliva sobre as substâncias químicas – cada uma tem um tempo de permanência até se desintegrar.

O importante mesmo é treinar e treinar, comer e comer, sempre curioso e aberto às novas experiências como as crianças. E sempre com a mesma seriedade com que as crianças brincam.

(Publicado originalmente na edição 27, de dezembro de 2004, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, out/nov de 2004

Menos é mais



Tem gente que gosta de pratos elaboradíssimos, preparados com uma variedade barroca de ingredientes, de preferência os mais raros, caros e difíceis de conseguir. Em seu “Food: a history”, Felipe Fernández-Armesto anota a perplexidade de um visitante à corte do rei Luís XIV: foi-lhe servido um frango assado em tantas camadas de crostas que era impossível encontrar a carne.

Este tipo de gastronomia tem seu papel, desde Roma. Os leitores de Asterix vão lembrar das línguas de rouxinol gratinadas com mel e coisas do gênero. Trata-se de uma demonstração de poder. Os reis, líderes e ricaços em geral serviam banquetes a convidados da elite, estrangeiros e mesmo ao povo para mostrar a quantidade de recursos a sua disposição. “Se posso servir este banquete, posso esmagar uma rebelião ou exército estrangeiro brincando”, era mais ou menos a mensagem.

Então chegamos ao século XX e à Nouvelle Cuisine, termo cunhado pelos críticos Henri Gault e Christian Millau em 1972 para designar uma nova forma de preparar os alimentos criada por jovens cozinheiros. O objetivo era retirar toda a elaboração desnecessária – leia-se afetação – da gastronomia francesa e buscar inspiração nos pratos tradicionais do povo e nos sabores naturais. Se estes cozinheiros preparavam um filé, todos os ingredientes restantes tinham o único objetivo de ressaltar o sabor da carne. Antes, a profusão de sabores marcantes acabava escondendo o assunto principal.

A lição da Nouvelle Cuisine é que é preciso respeitar o caráter dos alimentos. Antes de preparar uma refeição, pare sempre para pensar que aquele animal, aquela planta, foi morta para que você possa comer – e certifique-se de que estão frescos. O mínimo a se fazer em agradecimento é cozinhá-los de maneira decente. Não tem nada mais irritante do que ver um diletante gastronômico enfiando todos os temperos da prateleira na panela, “para dar mais gosto”. Se for necessário esconder o sabor de algo para engoli-lo, vá comer outra coisa.

Mas falar é fácil, não é mesmo? Então, vamos comprovar com três receitas simples, de poucos ingredientes, mas deliciosas.

A primeira é de um amigo da família que mora em Hamburgo, Alemanha. Hospedado em sua casa, vi o sujeito pegar algumas batatas, cortá-las em cubos regulares e ajeitá-las em uma forma, de modo que não ficassem umas sobre as outras. Depois ele arrancou um ramo de alecrim de uma planta na sacada e espalhou sobre as batatas, com bastante óleo de oliva. Levou ao forno por cerca de 30-40 minutos, até que as solanáceas começassem a dourar. E pronto, tínhamos um ótimo acompanhamento para um peixe ou filé. Não sei se a receita era segredo, mas ninguém mandou preparar na frente de um jornalista interessado em gastronomia.

A segunda receita é de minha própria criação. Na verdade, li sobre sanduíches de pão de forma sem casca com maionese e pepino num conto de Ivana Leite. Odeio maionese, então resolvi substituí-la por Käs-Schmier, que é coalhada misturada com a nata do leite. Só coalhada serve, também. Ficou ótimo. Os mais ousados podem acrescentar salsinha, mas pouca.

A terceira receita foi publicada no caderno de gastronomia do jornal Zero Hora por uma pessoa que viveu anos na Tailândia. È uma sopa de legumes vendida em todo canto do país, consumida inclusive no café da manhã, bem apimentada. O problema é que jamais anotei, agora não sei mais se continuo seguindo a receita original, ou se mudei alguma coisa. Pique duas cenouras à juliana, fatie 400g de cogumelos e um maço de salsinha, bem fininhos. Ferva dois litros de caldo de carne ou legumes, de preferência feito em casa. Jogue as cenouras dentro. Dois ou três minutos depois, acrescente os cogumelos e uma – ou quantas quiser – pimenta vermelha picada. Tenha o cuidado de tirar as sementes da pimenta, para diminuir um pouco do ardor. Ferva por mais cinco minutos e acrescente a salsinha e 300g de broto de feijão, que vão cozinhar enquanto a sopa esfria. Voilá!

(Publicado originalmente na edição 26, de out/nov de 2004, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, agosto de 2005

Cozinha teuto-brasileira



Não sei em Campinas, mas nos arredores de Porto Alegre e interior do Rio Grande do Sul existem muitos descendentes de alemães. Eu mesmo nasci em uma cidade onde muitos idosos falam só alemão em casa até hoje. No dia 25 de julho se comemorou os 180 anos da chegada da primeira leva de imigrantes ao Estado. Uma boa chance de lembrar alguns pratos da infância.

A comida alemã pode parecer uma droga à primeira vista. De fato, muita coisa é ruim mesmo. Não é todo mundo que suporta pão de milho com presunto e geléia, joelho de porco cozido por horas e horas ou uma gelatina de miúdos diversos cortada em fatias e apelidada “queijo de porco”. Mas a culinária teutônica tem seus momentos e talvez o melhor adjetivo para ela seja “familiar”.

É comida forte, com muita gordura e proteína, preparada com ingredientes considerados de segunda classe por muita gente. O motivo é simples: os imigrantes que vieram para o Brasil há dois séculos eram pobres já na Alemanha; imagine-se aqui. Estavam acostumados a aproveitar todo pedaço de comida em que punham a mão. (Meu avô, que nunca foi pobre, costumava guardar meu almoço na geladeira e trazê-lo para a mesa na janta, se teimasse em deixar comida no prato. Ah, a pedagogia germânica!)

Muitas receitas foram adaptadas aos ingredientes e clima brasileiros. Exímios padeiros, os germânicos passaram a usar milho e aipim na massa. Deram um jeito de transformar todas as novas frutas tropicais em doces e schmiers [geléias] e bolos chamados “cucas” [Kuchen]. O “café colonial” é a expressão máxima desta culinária, com uma variedade barroca de pães, bolos, embutidos e geléias. Vale a pena visitar os restaurantes especializados em uma viagem ao Sul.

A seguir, duas receitas de família favoritas.

Chucrute - o Sauerkraut [planta azeda] é um dos pratos mais famosos da culinária alemã. Repolho era uma das poucas verduras que davam bem na Europa, mas os camponeses tinham de preservar o produto da colheita até o ano seguinte. Decidiram salgá-lo e fazer uma conserva. As frutas viravam doces e as carnes, lingüiças, pelo mesmo motivo: não havia geladeira.

Se você comeu e não gostou de chucrute em um restaurante, provavelmente era uma enganação feita com repolho fresco e vinagre. O verdadeiro chucrute só leva sal. Pique ele beeem fininho, coloque em uma vasilha grande e salgue. Mas salgue para valer! Deixe da noite para o dia, quando o sal terá puxado a água do repolho. Escorra, ponha em um pote de vidro bem limpo e complete com água fervida ou filtrada e salgada. Feche bem, talvez colocando um plástico entre a boca do vidro e a tampa. Deixe-o quieto por dois a três meses, visitando toda semana para tirar bolhas de ar e eventuais partes estragadas.

Quando estiver pronto, pique lingüiça ou bacon, frite com bastante manteiga ou banha em uma panela e acrescente o chucrute enxaguado ao menos três vezes. Cuidado para não cozinhar, o objetivo é só esquentá-lo.

Spätzle - em alguns lugares do Sul, esta massa caseira é conhecida como Klösse. É fácil de fazer e vai muito bem com molhos de carne ou queijo. Mas uma das receitas mais clássicas leva apenas cebola frita.

Com cerca de 300g de farinha, misture sal e dois ovos inteiros. Vá mexendo com as mãos ou uma colher e acrescentando leite até obter uma massa que não escorra, mas também não seja difícil de tirar da colher. Algo a meio caminho entre pão e panqueca.

Ferva água com sal e um pouco de óleo. Pegue um naco de massa em uma colher de chá e, passando o dedo pelo fundo da colher, jogue a massa na panela, criando uma bolota disforme. Seja rápido e vá fazendo isso até acabar com a massa. Quando todas as bolotas estiverem boiando, estão cozidas. Escorra.

A partir daí, pode-se misturar os Spätzle com quase tudo. Eu gosto de fritar em banha ou manteiga uma boa quantidade de cebola, depois misturar as bolotas na frigideira com uma porção generosa de pimenta-do-reino moída na hora.

Lingüiça ou chuletas de porco fritas, chucrute e Spätzle é provavelmente a refeição mais germânica possível. Para acompanhar, abra uma boa cerveja extra.

(Publicado originalmente na edição 25, de agosto de 2004, da revista Semana 3)

Marcelo Träsel, junho de 2004

Da arte de comer bem



Coisas da vida moderna. Recebe-se uma mensagem eletrônica convidando você a escrever sobre gastronomia em um jornal com tiragem de milhares de exemplares, impresso e distribuído em uma cidade que conhece só de nome. Gostoso saber que tem gente a mil quilômetros de distância interessada nas opiniões de um diletante da cozinha. É responsabilidade também e por isso resolvi estudar um pouco melhor o assunto. Vamos começar do começo: gastronomia, que bicho é este?

De acordo com o companheiro Houaiss, é tudo que envolve a prática e conhecimentos relacionados à arte culinária. Certo. Ele também diz que pode ser o prazer de apreciar pratos finos. Perdoem a impertinência, mas está errado. Houaiss nunca deve ter comido um bom ovo frito na hora com sal e um pouquinho de pimenta. A sua definição de gastrônomo está muito mais para a realidade: "aquele que aprecia com gosto e conhecimento os prazeres culinários." A boa notícia é que todos podemos ser gastrônomos, mesmo não sabendo fazer ou podendo pagar por pratos finos. Os pratos mais simples são em geral os que dão mais prazer.

E juro ter escrito isso antes de ler o que diz a Larousse Gastronomique, bíblia do assunto, a respeito. "O verdadeiro gastrônomo, tendo em alta estima os produtos mais refinados da arte culinária, não os utiliza senão com moderação. Ele procura, no cotidiano, as preparações mais simples, mas as mais difíceis de realizar com perfeição."

Pode-se deduzir, então, que comer bem não é ir ao restaurante francês mais famoso da cidade e participar de uma bacanal culinária envolvendo atos obscenos com trufas brancas e foie-gras, tudo regado com vinho francês a mais de R$ 1 mil a garrafa. Isso se chama orgia e tem seu valor, mas gastronomia é outra coisa.

Gastronomia é concentrar toda atenção e todo amor na preparação de um ovo cozido, de um sanduíche ou de uma simples salada. É conhecer e saber respeitar os alimentos. Coisa rara em tempos de fast-food e gente criada em apartamentos. Nunca deixo de me surpreender com amigos que nem sabem o que são jabuticabas ou carambolas e nunca viram uma vaca com todos os pedaços ainda grudados uns nos outros. Exceto por oxigênio e água, comida é a coisa mais importante do mundo. Vale a pena gastar algum tempo conhecendo alimentos que você vai ingerir três vezes por dia por, em média, 60 anos.

Porque cada alimento tem uma personalidade própria e combina com outros alimentos específicos. Cada vegetal se comporta de uma maneira ao fogo. Cada carne pede um tipo de tempero. Ao mesmo tempo em que é essencial à vida - e por esse motivo mesmo - a comida é sagrada. Você matou animais e plantas para comê-los. O mínimo que pode fazer é prepará-los decentemente e sem desperdícios. A recompensa é o prazer indescritível de morder um sanduíche de, digamos, pão branco fresquinho sem casca, coalhada e pepino cortado na hora. Parece muito simples? Acredite, é delicioso.

Você pode ler quantos livros quiser sobre comida e vinhos, vai aprender um monte sobre a história dos alimentos e curiosidades diversas, mas nada substitui a pesquisa de campo. Provar de tudo, em várias versões e modos de preparar diferentes. Escolher livros de culinária é também uma arte. A grande maioria serve apenas para ficarem sendo bonitos em cima da mesa da sala, com todas aquelas fotos apetitosas e receitas mal-explicadas. A não ser que seja muito bem recomendado, jamais compre um livro de culinária sem ler algumas receitas. Ao final da coluna, listo alguns bons livros. Percebam a predominância da editora Cia das Letras. Adquirir conhecimento gastronômico é uma questão de paciência e pesquisa. Passear no mercado e tentar conhecer cada espécie de vegetal, procurar perceber a diferença no sabor a cada mês do ano e quando estão frescos ou não. Dá um trabalho danado, mas vale a pena. Depois de algum tempo, volte àquele restaurante francês famoso. Você vai perceber o quanto o foie-gras ficou diferente. E muito melhor.

Leia mais
"O Homem que Comeu de Tudo", de Jeffrey Steingarten (Cia. das Letras). Steingarten é crítico de gastronomia da revista "Vogue" norte-americana e conta neste livro, com muito bom humor, como descobriu a gastronomia.

"Food: a History", de Felipe Fernández-Armesto (MacMillan). É importado e em inglês, mas essencial para quem se interessa em conhecer melhor a cultura gastronômica e humana em geral.

"Cozinha Confidencial", de Anthony Bourdain (Cia. das Letras). O chef nova-iorquino narra episódios de sua juventude nas melhores e piores cozinhas da cidade. De quebra, conta vários segredos e técnicas.

"Em Busca do Prato Perfeito", de Anthony Bourdain (Cia. das Letras). Desta vez o chef Bourdain dá uma volta culinária pelo mundo e pelo caminho vai explicando o que é gastronomia.

"La Cucina", de Marcella Hazan (Cia. das Letras). A cozinheira italiana se viu casada e de frente para um fogão aos 20 anos, sem saber o que fazer com ele. Descobriu sozinha e mostra o que é ter sensibilidade culinária.

(Publicado originalmente na edição 24, de junho de 2004, do jornal Semana 3)

Bruno Ribeiro, dezembro de 2005

Aos meus doze novos amigos



Neste ano li 12 livros. Bem menos do que eu gostaria, mas tive um ano agitado. Leio no ônibus, na fila do banco, no banheiro, antes de dormir. Não por obrigação, mas por gosto. É um hábito herdado do avô paterno, um homem muito letrado – o único da família – que me dava livros de presente de Natal. No final do ano eu só ganhava livros: Monteiro Lobato, Júlio Verne, contos russos e africanos, lendas brasileiras, crônicas de Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. Ter lido tudo isso muito cedo fez com que aos 11 ou 12 anos eu já pudesse apreciar Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Nelson Rodrigues. Para mim era natural, não uma imposição da família ou uma necessidade de afirmação – até porque ninguém mais gostava de ler em minha casa.

À parte isso, fui criado na rua, jogando bola e arriscando a vida naqueles perigosíssimos rolimãs, que cruzavam a avenida tirando fina das rodas dos ônibus e, invariavelmente, acabavam destroçados nos muros da fábrica de cimento que havia no fim da rua. Associar o nerd idiota aos livros foi a pior contribuição que o cinema de Hollywood poderia ter dado para a nossa juventude. Eu nunca fui CDF, era péssimo em matemática, mas lia, lia e lia com um prazer sempre renovado. E cada livro terminado me fazia mais próximo do que eu acreditava ser a vida. Eu só fazia o que queria, só o que gostava – e me sentia, como me sinto hoje, extremamente satisfeito por ter criado tão cedo um jeito próprio de fazer frente à falta de sentido da existência.

Neste ano li apenas 12 livros. Mas foram 12 amigos a fazer companhia durante aquelas pausas do dia em que não temos como fugir de nós mesmos e estamos sozinhos no abismo. Foram 12 apóstolos a cear comigo, nos instantes em que mais precisei de uma palavra para amenizar o dia ou de uma boca para dividir o vinho da noite. Antes que o ano termine, quero registrar aqui a minha gratidão aos que me fizeram um homem melhor em 2005: “Pergunte ao Pó”, de John Fante, e a luta desesperada de Arturo Bandini contra a falta de inspiração; “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, de Umberto Eco, e a reconstrução da memória a partir dos signos da infância; “O Cantor de Tango”, de Tomás Eloy Martinez, e a viagem pelas artérias de Buenos Aires; “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnar, e a batalha épica das crianças contra a especulação imobiliária; “Futebol ao Sol e à Sombra”, de Eduardo Galeano, e a poesia escondida dos gramados; O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho, e a crítica surrealista ao desconcerto do mundo; “Malagueta, Peru e Bacanaço”, de João Antônio, e a ronda noturna pela alma de São Paulo; “A Náusea”, de Jean-Paul Sartre, e o mergulho no vazio das horas; “Minhas Histórias dos Outros”, de Zuenir Ventura, e a lição de um jornalismo responsável; “Trópico de Capricórnio”, de Henry Miller, e o cheiro ocre da marginalidade; “Partido-alto: Samba de Bambas”, de Nei Lopes, e a história das raízes mais profundas do Brasil; “Venezuela”, de Pablo Uchoa, e o sonho de Bolívar redivivo por Hugo Chavez.

Foram estes os amigos que andaram comigo na maior parte do ano, que me deram conselhos valiosos e inúteis – mas sempre bem-vindos – e que mostraram, de certa forma, que a morte é uma besteira quando temos um livro à mão. Eternizadas no papel, as palavras abrem estradas invisíveis que atravessam o tempo e as gerações. Obrigado, amigos, por abrirem veredas novas em mim e me conduzirem para lugares cada vez mais altos. Sinceramente agradecido, desejo a todos um ótimo Ano Novo.

(Publicado originalmente na edição 36, de dezembro de 2005, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, novembro de 2005

Uma bicicleta vermelha



Se eu disser que tive um encontro amoroso com a Jennifer Lopez ou que fui indicado para o Nobel de Literatura, todo mundo acredita. Mas quando digo que não tenho celular e não sei dirigir, acham que estou tirando onda. É comum, no trabalho, que um entrevistado peça o número do meu celular. Quando respondo que não tenho, as pessoas acham que estou mentindo. Como assim, um jornalista sem celular? Impossível. Indignadas, me perguntam como é possível que eu leve uma vida normal sem celular. E se o carro quebrar, de madrugada, numa estrada deserta, como é que faz? Aí vem o melhor: digo que também não tenho carro e sequer dirijo. As pessoas fazem cara de espanto, outras de pena. De duas uma: sou pobre ou débil mental. Não ter um carro e um celular jamais pode ser uma opção racional. Tem de ter uma razão de fundo psicológico, algo que Freud explique.

É engraçada a lógica cartesiana. Sendo homem e jovem, devo, naturalmente, gostar de carros, velocidade e de um celular que não pare de tocar em público, denotando a minha popularidade. A tecnologia, nestes casos, é demonstrativa de poder. Em longo artigo, publicado em meu blog, explico as razões pelas quais não quis ter carro. Dentre elas a certeza de que vivo melhor sem essa obrigação. Não sei quanto custa um litro de gasolina, nem tenho de disputar uma vaga quando quero beber por aí. Chego de táxi e ainda posso encher a cara, porque não causarei nenhum acidente por estar embriagado. No final do mês, gasto menos com táxi do que qualquer motorista gasta com a manutenção do veículo. E livre também da conta do celular, posso investir esse dinheiro em coisas mais produtivas, como livros, discos, vinhos e viagens, por exemplo.

A grande dúvida, que parece tirar o sono das pessoas, é sempre uma: como faço para não me preocupar com o fato de não ter carro e celular? Diante desta grande questão filosófica, todas as outras perdem o sentido. Consigo chegar aos compromissos na hora marcada? Consigo “catar” mulher? Consigo realmente ser feliz? Sim, eu consigo, eu consigo! Mas minha palavra não basta. Não é possível que exista tal desprendimento. Malu Mader recusou um milhão de reais para posar nua. E há quem diga que se a oferta fosse para dois milhões, ela topava. Topava coisa nenhuma. Entre um milhão e dois não há muita diferença, você se torna milionário de qualquer maneira. Ela não tirou a roupa porque não quis, simples assim. Moralismo ou não, o fato é que prevaleceu a opinião dela, contrariando a lógica econômica. Esse mundo da competição se nega a aceitar que existam pessoas de princípios, capazes de recusar montanhas de dinheiro em nome de uma reputação.

A embromação toda foi para chegar aqui: não adianta buscar cabelo em ovo. Quem acredita piamente que dinheiro pode comprar a tudo e a todos; quem tem certeza de que os homens são capazes de qualquer trapaça para chegar ao poder; quem acha que o “ter” sempre prevalecerá ao “ser” neste mundo, está redondamente enganado. Isto talvez responda a dúvida de um leitor, que me escreveu perguntando o que eu faria se ganhasse uma Ferrari, daquelas vermelhinhas. Ele desafia: “aposto e ganho que você ficaria com ela”. Sem dúvida! Mas eu a venderia e voltaria a andar de táxi, como sempre fiz. Com o dinheiro do carro eu conheceria países distantes, como um ex-professor. Estressado com o trânsito de São Paulo, abandonou tudo e se mandou para o Vietnã. Poderia ser qualquer outro lugar, mas este foi o primeiro país que ele viu no mapa. Encontrou a mulher de sua vida, virou escritor e hoje anda pelo vilarejo em sua bicicleta vermelha, como se pilotasse uma Ferrari.

(Publicado originalmente na edição 35, de novembro de 2005, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, outubro de 2005

Lágrimas de crocodilo



“A juventude não foi feita para o prazer, mas para o heroísmo.” (Paul Claudel)

Ela me olhou bem dentro dos olhos e disse: você nunca chora. Eu tentei argumentar dizendo que ela se enganara, mas não fui convincente. Acabara de enterrar meu pai e, embora triste, não consegui chorar. Ela comentou como quem cobra uma lágrima. Lembrei-me de “O Estrangeiro”, quando Mersault não chora no enterro da mãe e passa a ser o principal suspeito do crime por este motivo. A mulher chorando sobre o caixão não me comoveu. Ao contrário, me deu certo nojo sua hipocrisia. Sem vocação para carpideira, fui ao primeiro bar e bebi o morto. Fosse eu o defunto, quereria um velório com bebidas e música. Não esse ritual sem compaixão por quem não acredita em deus e é obrigado a levar um terço enroscado nos dedos.

Eu choro sim, insisti. Mas ela entrou no táxi e deixou-me só, sem saber que, dias antes, eu chorara com “Cinema Paradiso”, na cena dos beijos censurados. Ela não sabe ainda que choro ouvindo música. “Happiness is a Warm Gun”, do álbum branco dos Beatles; “A Cavalleria Rusticana”, de Mascagni; “Movimento dos Barcos”, do Macalé. Se ouvir, desabo. E não é o efeito do uísque que acompanha a audição. Choro, mesmo sóbrio.

Quando veio a notícia que Lucas Vezzaro, um menino de 14 anos, morador de Erechim, morreu afogado tentando salvar seus colegas de escola, estávamos diante da tevê. Eu chorei. Ela, ao contrário, foi lavar a louça do almoço, como se isto fosse mais sensato do que chorar naquela hora. E, por não ter chorado no enterro de meu pai, causei-lhe este mal-estar.

Na posse do Lula, chorei; mas ela não viu porque não estava em Brasília. Ficou por aqui, dando voltas na Lagoa do Taquaral para perder a barriguinha; eu fui até lá e chorei quando a Esquadrilha da Fumaça riscou o céu, anunciando algo grandioso que deveria ter acontecido no País. Depois choraria de decepção, quando jogaram os sonhos no lixo; eles também não queriam mudar o homem, mas adaptá-lo. De que valem as lágrimas, se até Roberto Jefferson chora? Se até Zé Dirceu? E ela, ao invés de chorar, riu, cínica e sádica. Logo ela, que nunca se importara com o Brasil, ela que não gostava de política. Não é curioso que os alienados sempre tomam partido quando convém?

No capítulo final de “Os Meninos da Rua Paulo”, quando Nemecsek morre em combate sem trair os companheiros, choro diante da pureza. Ela não me vê chorar porque estou com o rosto mergulhado nas páginas, o pranto diluindo-se nas ilustrações que me jogam a infância na cara. E com que cara ela me diz que não choro? Perguntei-lhe certa vez se ela nunca se emocionava lendo um livro. E ela disse que só se comovia com coisas reais.

Talvez por isso tenha chorado quando lhe riscaram a porta do carro, quando perdeu o broche herdado da bisavó ou quando soube que a cadelinha Laika morreu na solidão do espaço, tão longe da Terra. Por quê não choraria no velório do velho, ocasião propícia para revelar seu coração caridoso e cristão? Não fui capaz de fingir uma dor que não sentia. Desejar que o pai se livrasse das dores do mundo não é egoísmo, mas compreensão do vazio existencial que lhe consumia a alma.

É engraçado como se pode ser triste e feliz ao mesmo tempo. Tentei lhe explicar que felicidade e alegria não são a mesma coisa, mas não adiantou. Ela fez as malas e foi atrás do trio elétrico. E como só não vai quem já morreu, trato de preparar meu gurufim. Nada de flores e velas, por favor. Ao redor do meu corpo haverá somente a pátria imensa. A pátria honesta de gente como o menino Lucas, que deu a vida pelos amigos.

Esta pátria sobrevive, apesar destas lágrimas de crocodilo.

(Publicado originalmente na edição 34, de outubro de 2005, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, ago/set de 2005

Os gatos, os pássaros e a liberdade



Dias atrás o meu gato apareceu em casa com um pardal entre os dentes. Não foi a primeira e, com certeza, não será a última vez que ele conseguirá tal proeza. A nenhum outro ser vivo sobre a Terra a natureza concede o direito de arrebatar um pássaro em pleno vôo. Se nós, os seres racionais, quisermos abater um desses pequenos animaizinhos, precisaremos recorrer a recursos não muito dignos, como a pedra de atiradeira ou o chumbinho das espingardas de pressão.

Os gatos, ao contrário, são capazes de desafiar as leis da física num único salto; precisos e elegantes, transcrevem no espaço vazio, num piscar de olhos, o trajeto de uma flecha certeira – do alto do muro para o pássaro. E com que fidalguia retornam ao chão! A queda de uma pluma não seria mais delicada.

Não raro os gatos costumam exibir-se aos donos. Ficam à distância, com a caça a se debater dentro da boca, olhando-nos com certo desdém, entre vaidosos e indiferentes, como convém a todos os seres que são livres. No fundo, estão a zombar de nossa incapacidade atlética. Se pudessem, de certo diriam:
– Vocês são tão ridículos! Capazes de criar a bomba atômica, mas não conseguem apanhar um pássaro em pleno vôo!

Da beleza à agilidade, os gatos possuem quase todas as virtudes que faltam aos outros animais. A única dor do gato é não poder voar. O ódio mortal que sentem pelos pássaros vem, possivelmente, deste único detalhe. Ambos são os seres mais livres do planeta: aos gatos tudo basta porque nada importa, e este falso domesticável – porque ninguém pode aprisionar a vontade do gato –, nos paga o afago e a comida com sua soturna e discreta beleza, esparramada pelo sofá da sala como parte da decoração.

Já os pássaros, nem é preciso dizer, atingiram o estágio de liberdade mais elevado que existe: a capacidade do vôo. Voar é um dos maiores sonhos do homem, desde os seus primórdios. Mas este é, sobretudo, o sonho dos gatos. Durante as madrugadas, ficam nos telhados, mirando a imensidão celeste, como se num passado distante houvessem sido íntimos das estrelas. Pudessem voar e nossas insônias seriam bem mais suportáveis; as noites de vigília, à janela, estariam preenchidas com a mais nobre celebração da liberdade: o espetáculo do vôo! De repente: “Olha ali, lá se vão os gatos da vizinha copulando em pleno ar!”

É claro que fico penalizado com os pardais que têm a infelicidade de cair nas garras do meu gato. Quando chego a tempo de salvá-los da dentada final, quase sempre o faço. Mas posso compreender a luta de classes silenciosa que se desenrola desde que gatos e pássaros se viram pela primeira vez. Trata-se de um eterno conflito de libertários: o gato é mais um intelectual da liberdade, por sua postura contemplativa e movimentos matemáticos; o pássaro, ao contrário, é um artista revolucionário, que risca o céu com a tinta da própria natureza, sem a graciosidade e a inteligência felina, mas também sem a sua arrogância. Ao contrário do gato, o pássaro não precisa desejar mais nada.

Depois de comer todo o pardal, o gato veio se aconchegar aos meus pés. Orgulhoso de seu crime, lambeu os beiços e espalhou os músculos ao sol, ronronando de satisfação. Prisioneiro que sou da ordem natural das coisas, cocei-lhe o queixo, resignado. E pude notar em seus olhos amarelos, dois pássaros ariscos buscando o céu infinito.

PS: Aproveito para lembrar que já se foram quatro anos do assassinato de um homem que fez da liberdade sua bandeira. Eu não me esqueço e insisto na pergunta: quem matou Toninho?

(Publicado originalmente na edição 33, de ago/set de 2005, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, julho de 2005

O último gol do futebol brasileiro



O gol de Falcão contra a Itália, na Copa do Mundo de 1982, é a recordação mais nítida de minha infância. Morávamos numa casa simples de subúrbio, entre a favela e o bairro nobre. Mas era no terreno baldio que eu passava a maior parte do dia, jogando bola e pensando ser o Sócrates. Todo mundo queria ser o Zico, mas eu preferia o Sócrates.

Naquela época os bairros tinham mais terrenos baldios e mais crianças na rua. Talvez por isso o futebol brasileiro fora melhor. A derrota do Brasil na Copa de 82 marcou o fim do futebol romântico e o início dos tempos de profissionalismo do futebol-empresa. Tenho aguardado o dia em que, como nos primórdios do esporte, os atletas voltem a entrar em campo vestindo gravatas.

Divido o futebol entre antes e depois do gol de Falcão, no jogo que perdemos por 3 a 2. A ousadia daquela geração acabou sendo culpada pelo fracasso e o que se impôs ao mundo a partir de então foi o futebol de resultados, burocrático e defensivo. O gol de Falcão é um símbolo. Não só do futebol que se foi, mas também de um projeto de nação que não vingou.

Assim como nos convenceram de que o socialismo morreu com a queda do Muro de Berlim, nos fizeram crer que o futebol-arte expirou com a derrota brasileira na Copa de 82. Se o Brasil, país do futebol, não ganhava uma Copa desde 1970, é porque a indisciplina, decididamente, ficara fora de moda. Não havia mais espaço para o lúdico, a malandragem, o lampejo de genialidade que tanto nos diferenciava do resto do mundo. Derrotada, a Seleção Brasileira arrastou consigo a alegria do esporte.

Disseram que não podíamos mais insistir naquela maneira obsoleta de jogar. Ou o futebol brasileiro se adaptava aos novos tempos, ou os novos tempos sepultariam, para sempre, o futebol brasileiro. A Europa, com a inovação dos líberos, venceu a guerra contra o drible. As grandes academias de ginástica substituíram os terrenos baldios. E os jogadores foram tornando-se cada vez mais brancos. Mesmo os negros.

No dia do jogo contra a Itália, a rua estava decorada com bandeirinhas verde-amarelas, o céu colorido de balões e havia um cheiro de pólvora no ar, que jamais pude esquecer. Nunca, como naquele jogo, senti tão perto o clima de uma revolução. Era como se a mestiçagem brasileira que a Seleção encarnava estivesse entrando num campo de guerra, para lutar pela independência da Pátria.

Aquele time era a síntese da raça brasileira, com todas as suas cores e sotaques. E os craques eram como nós, legítimos representantes do povo, heróis de um país eufórico pela abertura política que se anunciava nos horizontes de Brasília. Aqueles homens não jogavam apenas pelo dinheiro, mas pelo desejo de liberdade que cada brasileiro já não podia conter.

A fotografia de Falcão no momento do gol mantém o calor do acontecimento: os braços abertos de Cristo, as veias saltadas, o rosto desfigurado pela emoção, o suor à flor da pele, a cabeleira loura esvoaçando na corrida em direção ao nada, o grito humano ecoando no estádio. A imagem é maior que o próprio Falcão e torna-se um ícone, separado de seu criador. Devíamos trazer esta imagem estampada nas camisetas, como um Che Guevara do futebol rebelde.

O silêncio que pairou sobre o meu bairro após o terceiro gol italiano veio carregado de angústia. Meu tio, que se gabava de nunca ter chorado na vida, desabou no sofá e chorou copiosamente, feito criança. Talvez, mais do que eu, ele sabia que o gol de Falcão tinha sido o último gol do futebol brasileiro.

(Publicado originalmente na edição 32, de julho de 2005, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, junho de 2005

Carta póstuma para Helenira



Querida Helenira,
Esta carta chegará com 33 anos de atraso. Mas escrevo para lhe agradecer o gesto tão nobre de ter tentado. Dizem que não se deve tentar, porque o mun¬do é assim mesmo. Mas é um erro achar que o mundo não muda. Se o primeiro negro norte-americano não tivesse se recusado a ceder o lugar para um branco, no ônibus, talvez o apartheid persistisse até hoje, nos Estados Unidos. A história registra inúmeros casos de sacrifícios individuais que geraram mudanças no plano coletivo.

Quando balas da ditadura vararam teu coração de mulata, estavas na flor da idade. Na poética definição de um camponês que lhe conheceu na luta, eras “a flor da subversão na boniteza”. Deixastes de ser uma estudante paulista para virar heroína nacional na selva do Araguaia. Os anos passaram, o mato cresceu e a tornou parte do solo brasileiro – este solo que um dia há de ser nosso.

Quando vice-presidente da UNE, pedistes para que a juventude nunca deixasse de acreditar. Que o sonho não deveria ser inatingível pelo simples fato de ser sonho. Ora, o avião também não era um sonho antes de ser inventado? E quem diria ser possível, antes que o primeiro riscasse o céu? Por isso, quando o comandante da guerrilha lhe perguntou o que gostaria de fazer quando viesse o triunfo, respondestes sem titubear: “Quero ser crítica de arte”. Uma menina carregando um fuzil e sonhando ser crítica de arte.

Há de chegar o dia, Helenira; a paciência é virtude revolucionária. Por isso alguns homens preferem não exaurir a vida e optam por trilhar o caminho da solidariedade desinteressada e da justiça. Os exemplos são incontáveis e podemos começar com Jesus Cristo, se quisermos ter um ponto de partida. Não é sintomático que todos tenham sempre o mesmo fim?

Devemos sentir orgulho. Pior seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas. É tão certa a nossa convicção como é verde e amarela a bandeira, como é vasto o mar, como é fértil a terra. Para os arrivistas, nosso otimismo é imperdoável. Mas há motivos para crer no futuro: armas não matam idéias; e enquanto “eles” nos dão por mortos, começamos tudo de novo, como formigas reconstruindo o formigueiro após cada temporal.

Independente de qualquer ideologia, que admirável gesto dedicar a própria vida em nome de milhões de brasileiros que sequer sabiam de sua existência! Homens analfabetos, famintos, embrutecidos pelo desemprego e pelo trabalho escravo. Assim como no poema, tinhas apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

Nos livros de escola, teu nome não aparece. Os capítulos importantes são reservados aos generais, como Duque de Caxias – o que ordenou o massacre de velhos e crianças na Guerra do Paraguai – ou a heróis consentidos, como Princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea para evitar a revolução negra. O presente pode ser injusto, mas o futuro está do nosso lado. Não importa que tenhas caído. Certas derrotas deixam o legado de perseverança e mantêm vivas as grandes mensagens. O resto, Helenira, é a barbárie.

Ontem, visitando um amigo na Vila Esperança, me deparei com teu nome numa placa de rua – Helenira Rezende de Souza Nazareth. Ao menos ali, naquela ruazinha de terra, em Campinas, habitada por gente sofrida e trabalhadora, alguém soube de ti. Na Vila Esperança – e que nome mais sugestivo para um bairro pobre – Dona Marcolina, de 68 anos, rega diariamente a roseira que plantou ao pé da placa que leva teu nome. A flor da subversão na boniteza.

(Publicado originalmente na edição 31, de junho de 2005, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, maio de 2005

Ensaio sobre a chatice



Jornalistas são chatos, têm aquela velha opinião formada sobre tudo. Mas, se é pra colocar na balança, todo mundo é o chato de alguém. Engana-se o tipo confiante, que se acha o cara mais popular da empresa, do clube, da universidade. A unanimidade poderia servir só para o Chico Buarque, se ele não tivesse aqueles olhos verdes tão feios.

O mundo está ficando muito chato e eu cada vez mais pessimista (o inverso também pode ser verdade). Está bem que os chatos sempre existiram; o que seria do botequim sem eles? A história da humanidade também foi escrita pelos chatos, mas, de uns anos para cá, tenho chegado à conclusão que eles não são somente a maioria, mas já tomaram o poder.

Não querendo ser chato e já sendo, há coisas que não passam no infalível teste de chatice. Gente que fala no cinema, que atende celular no meio do filme. Onda lounge, metrossexual, "gente bonita de bem com a vida", amigo-secreto em pizzaria rodízio. Quer mais? Garçom que enche o copo de cerveja quando está pela metade. Gente que anda devagar em ruas estreitas e não percebe que está atrapalhando – o comentário não vale para deficientes físicos, é claro.

E o chato pão-duro? É aquele que, na hora de dividir a conta do bar, saca logo uma calculadora da bolsa para não "sair no prejuízo". E o cara que não consegue conversar com você sem segurar no teu braço? Deveria ser punido com prisão perpétua. Muito chato também é o fanático religioso, que acha que tem a obrigação de sair por aí salvando almas. Quer coisa mais chata que Testemunha de Jeová tocando a campainha de casa em pleno domingo de manhã?

O cúmulo da chatice é gente que tem dinheiro e se passa por pobre, pra ser aceito pelos intelectuais. A Unicamp está cheia de gente assim. E aquelas bandas que misturam rock com zabumba e cujos integrantes usam piercing no cérebro e chapéu de cangaceiro? Por isso é que ultimamente tenho achado as festinhas universitárias extremamente cacetes. Ciranda: eis um troço que me dá arrepios.

Odeio gente que usa expressões em inglês desnecessariamente. Darling é a mãe. Gente que se faz de vítima: "Minha vida é uma merda, ninguém me ama, ninguém me quer". Ou gente alto astral: "A vida é bela, pense positivo, um beijo no coração". Rodeio é uma coisa chata, mas defensor de boi é chato ao quadrado. Gente que não come carne vermelha: tem coisa mais chata? Você convida pra um churrasco e a pessoa só come rúcula. A coisa se torna mais grave se ela não bebe nem uma mísera cervejinha. Aliás, não beber nadinha, nem vinho, é algo que minha compreensão não alcança. O pior chato é o que não bebe.

Torcedor roxo é uma coisa desprezível. O cara que arruma briga se o time perde. A mulher que não repete roupa, que não vive sem shopping, que faz questão de ser fútil. Nem toda mulher chata é fútil, mas toda mulher fútil é chata. E atendente de telemarketing? E flanelinha? E o sujeito que quer parecer simpático a todo custo? Trabalhei com um repórter que, logo cedo, tinha de ir de mesa em mesa, apertando a mão dos colegas.

Outras coisas extremamente chatas: coral, fanfarra e parada militar. Aliás, militar é um tipo chato. Principalmente o milico aposentado, que vira síndico de prédio e quer controlar a vida de todo mundo. Os velhinhos que ficam falando mal do Lula no Café Regina, chatíssimos, chatíssimos. Eles estão por toda parte: na política, nas artes, na universidade, na imprensa.

Condenem-me: eu também sou um porre e o que acabei de escrever também é extremamente chato. Mas é que eu precisava desabafar: não há nada mais chato neste mundo do que ganhar um CD do Oswaldo Montenegro.

(Publicado originalmente na edição 30, de maio de 2005, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, mar/abr de 2005

Gosto não se discute?



No fim de fevereiro escrevi uma crítica sobre o novo livro de Rubem Alves, “Um Céu Numa Flor Silvestre”. A minha opinião (negativa) sobre a obra do escritor foi publicada, inicialmente, no Caderno C, do jornal “Correio Popular” e, pouco depois, em forma de mini-resenha, nesta Semana 3. Surpreendi-me com a polêmica que o texto gerou após a resposta do autor ofendido, dada por escrito em sua coluna, na qual, entre outras coisas, há uma ameaça velada de processar-me por difamação e a insinuação de que um “mero subordinado” do jornal não pode ter opinião própria. Segundo ele, minha crítica teria sido obra de uma ordem superior.

Confesso que, diferentemente do autor, diverti-me muito com o qüiproquó causado por sua vaidade ferida. Discutir os limites da crítica e da imprensa é uma atividade saudável e necessária em tempos de tantos abusos. Fala-se muito que debates não levam a nada. Mas debates ajudam no crescimento humano. O problema é que a hipocrisia e a falsa cordialidade parecem ser traços culturais da elite campineira. Aqui só se fala mal pelas costas. Honestidade e transparência são quase sinônimos de grosseria.

Uma crítica não pode partir do gosto pessoal, mas da qualidade da obra analisada. E gosto não tem relação com qualidade. Uma das maiores mentiras é a de que “gosto não se discute”, o lema do egocentrismo e da mediocridade. Com este decreto, legitima-se tudo: o nazismo, a pedofilia, o racismo, a alienação. O crítico tem o direito de manifestar, com total liberdade, sua opinião. Os leitores têm o direito de concordar com ele ou não. Simples assim.

Alguns leitores sentiram-se ofendidos porque um “jovem repórter” escreveu que o "velho sábio" não escreve bons livros – como se velhos estivessem sempre com a razão, pelo fato de serem velhos. O melhor professor que tive na vida ensinou-me que a idade não pode servir de pretexto para oprimir e dominar o outro. Por isso não chamo ninguém de “senhor”. Quem tem “senhor” é escravo. Respeito é bom e declaro respeitar Rubem Alves como homem. Somos – ele e eu – humanistas. E por isso entendemos que opiniões divergentes não devem incitar o ódio, mas ajudar no fortalecimento da democracia.

Cartas e e-mails entupiram a redação: umas favoráveis a mim, outras favoráveis a ele, no pleno exercício da cidadania. Lamento apenas que a discussão tenha se dado num nível tão raso. Os que não concordaram comigo chamaram-me de “covarde”, “amargo”, “frustrado”, “neófito”, “reacionário”, “zé ninguém”, “invejoso”. Também contra Rubem Alves pesaram adjetivos parecidos. A lista de insultos é interminável, mas não os tomei como agressões pessoais; sei que o “gosto não se discute” é o verdadeiro culpado pela falta de visão crítica da sociedade. O pensamento corrente é: se eu gosto, então é bom; se não gosto, é ruim. Como se “eu” fosse a medida de todas as coisas.

De toda maneira, penso que a polêmica serviu para recordar aos leitores que o jornal pode e deve ser um local de embates intelectuais que incite a sociedade a se posicionar ideologicamente e crescer. Para isto nasceu a imprensa, não para vender anúncios – como tem acontecido hoje em dia.

Ao contrário de Rubem Alves, não gosto de citações, mas não quis perder a oportunidade de fechar a coluna com uma frase de Voltaire: “Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las”.

(Publicado originalmente na edição 29, de mar/abr de 2005, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, fevereiro de 2005

O meu direito de morrer de câncer



As pessoas fazem mil e uma promessas quando um ano começa. Promessas que entram em prática – quando muito – depois do carnaval. Mesa de bar é lugar propício para o surgimento de promessas. “Vou parar de fumar”. “Não vou mais trair a minha mulher”. “Não voto mais em ninguém”. Mas só depois do carnaval. No meu caso, prometi que não faria mais promessas de balcão. Minto: a única coisa que prometi a mim mesmo é que não sentiria mais culpa nenhuma por fazer o que gosto.

Eu tinha decidido a parar de fumar. Mas, diante da chatice politicamente correta que tomou conta dos brasileiros, resolvi incomodar mais um pouco. Quanto mais a sociedade me perseguir, mais irei fumar em público. A publicidade nazi-fascista estampada nos maços não me comove: trata-se de uma estratégia que o sistema encontrou para botar a culpa em mim e não nas multinacionais que fabricam o cigarro. Se eu optar por morrer de câncer, o problema é meu. Aliás, já que a morte é inevitável, que a vida seja uma experiência prazerosa e intensa. Se cigarro me dá prazer, continuarei fumando. É uma decisão filosófica.

Resolvi escrever sobre sociedade e fumo depois de ser barrado em três bares. Bar com área para fumantes é o fim da picada. Você – não-fumante – pode até não gostar de cigarro; esta é uma opção tua e, de certa forma, uma opção sensata. Porém, há de convir que o bar é um território livre, anárquico e democrático, onde quem manda é o boêmio. Você tem prioridade no restaurante, no shopping, no cinema, no teatro, na sala de aula. E quer cortar meu barato quando vai tomar sua água com gás no butiquim?

Minha vizinha era um exemplo de retidão. Jovial, levantava às seis para correr na Lagoa do Taquaral. Não bebia, não fumava, não comia carne vermelha. Dormia antes das dez e não perdia a missa de domingo. Quando descobriu que estava com câncer, era tarde demais. No velório, os amigos, todos fumantes, lamentavam a ironia do destino.

Não quero com isso encorajar ninguém a fumar. Fumar é ruim. Mas também é bom. Quem fuma não tem fôlego pra nada. Mas também é uma pessoa mais interessante, mais divertida, mais tolerante. O fumante desafia a morte cotidianamente e este enfrentamento diário o torna mais sedutor. Se você fumar, poderá morrer antes do combinado. Mas pode ser que não. O avô de uma grande amiga, notório jornalista de Jundiaí, morreu na casa dos 90, tendo fumado três maços por dia desde os 10 anos de idade. E não morreu de câncer.

Na verdade, estamos ficando chatos demais. Implicantes até dizer chega. Nos meus devaneios, sonho com aqueles cafés enfumaçados onde Jean-Paul Sartre e Simone de Beavouir filosofavam envoltos em anéis azulados de fumo. O problema, ébrios leitores, é quando começamos a associar o cigarro com a falta de caráter. Soube que alguns jornais estão contratando apenas repórteres que não fumam, com o argumento de que dão menos despesas médicas e rendem mais para a empresa. Não é à toa que a imprensa nacional parou junto com os tabagistas inveterados, como Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes.

Quando apontamos o tabagismo como um desvio moral, estamos, necessariamente, afirmando que a pessoa que não fuma é melhor, mais responsável e mais íntegra do que aquela que fuma. Esse era o discurso de Hitler, que nunca botou um cigarro na boca e apostava na criação de uma “raça pura”, formada por super-heróis, na aparência e na conduta. Eu, que não gosto de gente perfeitinha, reivindico o direito de continuar jogando no time de Albert Camus, Humphrey Bogart e Lauren Bacall. E sem me sentir culpado por isto.

(Publicado originalmente na edição 28, de fevereiro de 2005, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, dezembro de 2004

O Robin Hood dos bares



Essa quem contou foi meu amigo Moacyr Luz, compositor e botequeiro dos bons, autor de sambas que adoro – como “Delírios da Baixa Gastronomia”, só para citar um exemplo. Pois bem. Era os anos de chumbo, ditadura lascada comendo solta. Mas o povo heróico – aquele do brado retumbante – não arredava o pé do botequim, mesmo depois do toque de recolher. Quando aparecia algum milico, era logo convencido a participar da beberagem, com a desculpa de celebrar alguma data cívica (naquela época sempre havia uma data cívica a ser comemorada).

O Bar da Maria, porém, também era freqüentado pela turma da esquerda, muitas vezes disfarçada de sambista para não entrar no pau-de-arara. Violões e cavaquinhos em punho, bastava avistar uma farda verde-oliva que se punha logo a cantar Dom e Ravel. A sorte é que tanto um lado quanto o outro era peixe pequeno. Recrutas sem muita ideologia e aspirantes a guerrilheiros que nunca haviam matado um passarinho.

E a madrugada se arrastava, democrática apenas no botequim, com fardados e barbudos dividindo a mesma mesa. É claro que a convivência não era sempre tranqüila. Às vezes uma das partes desconfiava do envolvimento de alguém num trabalho sujo e, invariavelmente, os jornais ganhavam um presunto fresco para as manchetes policiais do dia seguinte. Ou o bar perdia um freguês, obrigado a sumir do mapa.

O fato é que, certa noite, quando a bebedeira já havia atingido níveis alarmantes, apareceu um ladrão. Um ladrãozinho comum, com meia de mulher tapando o rosto e um revólver enferrujado, que ele apontava para todos os lados.

– Todo mundo para o banheiro que isto é um assalto! – gritou o clássico jargão.

E foi assim que acabaram todos metidos no minúsculo lavabo: guerrilheiros e soldados desarmados, prostitutas, músicos, bêbados comuns e até um cão vira-lata, que dormia na porta do banheiro quando irrompeu a remandiola.

E o ladrão ali, remexendo a caixa registradora, enfiando garrafa de uísque na sacola, fuçando a carteira do português que, à esta altura, estava mais branco do que o azulejo da parede.

– Ora, pois, aqui só tem pindura, ó gajo! – tentava argumentar o Portuga.

Mas o bandido no maior “nem te ouço”, metendo no saco até o galinho de Barcelos, que ficava pendurado no balcão, junto à flâmula do Vasco.

Nisso, ouviu-se uma voz vinda do banheiro:
– Ô, seu ladrão! Ô, seu ladrão!

E o seu ladrão, muito compenetrado com seu trabalho, deu de ombros.

– Ô, seu ladrão! – insistia a voz desconhecida.
– O que é, porra? Não vê que estou ocupado? – respondeu o gatuno, limpando o vidro do relógio do português, que já reluzia em seu pulso direito.

E a voz de bêbado, trêmula, mas decidida, pediu:
– A pindura, seu ladrão! Rasga a nossa pindura!

Antes de sair, o ladrão dirigiu-se até a parede onde estavam coladas, com fita crepe, as contas da clientela. E, num gesto de comovente solidariedade, rasgou todos os fiados em pedacinhos, bem na frente do português.

– Falou, mané! – disse, antes de sair correndo pela porta da frente.

De dentro do banheiro abafado, política à parte, ressoaram os aplausos da freguesia, em reconhecimento à nobre atitude do homem mascarado. O Robin Hood dos bares.

(Publicado originalmente na edição 27, de dezembro de 2004, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, set/out/nov de 2004

Paraíso, um botequim que nunca fecha



A morte é injusta porque nos priva da companhia de pessoas muito interessantes. Sinto profundamente a perda de algumas dessas almas privilegiadas. E o pior é que se foram antes que eu pudesse ter dividido com elas alguma conta de bar. Por isso, dentro do meu ateísmo fajuto, nutro uma esperança infantil de que exista vida após a morte e que o paraíso seja um botequim que nunca fecha – e onde a cerveja esteja sempre gelada.

Minha mesa neste botequim já estará reservada e eu a dividirei com amigos queridos – anônimos e famosos. Pela manhã abrirei um jornal repleto de boas notícias e Rubem Braga e Nelson Rodrigues assinarão suas crônicas diárias, que falarão de amizade, amor e de um futebol astral, onde sempre vencerá o melhor e não o mais rico.

Por volta das onze chegarão Vinícius de Moraes e Tom Jobim e pedirão uísque e várias rodadas de chope. Falarão comigo sobre a brusca poesia da mulher amada e Leila Diniz, vestindo um eterno biquíni verde-água, será minha namorada. E vai ser como amar todas as mulheres do mundo, porque não haverá ciúme.

O almoço será servido lá pela uma e meia da tarde e comeremos à vontade, peixe com coco, camarões graúdos, surubim na pedra, e haverá uma roda de samba com Cartola e Nelson Cavaquinho, Ismael Silva e Noel Rosa, Clara Nunes e João Nogueira. Candeia será um anjo moreno e o ambiente será tomado por uma atmosfera de pura anarquia embriagada. Darcy Ribeiro fará um discurso comovido, falando que a mestiçagem nacional finalmente encontrou a terra de Pindorama. Glauber Rocha, esperto, filmará este momento.

Numa grande mesa de pau-brasil, ao fundo, estarão os escritores, confabulando, entre um pedaço de pernil e um gole de cachaça. Oswald de Andrade entrará numa baita polêmica com Manuel Bandeira acerca da traição de Capitu. Um defenderá que ela chifrou Bentinho; outro que não. Machado de Assis, na cabeceira, irá engasgar com a farofa, divertindo-se muito com a discussão. E Carlos Drummond, agora um anjo torto, tomará seu conhaque em silêncio, comovido como o diabo.

Meu lugar preferido será o balcão, onde estarão apoiados Marighella e Lamarca. Recordaremos os tempos sombrios, mas prevalecerá o bom humor e o otimismo. Os guerrilheiros do Araguaia – Osvaldão à frente – chegarão da selva, mas, ao invés de fuzis, trarão violões. A farra continuará ad eternum. No jardim do Éden – projetado por Burle Marx –, Luís Carlos Prestes e Olga se amarão, livremente.

Já é noite alta. Pelo botequim circularão Henfil e Mário Lago, Cândido Portinari e Zumbi dos Palmares, Elis Regina e Raul Seixas, Grande Otelo e Monteiro Lobato, Santos Dumont e Garrincha. O ambiente será barulhento e abafado, mas não faltará chope gelado para ninguém. Nem faltará solidariedade – alguém sempre ajudará o deslocado a enturmar-se rapidamente. A vizinhança não reclamará da cantoria nas mesas e ninguém precisará pagar a conta. E, muito importante, a cachaça não causará dependência, nem matará de cirrose – até porque a vida será eterna.

Se for verdade que o paraíso é como a gente quer, então para lá estará transferido o Brasil real, que revela os melhores instintos. Ao Brasil oficial, caricato e burlesco, será reservado o inferno. E o nome do botequim será Bar Esperança – o último que fecha. Se não for assim, não quero ir. Deixem-me mais um pouco por aqui, bebendo em nome desse país doce e complicado.

(Publicado originalmente na edição 26, de set/out/nov de 2004, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, agosto de 2004

Zeca Pagodinho expulso do Bar do Pachola



Um dia, certamente num sábado, o Zeca Pagodinho baixou no Mercado Municipal de Campinas. Veio sozinho, com uma roupa esporte, meio atleta, meio disfarce.

Naquela época ele ainda não era o artista estelar que é hoje, mas já tinha lá o seu nome na praça. Entrou no Bar do Pachola respeitosamente, como se pisasse numa catedral. Bateu a mão no balcão: “Me vê uma branca”. Virou numa só talagada, fez careta, cuspiu no chão. E sorriu, estalando a língua.

Duas, três. Na quarta dose de pinga apareceu um pandeiro. Depois um cavaquinho. Um balde de plástico ficou sendo o repique. E estava armado o pagode. Todo mundo queria acompanhar o Zeca. Na cachaça, principalmente. E dá-lhe birita na mesa para locupletar o vazio da malandragem.

A notícia correu e não tardou para que meia Campinas estivesse se acotovelando para ver de perto o sambista carioca. O ambiente ficou impossível. Para levar o copo de cerveja à boca, o sujeito tinha de ter, no mínimo, noções básicas de contorcionismo. O bodum misturou-se à fumaça dos cigarros e do defumador da loja de umbanda ao lado; e o boteco ficou parecendo uma sauna espírita de tanto exucaveira suando junto.

Foi aí que o Pachola, mais molhado do que tampa de marmita, se deu conta de que havia perdido o controle da situação. Bateu o olho no Zeca e notou o detalhe crucial na roupa de moletom que ele usava: não havia bolsos!

Vislumbrando a ausência da carteira e a iminência do fiado (ou do calote), tomou uma providência. Pequeno e ágil como um ponteiro de segundos, foi cutucando com o garfo, abrindo passagem, empurra daqui, empurra de lá. “O senhor faça a gentileza de se retirar do meu botequim”, bradou ao nosso artista, com a polidez que lhe era peculiar.

E o Pachola lá se importava com o cartaz do Zeca Pagodinho? “O meu negócio não é samba cantado, é samba chorado”, vivia repetindo. E foi feita a sua vontade. Até porque o Pachola só falava uma vez. A segunda poderia vir acompanhada de um banho de água fervente ou carinho pior. O repique voltou à sua função original de balde, o Zeca levou consigo a abúlica caterva e, dizem, nunca contou essa história para ninguém, para não macular a biografia.

Tempos depois, vi uma entrevista do Zeca na televisão, na qual ele afirmava jamais ter sido expulso de um bar. Senti, pelo sutil vacilo na entonação de voz, que ele não estava lá muito seguro do que acabara de dizer. Desviou o olhar para o chão e deixou entrever na face um princípio de riso ou ironia.

Contam as testemunhas oculares que, anos mais tarde, Zeca Pagodinho voltou. Terno branco alinhado, um segurança logo atrás. Parou diante do bar, puxou um cigarro do paletó, uma caixa de fósforos e acendeu, dando uma longa tragada. Deixou a fumaça azulada sair pelo nariz, sempre encarando o Pachola. Como cantou o Paulinho da Viola, fez-se uma pausa de mil compassos. E quem falou primeiro foi o Zeca: “E aí, mêrmão. Tá lembrado de mim?”.

E o Pachola, sem abaixar a guarda, fez que sim, movendo a cabeça para baixo e para cima. O Zeca deu outra tragada funda no cigarro e soltou uma bonita baforada em forma de anéis. Jogou o resto no chão, esmagando com a ponta do bicolor. E disse, para todo mundo ouvir: “Pois então; eu vim aqui para te dizer que saí do hotel para tomar uma cerveja. Mas não vai ser no teu bar”.

Dito isto, virou as costas e saiu triunfante, com o agridoce sabor da vitória escorrendo pelo canto da boca. Feito cachaça.

(Publicado originalmente na edição 25, de agosto de 2004, da revista Semana 3)

Bruno Ribeiro, junho de 2004

Meu primeiro porre de mojito



Ébrios leitores!

Certa vez, em Cuba, tomei um porre homérico de mojito (pronuncia-se "morrito") no La Bodeguita, botequim preferido de Fidel Castro. Aliás, Fidel deve ser o único cubano a beber por ali, tal a quantidade de turistas por metro quadrado. No caminho para o banheiro fui esbarrando no alemão, tomei cotovelada do japonês, tropecei no italiano, dei um jogo de corpo no argentino (nesse, o empurrão foi proposital).

Depois do quinto mojito, saí cantando uma velha marchinha de carnaval: "Brasil vai lançar foguete/ Cuba vai lançar também/ Lança, Cuba, Cuba lança/ quero ver Cuba lançar". No que fui repreendido por Anita, uma morena espetacular que me acompanhou na beberagem: "Compañero, por favor..." Foi minha única recaída de turista, confesso.

Turista é uma coisa deplorável. Ainda bem que não nasci com essa vocação. Sabe como identificar um gringo nas praias do Rio? É aquele cara de camisa florida e chapéu cata-ovo. O tipo vem ao Brasil supondo que todos por aqui saem de casa com as camisas ridículas que ele via nos filmes da Carmem Miranda. Da mesma maneira que, ao chegar em Cuba, a primeira coisa que o turista tem de fazer para não passar como tal é evitar camisetas do Che Guevara.

No La Bodeguita foi fácil beber de graça. Brasileiro tem uma vantagem: pode ser oriundo (oriundo é ótimo) de qualquer país do mundo, porque tem cara de povo. De qualquer povo. Sobretudo cara de cubano, por conta dos laços de sangue que nos unem. Depois do terceiro mojito começou a chegar bebida na minha mesa. A dona da bodega - a Célia Cruz, só que ruiva -, sussurrou entre dentes, enquanto botava na conta dos gringos: "Tranquilo, brasileño, estes están pagando los yankes". Sorri, embevecido, sentindo-me em casa: "Gracias, mi madre! No sabia que en Cuba ustedes también tenian el jeitinho brasileiro".

Anita, sempre vigilante, conduziu-me ao táxi. Antes, porém, combinou a corrida com o chofer e murmurou-me ao pé do ouvido: "Todo bien que tu eres cubano, pero hable solo el indispensable". Ao taxista perguntei o indispensável sobre a origem do mojito, este drinque fantástico. E ele contou-me que a mistura de hortelã com rum teria sido criada por um inglês, em alto-mar. Até táxi, em Cuba, é cultura.

Ninguém sabe se a história é verdadeira, mas quem a narrava, no balcão do La Bodeguita, era ninguém menos que o escritor norte-americano Ernest Hemingway. Segundo ele, o almirante e aventureiro inglês Francis Drake, o primeiro homem branco a aportar em ilhas do Pacífico Sul, teria tido a idéia de misturar a planta com boas doses de rum. A desculpa: a mistura seria a ideal para proteger os marujos dos problemas respiratórios e estomacais, tão comuns nas grandes travessias marítimas.

Com o estômago levemente embrulhado, devido à azeitona da empada, convidei o taxista para uma saideira. Em troca, ele me forneceu a receita secreta do mojito.

(Publicado originalmente na edição 24, de junho de 2004, do jornal Semana 3)